Cinzas, conversão e moradia: onde queremos que Deus habite?

Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)

A Quarta-feira de Cinzas abre para nós o tempo da Quaresma. Ao recebermos as cinzas sobre a cabeça, escutamos palavras fortes e verdadeiras: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Não são palavras de condenação, mas de lucidez e chamado à vida nova. Elas nos lembram quem somos, de onde viemos e para onde caminhamos.  

A Quaresma não é apenas um tempo de práticas religiosas individuais. É, sobretudo, um tempo de conversão do coração e da vida: um convite a rever nossas escolhas pessoais, comunitárias e sociais. Por isso, a Campanha da Fraternidade, que caminha junto com a Quaresma, nos ajuda a olhar para realidades concretas nas quais a conversão precisa se tornar gesto, compromisso e transformação. 

Moradia: direito, dignidade e pertença 

Neste ano, ao refletirmos sobre a moradia, somos chamados a olhar para uma questão que toca diretamente a dignidade humana. Morar não é um privilégio nem um luxo. Morar é um direito. Ter um teto seguro, um lugar de pertença e um espaço onde a vida possa florescer faz parte do mínimo necessário para viver com dignidade e segurança. 

As cinzas que recebemos nos recordam que somos frágeis. Mas, ao olharmos para tantas pessoas sem moradia digna, percebemos que a fragilidade não é apenas individual: ela é também social e estrutural. Milhares de famílias vivem em condições precárias, em casas improvisadas, em áreas de risco, ou mesmo sem casa alguma. Não por escolha, mas por exclusão. Não por descuido pessoal, mas por estruturas injustas que negam direitos básicos. 

A casa como lugar de salvação no Evangelho 

A Palavra de Deus nos interpela. Jesus não viveu distante dessas realidades. Ele nasceu sem ter uma casa própria, viveu como peregrino e afirmou claramente: “O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9,58). Ao mesmo tempo, fez da casa um lugar de salvação: entrou nas casas, sentou-se à mesa, devolveu dignidade, curou feridas, restaurou relações. Para Jesus, a casa não é apenas construção, mas espaço de vida, acolhida e comunhão. 

A Quaresma nos convida a perguntar: onde estamos construindo nossas casas e nossas cidades? Estamos promovendo espaços que acolhem ou que excluem? Cidades para todos ou apenas para alguns? O problema da moradia não é apenas técnico ou econômico; é profundamente ético e espiritual. Ele revela que tipo de sociedade estamos construindo e quais vidas consideramos valiosas. A conversão que Deus deseja não é apenas interior, mas também social e concreta. 

Por isso, a Campanha da Fraternidade nos chama a assumir responsabilidades concretas: apoiar políticas públicas de habitação digna, combater a especulação que exclui os pobres, valorizar iniciativas comunitárias, fortalecer a solidariedade local e cultivar uma cultura do cuidado. Cada gesto conta. Cada escolha importa. 

A moradia digna é também sinal do Reino de Deus. Um Reino onde ninguém vive descartado, onde cada pessoa tem lugar, onde todos podem dizer: “aqui eu pertenço”. Que esta Quaresma, iniciada com o sinal das cinzas, nos ajude a transformar a consciência em compromisso. Que saibamos passar da fragilidade reconhecida à solidariedade praticada. E que, ao cuidarmos da casa de nossos irmãos e irmãs, cuidemos também da grande casa comum que Deus nos confiou. Converter-se é isso: deixar que Deus habite nossas escolhas e nossas cidades. 

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