As origens da Cristologia Paulina

É importante considerar, em primeiro lugar, o horizonte mais amplo do pensamento do apóstolo Paulo, este se configura em torno da concepção de Jesus Cristo como o Filho de Deus. Assim, sua Cristologia, permeia então todo o seu pensamento e joga luzes em todas as direções de sua abordagem teológica. Há um exemplo interessante, entre outros, quando o apóstolo, de maneira midráschica, apresenta Jesus, dirigindo-se aos Coríntios, como aquela rocha da qual os Israelitas receberam a água durante sua peregrinação pelo deserto:

“…todos beberam da mesma bebida espiritual; de fato, bebiam de uma rocha espiritual que os acompanhava. Essa rocha era o Cristo.” (ICor, 10,4)

É muito claro que Paulo trabalha aqui a partir da compreensão sapiencial que trata do papel personificado da sabedoria em Israel (Sb 11,2-4). O apóstolo, na verdade, compreende que Cristo Jesus é esta sabedoria de Deus vinda na carne, na condição humana:

“ Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder de   Deus e sabedoria de Deus.” (ICor 1,24)

Vê-se, então, a largueza e o alcance da concepção paulina a respeito de Cristo, compreendendo, pois, que Ele estava envolvido nas coisas de Deus, antes de seu nascimento e de seu ministério terrestre. Assim, ao pensar as raízes da Cristologia Paulina, pode-se detectar o seu longo alcance, permeando e fecundando toda a compreensão teológica de Paulo, tornando-se a referência central de sua experiência de fé, de sua compreensão da vida na comunidade e de seus ensinamentos teológicos. Uma centralidade de Cristo que não apenas opera como força conceitual, mas, tem uma força experiencial determinante. Na verdade, é o segredo transformador de sua experiência de conversão e a alavanca magnífica de sua invejável força no sustento de sua missão. Assim, ao considerar as origens da Cristologia Paulina, há de se considerar dois movimentos fortes. Um se encontra na direção do que Paulo tinha como raízes de conceitos e tradições influenciando sua compreensão e abordagem teológicas. Outra direção é aquela que faz Paulo, a partir de Cristo, como no exemplo acima, compreender toda a história e a vida.

A abordagem da origem da Cristologia Paulina

Essa abordagem pode ser feita a partir de diferentes perspectivas, comprovando sua inquestionável e complexa riqueza de pensamento e articulação da sua compreensão de Cristo Jesus. Três perspectivas importantes não podem deixar de ser consideradas para a comprensão da sua cristologia: 1. o Judaísmo, lembrando Paulo como Fariseu e, conseqüentemente, a força e particularidades de sua crença a respeito da vinda do Messias. 2. o Helenismo, uma influência que não pode ser desconhecida e descartada. Quando se fala do título Kyrios, a apropriação do conceito tem raízes, obviamente, no sentido pagão do uso de “Senhor”, com suas influências  no pensamento cristão dos inícios. 3. a Conversão de Paulo ou  seu chamamento e a tradição cristã primitiva. Nesses três âmbitos se concentram raízes importantes, com ricos desdobramentos e informações, de sua bem elaborada visão cristológica.

  1. Quando se pensa, pois, o Judaísmo, é inquestionável a força de sua influência na concepção que Paulo tem a respeito da vinda do Messias. Ele não fala tão explicitamente da sua concepção a partir da matriz farisaica. Não se detém nessa explicitação. Obviamente que, na base de sua concepção messiânica, está a convicção a respeito da vinda de um Messias, humano e de origem davídica. É claro que Paulo recebe muito destas concepções do messianismo judaico, particularmente do farisaísmo. A detecção desses estratos supõe um percurso próprio e abordagens muito específicas. Aqui, basta a referência incontestável da influência dessas concepções messiânicas existentes e presentes, de maneira forte, no tempo precedente à vinda de Cristo.
  2. Em se tratando do mundo do helenismo, é incontestável que de lá vieram muitos elementos influentes para o pensamento paulino como para os conceitos do cristianismo nascente. Essas averiguações são feitas especialmente por intermédio da história das religiões, quando se constata a presença de formas próprias advindas do mundo Greco-romano. Nesse sentido, o corpo literário de Macabeus e Sirácida atesta uma clara influência do helenismo no pensamento judaico em se tratando da concepção de Deus.
  3. Nas cartas paulinas e no seu pensamento, é significativa a centralidade da referência à sua conversão/chamamento, focalizando a relevância do seu encontro e à confissão da fé cristã nos inícios. A formulação de sua cristologia, então, recebe dessa referência uma considerável e determinante influência. Há de se considerar, pois, a relevância de sua experiência e a ligação desta com a confissão cristã primitiva.

Em Gl 1,11-23 se encontra a mais antiga colocação de Paulo a respeito de sua conversão e suas conseqüências. Ele destaca que não recebeu o evangelho por meio de seres humanos. Sua experiência não é fruto de intervenções ou instruções humanas. Seu testemunho afirma que recebeu a revelação diretamente de Deus. É claro que o mais importante, ele enfatiza, é o Evangelho que recebeu, mais do que o fato de sua conversão, como conseqüência. Nesse sentido, verifica-se uma diferença entre a narrativa de Gálatas e as narrativas dos Atos dos Apóstolos, 9 e 22 que acentuam a perspectiva de sua conversão. Em Atos 9, Ananias cumpre o que lhe é designado de ir ao encontro de Saulo para lhe dar o sinal, ser batizado, enquanto em Atos 22, Ananias expõe algo acerca do encargo do apóstolo. Bem assim, como em relação à narrativa de Atos 26. De qualquer forma, é importante sublinhar que Paulo entende que sua missão, o encargo recebido e o conteúdo essencial de sua missão não vieram de seres humanos. É muito claro que Ananias não foi a instância última de instrução e encargo para Paulo na sua missão.

“ Mas o Senhor disse a Ananias: Vai, porque este homem é um instrumento que escolhi para levar o meu nome às nações pagãs e aos reis, e também aos israelitas.” (At 9,15)

“Ele (Ananias), então, me disse: O Deus de nossos pais escolheu-te para conheceres a sua vontade, veres o Justo e ouvires a sua própria voz.” (At 22,14)

“Todos nós caímos por terra. Então, ouvi uma voz que me dizia, em hebraico: Saul, Saul, por que me persegues? É inútil teimares contra o ferrão! Eu respondi: Quem és, Senhor? E o Senhor me respondeu: Eu sou Jesus, aquele que estás perseguindo. Mas, agora, levanta-te e fica de pé…” ( At 26,14-16)

Elementos referenciais importantes

Nesse âmbito estão alguns elementos de referência, muito importantes, a serem considerados: o Evangelho de Cristo, Cristo Ressuscitado e Exaltado, a corporalidade de Cristo, Cristo Salvador.

  1. Paulo insiste no conteúdo do Evangelho e se preocupa com ele. Não é sua preocupação mostrar provas da autenticidade de sua condição de cristão. Ora, ele identifica o seu Evangelho com o “Evangelho de Cristo”, Gl 1,7, isto é, o Evangelho que vem de Cristo, Cristo é o seu conteúdo. Por isso, ele acentua o querer de Deus na revelação do seu filho a ele, Gl 1,15-16. O Filho de Deus é, pois, o conteúdo desta revelação. Isso comprova o seu testemunho de que não foi Ananias quem lhe ensinou algo sobre Cristo. Ananias lhe faz uma revelação profética, sem nenhuma instrução ou conselho oferecidos. Contudo, é importante ter presente que Paulo testemunha ter recebido tradições e ensinamentos sobre Jesus advindos de outros cristãos, como é o caso de Pedro, quando ele visitou Jerusalém, Gl 1,18, bem como testemunha em Gl 2,1-10.
  2. Cristo Ressuscitado e Exaltado: o apóstolo aprendeu que Cristo estava vivo. Ele era um fariseu e acreditava na ressurreição. Sem dificuldade, compreendeu que os cristãos professavam essa verdade da ressurreição de Cristo. Na 1ª Carta aos Coríntios, ele sublinha essa perspectiva:

“Eu não vi o Senhor ressuscitado?” (ICor 9,1) e ICor 15,8: “…por último, apareceu também a mim, que sou como um aborto.”

Paulo compreende que Jesus Ressuscitado, vivo no céu, é o ungido de Deus. Sua morte vitoriosa o entroniza como o ungido de Deus. Ele se fez maldição por todos a fim de redimir todos do jugo da lei. Assim, a ressurreição ilumina toda a compreensão de Paulo a respeito de Jesus e sua crucifixão  (ICor 12,3) Foi a sua experiência no caminho de Damasco que iluminou essa sua compreensão de Jesus. Anteriormente, ele via Jesus do ponto de vista meramente humano (IICor 5,16), jamais como o messias judeu. Sua experiência o leva a ver Cristo Jesus como o Filho de Deus, naturalmente sustentado pelas tradições apostólicas compartilhadas.

Sua experiência no caminho de Damasco o leva a compreender que Jesus é plena e estreitamente identificado com os cristãos. O Senhor ressuscitado pergunta a Paulo: “Por que me persegues? … Eu sou Jesus a quem estás perseguindo (At 9,4-5; At 22,7-8; At 26,14-15). Há, pois, uma conseqüente compreensão e conclusão de que os cristãos formam o povo de Deus. Deus estava muito próximo daquele povo perseguido por Saulo. Com esse povo, o Senhor se identificava. Assim, perseguir os cristãos, povo de Deus, era fazer oposição a Deus. As aflições dos cristãos eram as aflições de Deus.

Jesus, Salvador, sua corporalidade: Paulo compreende que, independentemente de suas ações, Cristo o interpela e lhe abre, por graça, a chance da conversão. A experiência dessa graça indica que Paulo deveria assumir uma nova postura em relação à lei. Até então, a lei tinha sido a referência central de sua vida religiosa. Cristo e sua experiência se tornaram, então, o centro de sua nova vida. Por isso, o apóstolo compreende que Cristo é o ápice da lei. Pela ação da graça, ele é capacitado para a obediência da fé. É a obediência da fé é fruto de uma experiência de gratuidade. Não funciona mais aquela compreensão em que a vida diante de Deus era vivida segundo o princípio ‘faz isto e viverás’. Obviamente que Paulo não desconsidera ou esvazia o sentido da lei mosaica. A lei mosaica é justa, santa e boa, e tantas de suas instruções têm um precioso valor moral. Mas, na verdade, a lei não alcança mais do que a indicação do que é bem e mal. Ela, em si, não capacita para a superação do mal. Só Cristo, por seu espírito, pode garantir a força e a condição para a superação do mal. Compreendemos porque Paulo se concentra na pregação de Cristo crucificado e ressuscitado, pois é Ele, Cristo, o evento que mudou a situação humana diante de Deus. É mediante a graça e a fé que se alcança a salvação. Paulo está consciente da força decisiva da escolha e da graça que recebe por Cristo, quando afirma:

“Quando, porém, Àquele que me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça, agradou revelar-me o seu Filho, para que eu anunciasse aos pagãos, não consultei carne e sangue…” (Gl 1,15-16)

Ele está convicto de que a sua conversão tem tudo a  ver com o seu chamado como missionário para anunciar o Evangelho de Jesus Cristo aos pagãos. Esse chamado compete a sua experiência da graça de Deus. Por isso mesmo, entendendo que diante de Deus vale a força da graça, entende também que não justifica e não tem sentido que qualquer um fique fora da graça de Deus. Assim, é de se pressupor que Paulo entende o coração do seu Evangelho a partir da sua experiência de conversão. O Evangelho, é, pois, uma experiência de conversão. A revelação de Cristo para ele é, pois, a experiência desta mudança, aquela luz que brilha e o cega. É a luz do Cristo Ressuscitado, a glória de Deus (Gl 1,12.16/ IICor 4,6). Paulo entende, portanto, a revelação como a chegada da era escatológica, do tempo das coisas novas de Deus. Cristo se torna, então, conseqüentemente, o centro da lei e da ética. Por isso, ele relê a história de Israel à luz da história de Cristo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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