Crítica da religião 

Dom Geraldo dos Reis Maia 
Bispo de Araçuaí (MG)

 

A crítica da religião sempre teve seu espaço na história do Ocidente. Na Antiguidade cristã, a crítica assumiu características de terríveis perseguições, derramando o sangue de milhares de mártires. Já na Idade Média, o cristianismo consolidou-se como hegemonia religiosa. Na Modernidade, assistimos ao retorno da crítica, a partir da virada antropocêntrica. O Século das Luzes procurou tirar o ser humano das supostas trevas do período medieval. A heteronomia de Deus passa a ser superada pela autonomia humana. O ser humano volta a ser “a medida de todas as coisas”, como já haviam apregoado os sofistas. Já na Pós-modernidade, a religião é deslocada para outra vertente: vem sendo submetida, cada vez mais intensamente, ao sentimentalismo. 

Dentro daquele clima de Iluminismo, característico da Modernidade, os protagonistas da Revolução Francesa detectaram na religião a legitimação do regime feudal e absolutista. Para implantar os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, iniciava-se um longo processo de secularização, drástico no seu início e sistemático, em seguida, com as invasões napoleônicas. Fazia-se necessário instaurar a nova sociedade burguesa, na contramão da sociedade feudal e monárquica. Alguns chegaram a preconizar o fim da história… 

A crítica à religião teve seu auge com três grandes expoentes: Marx, Nietzsche e Freud, chamados por Paul Ricoeur de “Mestres da suspeita”. Seguindo os passos de Feuerbach, para quem Deus não passaria de uma projeção do melhor de si que o ser humano não teria sido capaz de realizar, Marx constatou que a religião exercia a função de um alucinógeno para manter o estado de dominação da sociedade burguesa. Daí, propôs a supressão da religião como condição para o surgimento da nova ordem socioeconômica comunista. Seus seguidores, que procuraram instalar o comunismo real, buscaram viabilizar as palavras do mestre. 

Nietzsche propôs a realização da “vontade de poder ser”, inaugurando um novo voluntarismo para promover a raça humana a uma realidade superior: “o super-homem”. Na sua visão, o ser humano precisaria passar por três estágios, conforme sua metáfora: de camelo, tornar-se leão e, depois, tornar-se criança. Isto significa deixar de ser o portador de uma carga excessiva de preceitos moralísticos para tornar-se um valente contestador e promover um novo sentido de humanização do ser humano. 

Freud interpretou os segredos do submundo da libido, escondidos nas profundezas do inconsciente, e constatou que o ser humano seria mais feliz e realizado se concretizasse todos os seus prazeres. Para tanto, teria que superar o sentimento religioso que exerce função reguladora do agir humano. Foi além, definindo Deus como a projeção daquilo que o ser humano não conseguiu ser e realizar. 

A crítica da religião acabou por chegar à negação de Deus. Mas que ideia de Deus esses pensadores tinham? Certamente uma ideia deturpada, muito distante da verdadeira realidade de Deus. Era uma concepção de Deus a partir de visões próprias. No entanto, essas ideias encontraram espaço fértil e se difundiram. Caía-se no eclipse de Deus e, na sua esteira, no eclipse do humano. Eis o tempo da sociedade secularizada! Tempo de ateísmo, indiferentismo religioso, relativismo e niilismo. “Se Deus não existe, tudo é permitido”, preconizou Dostoievski. 

Sentimos as consequências deste longo processo histórico, sob a forma de uma crescente secularização, que traz consigo um grande indiferentismo. Neste horizonte surge novo fenômeno: o retorno do sagrado ou a “revanche da religião”, como alguns o denominam, nestes tempos de pós-modernidade. Trata-se de uma forte reação do sentimento religioso depois de todas essas críticas. A religião ressurge das cinzas com características diferenciadas, mesclando sentimentalismo, pragmatismo e neoconservadorismo. 

Não basta apresentar pão e circo ou paliativos que causam delírios. Muito menos se enveredar pelos caminhos da religião unida a interesses politiqueiros, com um projeto de poder, que gera polarizações e divisões. É preciso ter muito discernimento, neste momento histórico, para apresentar uma proposta concreta e eficaz de evangelização que dê conta de convencer o ser humano pós-moderno sobre a graça e as implicações da salvação em Jesus Cristo, seguindo a inspiração do Evangelho. 

Religião é “re-ligare”, ligar novamente o ser humano consigo mesmo, com o mundo criado e com o ser divino, em busca da harmonia do Paraíso perdido. Por isso, é preciso voltar a Jesus. Ele é o humano divino que revelou o que é ser humano ao próprio homem e manifestou-lhe sua sublime vocação, como nos ensina a Gaudium et Spes, 22. É nele que entendemos o que somos e o que podemos ser como pessoa criada à imagem e semelhança de Deus, que é amor. Ele veio “para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). E nos ensinou o caminho a seguir: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas em acréscimo” (Mt 6,33). 

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