Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)
Nesta Quarta-feira Santa, encontramo-nos no limiar do Sagrado Tríduo Pascal. A liturgia destes dias respira uma densidade única, um misto de expectativa, silêncio e profunda constrição. Hoje, a piedade popular volta o seu olhar, cheio de ternura e compaixão, para a figura da Bem-Aventurada Virgem Maria, sob o título de Nossa Senhora das Dores. Se meditamos sobre o Encontro lancinante nas ruas de Jerusalém, agora paramos para contemplar o coração dessa Mãe. O profeta Jeremias, no Livro das Lamentações, expressa de forma insuperável a desolação que a tradição cristã aplica à Virgem Maria: “Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor igual à minha dor, que me atormenta, com a qual o Senhor me feriu no dia da sua ardente ira” (Lm 1,12).
A dor de Maria não foi um acontecimento isolado no Calvário, mas uma vocação abraçada no amor e vivida na fidelidade contínua. O evangelista São Lucas nos recorda que o sofrimento já havia sido anunciado no alvorecer da vida de Jesus. Quando Maria e José apresentaram o Menino no Templo, o velho e Justo Simeão proferiu aquelas palavras que ecoariam para sempre na alma da Virgem: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos em Israel, e a ser um sinal de contradição. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma, para que se revelem os pensamentos de muitos corações” (Lc 2,34-35). Ao dizer o seu “Eis aqui a serva do Senhor” (Lc 1,38) na Anunciação, Maria aceitou não apenas as alegrias da maternidade divina, mas também a cruz que viria com ela.
Neste caminho de dores, um dos momentos mais angustiantes para a Sagrada Família foi a experiência do exílio e do desamparo. O Evangelho de Mateus nos relata a urgência e o terror da Fuga para o Egito: “O anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: ‘Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo’. José levantou-se, de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito” (Mt 2,13-14). Maria conheceu a dor de ser uma refugiada. Ela, que já havia dado à luz em uma manjedoura porque “não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7), experimentou a dura realidade de ter que fugir às pressas, sem teto, sem segurança, protegendo a vida de seu Filho das garras da violência dos poderosos deste mundo.
Ao contemplarmos as dores da Virgem Maria, nossa espiritualidade não pode se alienar da realidade que nos cerca. A dor de Maria se prolonga na história. Neste ano, em que a Igreja no Brasil vivencia a Campanha da Fraternidade iluminada pelo tema “Fraternidade e Moradia” e pelo lema joanino “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), somos chamados a ver no rosto transido de dor de Nossa Senhora o rosto de milhares de mães brasileiras. Como nós podemos venerar a Mãe de Deus e, ao mesmo tempo, ignorarmos as mães que hoje choram por não terem um lar digno para abrigar e proteger os seus filhos?
A espada que transpassou a alma de Maria continua a ferir o coração das mães que vivem sob o constante temor de um desabamento em áreas de risco. Continua a ferir o coração das mães que sofrem a humilhação dos despejos, que perambulam pelas ruas de nossas metrópoles procurando um canto seguro debaixo das marquises, ou que se amontoam em habitações precárias, insalubres, sem o mínimo de dignidade que o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, merece. O Verbo Eterno quis ter Maria como sua primeira morada, seu primeiro tabernáculo. Ele veio morar entre nós, assumindo a nossa fragilidade. Por isso, a falta de moradia em nossa sociedade não é apenas uma questão econômica ou estatística; é uma ofensa direta ao plano de Deus, que deseja vida em abundância para todos.
A teologia e a devoção nos ensinam que Maria é a Mater Dolorosa, mas nunca a Mãe desesperada. O Evangelho de São João narra o momento culminante dessa dor: “Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cleofas, e Maria Madalena” (Jo 19,25). Prestem atenção neste detalhe profundo que o evangelista faz questão de frisar: Maria estava de pé (Stabat Mater). Ela não desfaleceu, não fugiu, não amaldiçoou a Deus pela injustiça que se abatia sobre o seu Filho Inocente. Ela permaneceu de pé, em uma atitude de sacerdócio materno, oferecendo com Cristo o sacrifício pela salvação da humanidade.
Como monge, recordo as palavras do nosso pai São Bernardo de Claraval, que, ao meditar sobre a compaixão de Maria, ensinava que “o martírio da Virgem ocorreu na alma”. O seu amor imenso por Jesus fez com que ela sofresse espiritualmente tudo o que Ele sofria fisicamente. Estar de pé junto à cruz exige uma força que só o Espírito Santo pode dar. É esta mesma força que devemos pedir hoje a Deus. Diante das cruzes pesadas da desigualdade social, da falta de habitação e da miséria que afligem nossa cidade e o nosso país, a Igreja não pode ficar prostrada, nem escondida. Nós, como Corpo de Cristo, devemos estar “em pé”, com coragem profética, denunciando as injustiças e trabalhando ativamente por políticas públicas que garantam o direito inalienável à moradia.
A liturgia do Calvário termina com um testamento de amor. Jesus, do alto da cruz, olhando para Maria e para João, diz: “‘Mulher, eis aí o teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis aí a tua mãe’. E a partir daquela hora, o discípulo a acolheu em sua casa” (Jo 19,26-27). Cristo não deixa a sua Mãe no desamparo, sem um teto e sem uma família. Ele confia Maria à Igreja, representada por João. E João a leva para a sua casa.
Acolher Maria em nossa casa significa acolher os ensinamentos do seu Filho. Significa que os nossos lares, as nossas paróquias e os nossos corações devem estar abertos à caridade autêntica. Neste encerramento da Quaresma, deixemos que a Senhora das Dores nos ensine a compaixão — que significa “padecer com”, sofrer junto. Que as nossas lágrimas diante da imagem de Nossa Senhora se transformem em obras de justiça e de amor ao próximo.
Peçamos à Mãe das Dores que interceda por todas as famílias sem teto. Que ela console as mães aflitas de nossa pátria e nos prepare para vivermos o Sagrado Tríduo Pascal com o coração purificado. Que, passando pela cruz e pelas dores deste mundo, possamos todos alcançar a alegria imorredoura da manhã de Páscoa.
