Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

 

Há vários fatores que influenciam a resposta que damos às ações que são exercidas em nossa vida. Muitos agem por instinto, sem muito pensar ou amadurecer sobre uma dada situação. Outros agem mais racionalmente. Há, ainda, aqueles que respondem afetivamente, visceralmente. Mas, em todas essas respostas, a força do estímulo é fundamental. Tudo depende de como somos estimulados para reagirmos em determinadas situações. Afinal, o que é o estímulo?

O dicionário Houaiss nos diz que estímulo é “a ponta aguda de objeto que pica; aguilhada, aguilhão, pua”. No seu sentido figurado, “é aquilo que estimula, que anima, que incita à atividade, à realização de algo”. Quanto ao sentido psicológico, “é parte do mundo exterior de complexidade variável, cuja mudança qualitativa e/ou quantitativa gera reações correspondentes, proporcionais aos graus e tipos desta mudança, e capazes de serem distinguidas quanto à qualidade e quantidade”.

Precisamos ser estimulados para que possamos responder satisfatoriamente aos desafios que nos são propostos, seja na educação, nas relações familiares, sociais, eclesiais… Em tudo aquilo que somos chamados a realizar, o fazemos melhor se estivermos bem estimulados. E este estímulo pode ser de várias ordens, mas convém que seja moralmente adequado. A pessoa não pode se enveredar pelos caminhos da política, da medicina, do direito, ou de qualquer outra área apenas por questões financeiras. Esse não é, necessariamente, um estímulo adequado. Antes, sua realização pessoal deve estar ligada à dimensão do serviço ao bem comum, realizando bem sua missão.

Arthur Pougin nos conta, em sua obra Vita aneddotica di Verdi, que o grande músico passou por uma situação muito difícil em sua vida. Após alguns sucessos iniciais, o compositor de óperas conseguira um contrato com o teatro Scala di Milano para a produção de três óperas. Enquanto trabalhava na sua segunda ópera, perdera sua jovem e amada esposa, depois de ter já perdido seu casal de filhos, num período de apenas dois anos. Foi nesse clima de luto que finalizou sua segunda ópera do contrato. Sua apresentação foi um fiasco. Tudo isso levou o músico a uma profunda crise, beirando à depressão profunda. Vendeu seus poucos bens e pediu rescisão de seu contrato a Morelli, seu amigo e diretor do Scala. Depois de insistir com o amigo, Morelli o liberou de seu encargo, deixando-o à vontade para voltar quando quisesse. Verdi refugiou-se numa pequena cidade onde seu sogro residia.

Em poucos meses o músico não conseguia viver mais naquela cidade. Ele estava acostumado com o glamour de Milão. Voltou ali e se ocupava em realizar pequenos trabalhos, mas convencido a não mais compor óperas. Morelli, que bem conhecia seu amigo, solicitou a Verdi que fizesse uma avaliação de um libreto de Solera. Amigavelmente, e sem pretensões trabalhistas e financeiras, ele aceitou e levou o libreto para sua casa. Começou a lê-lo, ficando encantado com a beleza da obra de conteúdo bíblico e percebendo a potência musical daquele texto sobre o Exílio da Babilônia. Passou a noite lendo e traçando alguns ensaios de possíveis partituras. No dia seguinte, apresentou-se a seu amigo dizendo que o libreto seria excelente para ser musicado. Morelli percebeu o entusiasmo do amigo e, conhecendo e confiando em seu genial talento, lhe exigiu que compusesse a música para aquela ópera. Era o estímulo que faltava a Verdi.

Em três meses as partituras estavam prontas e começaram os ensaios. Pougin nos conta que ninguém trabalhava no teatro enquanto aconteciam os ensaios. Todos os funcionários ficavam ali, boquiabertos contemplando a beleza do espetáculo. No dia 9 de março de 1842 estreava a ópera Nabucco, no Scala di Milano, em grande estilo, com grande ovação. Depois da terceira noite de sucesso, Morelli procurou

Verdi com um contrato em branco para que compusesse a próxima ópera, dizendo “aquilo que aí escrever, será cumprido”. Quem nunca se emocionou com o Va pensiero, conhecido como o “Coro dos escravos hebreus”? Depois disso foram compostas grandes óperas, com todo vigor musical: I Lombardi, MacBeth, La Battaglia di Legnano, La forza del destino, Aida, Falstaff….

Na sua profunda crise, Verdi precisou ser estimulado pelo amigo Morelli. Não em termos financeiros, mas a partir daquilo que nutria o músico, que era o gosto pela arte. Diante de novas perspectivas, o músico encantou-se e deixou-se apaixonar novamente pelo gosto de fazer o que amava. O estímulo do amigo fez com que Verdi redescobrisse a beleza da música diante do drama da existência. Ao deparar-se com a força do drama, o artista ressignificou o sentido de sua existência e passou a ajudar as pessoas a superarem seus dramas por meio da beleza e do encanto da música.

Precisamos descobrir como estimular as pessoas para que possam oferecer o melhor de si naquilo que fazem. O Evangelho é a nossa fonte de inspiração. Jesus transformou pessoas simples do povo em anunciadores intrépidos do Reino de Deus. Entre os discípulos de Jesus não havia muitos sábios e entendidos. Entre eles, havia pescadores, cobrador de impostos, militantes sectários… Todos foram estimulados pelo sonho do Reino. Ao testemunharem seu Mestre dar a vida por esse Reino, encheram-se de esperança; fortalecidos pela experiência da ressurreição e pela força do Espírito Santo, saíram anunciando o Evangelho até derramar o próprio sangue, na força do estímulo de Jesus.

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