Cardeal Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

 

“Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também!”

Neste quinto domingo do Tempo da Páscoa, elevemos o olhar ao Ressuscitado; deixemo-nos tomar por sua palavra: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também!”. Estejamos atentos: estas não são palavras ditas ao vento, para ninguém! São palavras, uma exortação a nós, cristãos de hoje; palavras para cada um de nós e para todos nós, palavras verdadeiramente provocantes! No mundo complexo, numa realidade plena de desafios, na nossa vida pessoal tantas vezes sofrida, tantas vezes ferida, cheia de contradições, o Senhor nos olha, estende-nos as mãos, abre-nos o coração e nos enche de serenidade e confiança: “Não se perturbe o vosso coração!”.

Na Primeira Leitura (At 6,1-7), a comunidade de Jerusalém tinha uma só alma e um só coração, mas o pecado da divisão logo se manifestou. Foram, então, instituídos os diáconos para o serviço aos mais frágeis. A Igreja é, ao mesmo tempo, santa e pecadora, e o Espírito Santo a conduz pelas estradas da vida. A Igreja é obra de Jesus; é peregrina e, ao longo de sua caminhada, é construída pelo Espírito Santo. Recebe dons, graças e serviços para cumprir sua missão. A marca do pecado é nossa, mas Deus lhe dá a santidade de seu Filho Jesus. A comunidade de Jerusalém compunha-se de judeus nativos e de judeus que viveram fora da Palestina. Cada grupo lutava por suas características culturais e religiosas. Era uma Igreja a caminho, mas necessitada de conversão. Procuremos descobrir quantas divisões existem em nossas comunidades e como somos necessitados de conversão para sermos a Igreja santa de Jesus.

Na Segunda Leitura (1Pd 2,4-9), a Igreja é obra do próprio Deus, que a construiu sobre a rocha fundamental de Jesus Cristo. Ele é o fundamento da Igreja: “É a pedra que os construtores rejeitaram, mas que se tornou a pedra angular (fundamental)”. O apóstolo Pedro descreve a Igreja como um templo, construído com pedras vivas e diferenciadas, no qual os cristãos exercem um verdadeiro sacerdócio e oferecem sacrifícios agradáveis a Deus Pai. Os templos materiais, embora bem construídos, perdem valor; o templo apreciado por Deus é a comunidade composta por seus discípulos. Não tenhamos orgulho apenas de nossas igrejas materiais! Construamos comunidades enriquecidas de amor e sempre prontas a servir ao povo e glorificar a Deus Pai.

No Evangelho (Jo 14,1-12), a sede de Jesus de salvar os homens é tal que Ele declara: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Tal declaração tem sua origem na pergunta de Tomé, o qual, ao não compreender tudo o que Jesus afirmara acerca de seu regresso ao Pai, lhe perguntou: “Senhor, não sabemos para onde vais. Como é que sabemos o caminho?” (Jo 14,5). O apóstolo pensava num caminho material, mas Jesus lhe indica um caminho espiritual, tão sublime que se identifica com a sua própria Pessoa: “Eu sou o caminho”. E não lhe mostra apenas o caminho, mas também a meta — “a verdade e a vida” — à qual conduz, e que é também Ele mesmo. Jesus é o caminho que conduz ao Pai: “Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6); é a verdade que o revela: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9); é a vida que comunica aos homens a vida divina: “Assim como o Pai tem a vida em si mesmo”, assim a tem o Filho e a dá “àquele que quer” (Jo 5,26.21). “Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo 14,11). Sobre esta fé em Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, caminho que conduz ao Pai e igual em tudo ao Pai, fundamenta-se a vida do cristão e a de toda a Igreja.

Ora, é diante de Cristo, Caminho, Verdade e Vida, que nossa existência será julgada, que o mundo será examinado. E, no entanto, Ele será sempre sinal de contradição e pedra de tropeço. A renovação da Igreja está em voltar sempre a Cristo e nele se reencontrar, retomando o vigor como de uma fonte puríssima. O verdadeiro serviço à humanidade e ao mundo é apresentar Cristo e nele colocar toda a esperança.

Saibamos que Cristo Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Que possamos viver sempre neste caminho. Este caminho tem dificuldades, pedras e espinhos, mas, ao final, conduz ao encontro com o Pai. Senhor, neste dia e sempre, fazei que trilhemos o vosso caminho.

 

 

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