Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)
Caminhamos a passos largos para a conclusão do Tempo Pascal. A liturgia deste Sexto Domingo da Páscoa nos coloca em um clima de profunda expectativa. Estamos entre a alegria da Ressurreição e a iminência da Ascensão do Senhor, que nos prepara para o grande coroamento de Pentecostes. As palavras de Jesus são palavras de despedida, sim, mas, acima de tudo, são palavras de promessa e de consolo. Ele não nos deixa entregues à própria sorte; Ele nos garante a Sua presença através do “outro Defensor”. Hoje recordamos também com carinho o dia das mães.
No Evangelho deste domingo (Jo 14,15-21), Jesus inicia sua fala com uma condição que deve ecoar em nossos corações: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos”. Aqui, o Senhor retira o amor do campo do mero sentimentalismo ou da emoção passageira. Para o cristão, amar não é apenas “sentir”, mas é “aderir”. Na nossa querida Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, em meio aos desafios de uma metrópole tão vasta e complexa, somos chamados a mostrar esse amor através da nossa fidelidade cotidiana. Guardar os mandamentos não é um peso, mas a resposta de quem descobriu um tesouro. Quem ama a Cristo, ama o que Ele ama; quem ama a Cristo, vive a ética do Reino, que é a ética do cuidado, da justiça e da caridade.
Jesus sabe, contudo, que a nossa natureza humana é frágil. Ele conhece as pressões do mundo, o medo da solidão e as perseguições que a Igreja enfrentaria ao longo dos séculos. Por isso, Ele nos faz uma promessa sublime: “Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Defensor, para que permaneça para sempre convosco: o Espírito da Verdade”. Que conforto para as nossas almas! O Espírito Santo é o “Paráclito”, aquele que se coloca ao nosso lado para nos defender, nos guiar e nos recordar tudo o que o Mestre ensinou. Em um mundo onde as “fake news“, as ideologias passageiras, as narrativas ideológicas e a cultura do descarte tentam obscurecer a realidade, o Espírito da Verdade é a bússola que mantém a Igreja no rumo certo.
Essa força do Espírito não é algo abstrato ou distante. Nós a vemos em ação na primeira leitura deste domingo (At 8,5-8.14-17). Vemos a figura de Filipe, que desce à Samaria e anuncia o Cristo. O texto nos diz algo maravilhoso: “Houve muita alegria naquela cidade”. Onde o Evangelho é anunciado com autenticidade, a alegria floresce, mesmo em terras antes consideradas áridas ou hostis, como era a Samaria para os judeus.
Ao olharmos para a nossa realidade carioca, infelizmente tantas vezes marcada por notícias de violência e dor, devemos nos perguntar: estamos levando essa alegria de Filipe às nossas “samarias” urbanas? O texto dos Atos nos mostra que, ao saberem da acolhida da Palavra, os apóstolos Pedro e João foram até lá e “impuseram as mãos sobre eles, e eles receberam o Espírito Santo”. Este é o fundamento do sacramento da Confirmação. É o Espírito que completa a obra iniciada no Batismo e nos torna adultos na fé, prontos para o testemunho público em uma sociedade que tanto sede de Deus.
E como deve ser esse testemunho? São Pedro, na segunda leitura de hoje (1Pd 3,15-18), nos oferece um roteiro de ouro para a nossa missão como discípulos missionários. Ele nos exorta: “Santificai em vossos corações o Cristo Senhor. Estai sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir”. Nestas palavras, encontramos o cerne da nossa presença no mundo. O mundo nos pergunta: “Por que vocês ainda acreditam? Por que vocês ainda defendem a vida, a família e os pobres?“. A nossa resposta é a “razão da nossa esperança”: Jesus Cristo Ressuscitado.
No entanto, Pedro nos dá uma advertência fundamental sobre o modo de evangelizar: “Contudo, fazei-o com mansidão e respeito, mantendo sempre uma boa consciência”. Em tempos de agressividade verbal e intolerância, inclusive dentro de ambientes religiosos, o cristão deve se distinguir pela mansidão. Dar a razão da esperança não é “vencer uma discussão” ou humilhar o interlocutor, mas atrair pelo brilho da verdade vivida no amor. Pedro nos recorda que “Cristo morreu uma vez por todas por causa dos pecados, o justo pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus”. Se o Senhor nos tratou com tal misericórdia, como poderíamos nós tratar o próximo com soberba?
Ao retornarmos ao Evangelho, ouvimos uma das frases mais belas de toda a Escritura: “Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós”. Nestas palavras de Jesus (Jo 14,18), encontramos o remédio para o grande mal do século XXI: a solidão existencial. Muitas pessoas hoje se sentem órfãs de sentido, órfãs de afeto verdadeiro, órfãs de valores sólidos. O Senhor nos garante que Ele permanece vivo e operante no meio de nós. Ele se manifesta na Eucaristia, na Palavra proclamada, mas também naquele que sofre, naquele que é marginalizado nas periferias existenciais da nossa cidade.
Jesus conclui dizendo: “Quem acolhe os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele”. A vida cristã é, portanto, este círculo de amor: amamos a Jesus obedecendo à Sua Palavra; o Pai nos ama por reconhecer em nós os traços do Seu Filho; e, nessa comunhão amorosa, o mistério de Deus se manifesta em nossa história.
Neste domingo, peçamos ao Senhor a graça de sermos dóceis ao Espírito Santo, o Defensor que nos foi enviado. Que Ele nos ajude a santificar Cristo em nossos corações e a sermos defensores da vida e da dignidade humana em todos os cantos do nosso Rio de Janeiro. Que a nossa esperança não seja uma vã ilusão, mas uma certeza enraizada na Ressurreição.
Que Maria Santíssima, que comemoramos neste mês de maio, e que permaneceu em oração com os apóstolos à espera do Espírito, nos ensine a ser fiéis aos mandamentos do seu Filho e a levar a alegria do Evangelho a todos os homens e mulheres de boa vontade.
