Dom Diamantino Prata de Carvalho, OFM
Bispo Emérito da Campanha (MG)

No afã do progresso a humanidade acaba por sujeitar-se a certos perigos decorrentes do crescente distanciamento da ética e da responsabilidade, quando o que está em jogo decorre de interesses pusilânimes, desprovidos do sentido de pertença a um coletivo que de fato considere as necessidades dos mais pobres e, por outro lado, embebecidos pelo deslumbre das descobertas recentes e incertas quanto ao futuro que vai se fazendo presente.

Em tal seara, a Igreja se mantem operante visando preservar direitos fundamentais, além do sentido último da vida, em meio a tantos discursos encharcados de autossuficiência, exageradamente distantes da generosa e profícua graça de Deus. Fato é que em caráter de urgência e indo ao encontro de um vasto campo de dúvidas e incertezas, o Papa Leão XIV surge com visão profética, ofertando com autoridade um apanhado de contribuições que já reverberam com forte ressonância nos espaços diversos da sociedade. Haja vista a valiosa Encíclica Magnifica humanitas.

Após delinear aspectos sociais, educacionais, culturais, políticos, entre outros, o Papa agostiniano ao final do documento reforça o chamado universal para a construção da sonhada civilização do amor, muito mais agora em que o ódio não só tem se apoderado do coração humano com força e violência, mas também da mente e das mãos de homens e mulheres que em posições de poder e prestígio corroboram iniciativas catastróficas, revelando muitas vezes um coração congelado e insensível à dor e ao sofrimento alheio.

A normalização da guerra, a propagação e o reforço da política de armamento e rearmamento, a manipulação escrachada da opinião pública com falsas notícias e outras artimanhas políticas, narrativas que colocam irmãos contra irmãos, na contramão, por exemplo, dos chamados feitos pela Fratelli Tutti, políticas em desfavor aos migrantes e tantas outras peripécias, impedem a vivência verdadeira da alegria prometida pelo então progresso, trazendo mais devastação e desumanização, que propriamente construção e humanidade.

Frente a isto, a Magnifica humanitas recolhe e entrega à humanidade desprovida de sentido, um verdadeiro resgate da História, fazendo memória do passado, para não se desgastar em vão com o presente, repetindo erros em proporções ainda mais devastadoras. Isto para impedir que as sociedades recaiam mais e mais em um abismo de desgraças e tristezas, sufocando a alegria que vem do Senhor.

Não só faz memória, Magnifica humanitas suscita no coração de homens e mulheres de boa vontade o ardente e constante desejo de ir além, não se detendo na resignação, mas perseverando nas forças do Bem e do Amor, mesmo em meio a novos tipos de golpes e ataques à dignidade da Pessoa Humana. Novos porque justamente as sociedades se veem surpreendidas pelas novidades das recentes descobertas, que embora tenham muito a contribuir para o bem comum, ao mesmo tempo, se usadas com base em interesses perversos, podem causar danos colaterais para este tempo e tempos futuros.

Assim como em Ne 2-6, quando das fraquezas se fizeram forças, o Sumo Pontífice ao retratar a complexidade dos desafios do tempo presente espera e motiva a cada qual na sua luta pessoal, imerso ali onde se encontra, contribuindo desde sua realidade na superação de tais barreiras ao verdadeiro desenvolvimento, de modo a não permitir que o desânimo e a sensação de impotência impeçam as ações primadas pela coragem em não se sujeitar ou mesmo aceitar o status quo. Para isto, o papa nos propõe cinco pistas de “responsabilidades quotidianas e públicas: desarmar as palavras, construir a paz na justiça, assumir o olhar das vítimas, cultivar um saudável realismo, revitalizar o diálogo e o multilateralismo.”

A ampla proposta, mais que sugerir um longo e intenso itinerário, deve animar a cada um a debruçar-se pessoalmente no esforço em contribuir desde si com a sonhada e necessária reconstrução da sociedade, nos seus aspectos primordiais. Assim como em Ne 2-6, quando superadas as distrações da tristeza, Jerusalém pôde ver-se novamente reerguida, muito mais agora faz-se preciso reconstruir relações de amizade, fraternidade e humanidade. Magnifica humanitas seja, pois, texto de cabeceira nestes tempos sombrios, onde o real se confunde com o irreal, tempos que prometiam luzes, mas que gradativamente obscurecem a razão, e mais que esta, o sentido de viver.

 

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