Busquemos a sabedoria de Jesus! Vamos dialogar e criar pontes!

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

 

 

Há momentos na história em que a Palavra de Deus não apenas nos consola, mas se torna um espelho provocativo e necessário. Vivemos hoje um tempo forte e denso na vida pública do nosso país. Um período em que os debates políticos cruzam nossas praças, entram pelas telas de nossos celulares e, muitas vezes, chegam à mesa do almoço de domingo, ameaçando afastar quem se ama. É exatamente para essa realidade que o texto de Mateus 13 nos oferece luzes de discernimento, maturidade e sabedoria evangélica.

Para compreender a profundidade deste texto, precisamos olhar para o contexto da comunidade para a qual o evangelista Mateus escrevia. Era uma comunidade plural, marcada por conflitos de identidade, tensões políticas sob o Império Romano e divisões internas sobre como viver a fé. Diante desse cenário de polarização, Jesus propõe três movimentos pedagógicos e hermenêuticos fundamentais. Meditemos a partir de cada um deles, inspirados pela sagrada liturgia deste XVII Domingo do Tempo Comum.

A Parábola da Rede, que nos mostra que o Reino acolhe a pluralidade. A rede mencionada no versículo 47 não é uma pequena vara de pesca individual, mas uma imensa rede de arrasto. Ela não seleciona na hora em que é lançada; ela recolhe toda espécie de peixes. A tentação humana é sempre a de criar uma comunidade de “iguais” ou de “puros”, excluindo quem pensa diferente. A rede de Jesus nos lembra que o Reino de Deus abarca a diversidade da vida humana. Note que os pescadores não tentam separar os peixes enquanto a rede está no fundo do mar, em pleno movimento. A separação só ocorre na praia, no tempo devido. Quando tentamos antecipar o julgamento definitivo, rotulando irmãos, condenando opositores e cancelando vozes, assumimos um papel que não é nosso. O tempo presente é o tempo do diálogo e da convivência pacífica, não da condenação sumária.

A passagem encerra ressaltando o papel daquele que tira do seu tesouro “coisas novas e coisas velhas”. Não há Reino de Deus na radicalização ideológica que destrói as pontes. O cristão maduro sabe honrar a tradição de valores fundamentais (o velho) sem se fechar às respostas que o tempo presente exige (o novo). Diante disto, como aplicar esse discernimento de Jesus ao momento político e social que atravessamos?

A rede que acolhe tudo e a todos nos coloca diante do dilema da polarização, das bolhas ideológicas e da divisão nas famílias. O chamado que esta nos faz é o da unidade na diversidade: amar o irmão acima de suas opções partidárias. Mais que discursos de ódio, rotulagens e cancelamentos do outro, somos chamados a ser sinais da Caridade na Verdade, sendo exemplos na defesa e propagação das convicções pessoais, mas sem perder o respeito e o afeto mútuo que nos cabe em enquanto família cristã que somos.

Outra imagem belíssima que pode nos iluminar nestes tempos fortes e intensos é a da parábola do tesouro, onde o homem sábio retira coisas novas e velhas. Esta se contrapõe às atitudes de radicalismos que rejeitam a história ou fecham-se ao futuro, de modo a ser um convite ao constante diálogo Institucional, com foco na busca do bem comum integrando valores e avanços, exercendo assim um autêntico cristianismo.

A família é a primeira instituição social abençoada por Deus. É doloroso ver laços de sangue e de afeto rompidos por divergências políticas temporárias. O Evangelho nos convida a partir da igreja doméstica ao referido cultivo da unidade na diversidade. Unidade não significa uniformidade. Dentro de uma mesma casa podem e devem existir visões de mundo distintas. A maturidade cristã reside em amar o irmão não porque ele pensa como eu, mas porque ele é meu irmão.

Nas instituições sociais e nas comunidades de modo geral o desafio se expande. O Evangelho nos conclama ao compromisso com a Caridade na Verdade. Escolas, Igrejas, associações e poderes públicos têm a responsabilidade ética de manter o tecido social unido. Ainda hoje é pertinente a dinâmica tripartite que nos recorda que no essencial, cabe a unidade; no secundário, a liberdade e em tudo, a caridade. As instituições não devem servir como arenas de amplificação do ódio ou da divisão. O debate de ideias deve ser estimulado, mas sempre pautado pela Caridade na Verdade. Defender a justiça, a dignidade humana e o bem comum exige firmeza nas convicções, mas nunca o aniquilamento moral do interlocutor.

Queridos irmãos, o Divino Mestre vai ainda além quando nos propõe a reflexão a partir do tesouro e da pérola preciosa. O nosso maior tesouro é o próprio Cristo e o seu mandato de amor. Ao sairmos desta celebração e voltarmos para as nossas casas, para os nossos trabalhos e para o debate público nas redes sociais e nas ruas, sejamos construtores de pontes, e não de muros, brilhantes e reluzentes como tesouros e pérolas preciosas, diante das quais todo cidadão se sente atraído a sair de si, em busca de algo maior, desfrutando ao final de uma alegria que transcende qualquer cenário meramente humano, político, social.

Que esta sagrada liturgia, encerrando nossas reflexões a partir de Mt 13, nos dê a graça de seguir avançando em nossa jornada de Fé, Esperança e Caridade, crescendo na busca da unidade, sobretudo em tempos de divisão; exercendo a caridade em meio a todo discurso e prática de ódio; e testemunhando a verdade com mansidão e respeito, frente a todo cenário maléfico de falsas notícias e ataques mesquinhos, contra toda honra pessoal e contra toda a dignidade humana, para assim sermos, no meio do nosso país, uma rede forte que acolhe a todos, mas que ao final apresenta tudo a Cristo, Senhor e Juiz da História, cujo Reino é destinado aos que agora atuam fortemente na promoção verdadeira da justiça, da verdade e da paz. Amém.

 

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