Dom Leomar Antônio Brustolin
Arceispo de Santa Maria (RS)
A Páscoa é o coração da fé cristã. Nela celebramos a vitória definitiva de Cristo sobre o pecado e a morte. Como proclama o apóstolo Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (1Cor 15,14). A ressurreição não é apenas um acontecimento do passado, mas o fundamento da esperança cristã e a revelação de que a história humana está aberta à plenitude da vida em Deus.
Os Evangelhos testemunham que, ao terceiro dia após a crucifixão, o túmulo foi encontrado vazio e o Ressuscitado manifestou-se aos discípulos. O anúncio pascal não nasce de uma teoria religiosa, mas da experiência concreta daqueles que encontraram o Senhor vivo. Por isso, a Igreja proclama desde o início: “Deus o ressuscitou, rompendo as cadeias da morte” (At 2,24). Na ressurreição de Cristo inaugura-se a nova criação e a humanidade recebe a promessa de uma vida que não conhece mais o fim.
A esperança que nasce do Ressuscitado
Os Padres da Igreja contemplaram profundamente esse mistério. Santo Agostinho afirma que “a ressurreição de Cristo é a nossa esperança; aquilo que aconteceu na cabeça acontecerá também no corpo”. Cristo ressuscitado é a primícia da nova humanidade. Santo Irineu de Lião já ensinava que, pela sua vitória, o Senhor “recapitulou todas as coisas”, restaurando a criação e reconduzindo a humanidade à comunhão com Deus.
A tradição patrística insiste que a ressurreição não anula a cruz, mas revela seu verdadeiro sentido. Aquele que foi crucificado é o mesmo que ressuscitou glorioso. Como pregava São João Crisóstomo em uma célebre homilia pascal: “Cristo ressuscitou e a vida venceu; Cristo ressuscitou e nenhum morto permanece no túmulo”. O anúncio pascal proclama que o mal, o sofrimento e a morte não têm a última palavra sobre a história humana.
Na liturgia da Vigília Pascal, a Igreja canta: “Ó feliz culpa que nos mereceu tão grande Redentor”. A noite da ressurreição revela que Deus é capaz de transformar a derrota em vitória e a morte em vida. O túmulo vazio torna-se sinal de que o amor divino supera toda escuridão.
Essa certeza percorre também o ensinamento dos Papas. São Leão Magno recordava que “a ressurreição de Cristo não pertence apenas a Ele, mas é também a exaltação de todos os que nele creem”. O Ressuscitado inaugura uma humanidade nova e chama seus discípulos a viverem como homens e mulheres renovados pela graça.
Celebrar a Páscoa, portanto, não é apenas recordar um acontecimento distante. É acolher a presença viva de Cristo que continua a agir na história. O Ressuscitado caminha com a Igreja, ilumina nossas noites e fortalece nossa esperança. Como anunciaram as mulheres na manhã de Páscoa: “Ele não está aqui; ressuscitou” (Lc 24,6).
Por isso, a Páscoa é também compromisso com a vida. Quem encontra o Ressuscitado torna-se testemunha de um mundo novo possível, marcado pela justiça, pela reconciliação e pela esperança. A luz da ressurreição continua a brilhar na história e nos convida a viver já, no presente, os sinais do Reino de Deus.
