Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)

Nesta noite santíssima, a Igreja entra no Cenáculo com passos reverentes. O Senhor está às vésperas da paixão.

A cruz já projeta sua sombra comprida e a fraqueza dos discípulos já se anuncia. O mundo prepara-se para ferir o Cordeiro. E, nesse limiar de dor, Cristo realiza um dos atos mais altos e mansos de seu amor ao entrega-se em alimento, em presença que não mais abandonará os seus.

A Quinta-feira Santa é a noite da intimidade divina. O Filho de Deus parte o pão, ergue o cálice e profere palavras que não cessarão de ecoar na vida da Igreja. “Isto é o meu corpo, que é dado por vós.” Este cálice é o meu sangue. E, ao ordenar que façamos isto em sua memória, abre para o futuro um caminho sacramental pelo qual sua entrega permanecerá viva até o fim do mundo.

São Paulo, escrevendo aos coríntios, recebeu e transmitiu esse núcleo da fé. O Apóstolo nos legou a tradição viva que brota do Senhor.

A fé católica reconheceu nesta noite o realismo soberano da presença de Cristo. O pão e o vinho oferecidos pelo Senhor é eficaz e realiza o que diz. Quando Ele pronuncia sobre o pão: “Isto é o meu corpo”, e sobre o cálice: “Este é o cálice do meu sangue”, estamos diante da força criadora do Verbo encarnado. Aquele que chamou o universo à existência por sua palavra, que nesta noite faz do pão e do vinho sacramento verdadeiro de seu Corpo e de seu Sangue.

A grande luz da Quinta-feira Santa nos ensina que Cristo não quis apenas passar pelo mundo, quis ficar nele. A Eucaristia é o excesso de amor pelo qual o Senhor vence a distância, atravessa os séculos e se faz contemporâneo de cada geração de discípulos e discípulas.

Por isso, a Eucaristia está no coração da Igreja como o seu tesouro mais precioso. Nela se conserva uma presença, o próprio Cristo. A Igreja vive da Eucaristia porque vive de Cristo. E Cristo, na Eucaristia, continua a oferecê-la ao Pai, a uni-la ao seu sacrifício e a nutrir-lhe os passos em meio às dificuldades do tempo.

A Quinta-feira Santa revela que a Igreja não nasceu da nostalgia dos discípulos, nem de um esforço humano para manter acesa a memória de Jesus. A Igreja nasce de um gesto do próprio Cristo. É Ele quem a funda, reúne e mantém.

A Igreja é una porque uno é o seu fundador, uno é o pão da vida que a alimenta; una porque é a presença real de Cristo que a sustenta. Sua unidade é uma graça cristológica que procede de Cristo e retorna a Cristo.

Nesta noite, vê-se também a razão pela qual a Igreja confessa sua identidade singular. Ela o faz porque reconhece, em sua própria vida, os sinais permanentes da ação do Senhor. Foi fundada por Cristo e guarda em seu coração a presença real e perpétua de Cristo na Eucaristia.

O Cenáculo, unido à cruz e à manhã da ressurreição, é mais que um episódio comovente da origem cristã. É princípio. É instituição. É vontade divina em ato. O Senhor escolhe os apóstolos, dá-lhes parte em sua missão, faz deles testemunhas e ministros de seus mistérios. A Igreja, portanto, não se explica por si mesma.

Explica-se por Cristo. Seu fundamento não está na oscilação da história, mas no querer do Redentor.

Cristo, porém, não se limitou a fundá-la, mas permaneceu nela. E esta permanência atinge na Eucaristia seu ponto mais alto. Ele está com sua Igreja em sua palavra anunciada, em sua caridade vivida, em seus pobres e sofredores, no coração dos que creem. Mas está de modo eminente, real, substancial e duradouro no Santíssimo Sacramento do altar. A Quinta-feira Santa é a noite em que a Igreja se prosternou pela primeira vez diante desse mistério que jamais a deixaria órfã. Desde então, toda vez que o altar é preparado, toda vez que o pão é consagrado, toda vez que o cálice é elevado, o mundo recebe novamente a consolação de que o Senhor não nos abandonou.

A sucessão apostólica, por sua vez, manifesta que esta permanência não foi deixada à mercê da confusão dos tempos. O mandato “fazei isto” não foi lançado ao vento. Foi confiado aos apóstolos e, por eles, transmitido àqueles que lhes sucederam.

O que a Igreja celebra hoje não vem de uma invenção tardia, nem de uma elaboração devocional acumulada ao longo dos séculos. Vem do Senhor, através da continuidade apostólica. Na sucessão dos bispos, em comunhão com Pedro, a Igreja reconhece a continuidade visível daquela corrente invisível de graça que brotou do Cenáculo. Assim, a mesma Eucaristia instituída por Cristo atravessa o tempo sem perder nada.

A Quinta-feira Santa é, portanto, a noite em que a Igreja contempla ao mesmo tempo seu nascimento, sua unidade e sua missão. Ela se reconhece à luz da Eucaristia e, entende a partir dela sua beleza e sua responsabilidade.

Nesta noite santa, a fé da Igreja não pode ser outra, senão que o Senhor ficou conosco no Pão consagrado, no Cálice da nova aliança, no ministério apostólico transmitido; na una, santa, católica e apostólica Igreja, ficou conosco. E porque ficou, a esperança não morreu; a fé não vacilou; a história não se fechou.

A Quinta-feira Santa é a noite em que a eternidade se assentou à mesa, e, desde então, o mundo nunca mais se sentiu abandonado.

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