Artigo de dom João Santo Cardoso reflete sobre moradia como dimensão essencial do existir humano

A Campanha da Fraternidade 2026, com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), propõe uma reflexão que vai além da urgência social do déficit habitacional no Brasil. Para dom João Santo Cardoso, arcebispo de Natal, a moradia toca a própria estrutura da existência humana, pois diz respeito ao modo como a pessoa está e permanece no mundo.

Em artigo, ao abordar o tema, o arcebispo recorre ao pensamento do filósofo alemão Martin Heidegger, especialmente ao ensaio Construir, Habitar, Pensar (1951). Na obra, Heidegger afirma que “habitar é o modo como os mortais são sobre a terra”. Segundo ele, o ser humano não apenas ocupa um espaço físico: ele habita. E esse habitar não é uma atividade secundária, mas a forma fundamental de existir – cuidar, preservar e permanecer.

O filósofo distingue “construir” e “habitar”, recordando que o termo alemão bauen (construir) tem ligação etimológica com o verbo “ser”. A reflexão inverte a lógica comum de que primeiro se constrói para depois habitar. Para Heidegger, constrói-se porque já se habita; constrói-se porque se é. Assim, erguer uma casa não significa apenas levantar paredes, mas criar condições para uma presença enraizada e protegida na terra.

Nesse horizonte, a casa deixa de ser vista apenas como abrigo funcional e passa a ser compreendida como espaço de memória, vínculos e cuidado. Habitar significa proteger o que foi confiado e viver de maneira atenta às relações com o mundo, reconhecendo limites, laços e transcendência.

A partir dessa perspectiva, dom João destaca que a perda da moradia ou a vida em condições precárias provocam não apenas carência material, mas uma verdadeira ferida existencial. A insegurança habitacional compromete a estabilidade, a dignidade e a capacidade de projetar o futuro.

“Sem um espaço que proteja e acolha, enfraquece-se a possibilidade de confiar, sonhar e construir sentido”, resume.

O Texto-Base da Campanha também aponta que a negação do direito à moradia digna revela graves insuficiências humanas e sociais. A ameaça constante de despejo, a situação de rua ou as construções improvisadas fragilizam o sentimento de pertencimento e fragmentam a vida.

À luz da fé cristã, a reflexão ganha ainda maior profundidade. A encarnação recorda que o próprio Deus assumiu o habitar humano. Ao “vir morar entre nós”, o Verbo partilhou a experiência concreta de uma casa, conferindo à moradia uma dimensão de encontro entre o humano e o divino.

Promover moradia digna, portanto, é mais do que atender a uma necessidade básica: é garantir condições para que cada pessoa exerça plenamente seu modo próprio de existir. Defender a moradia é defender a dignidade humana. Onde falta casa, falta chão para que o ser humano floresça.

 

Acesse (aqui) o artigo de dom João na íntegra.

 

 

Foto de capa: Raiane Miranda

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