Domingo da Palavra: quando Deus abre o livro e ilumina o caminho

Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)

 

Há datas que não pertencem apenas ao calendário: pertencem à alma da Igreja. O Domingo da Palavra de Deus, celebrado em 25 de janeiro, é um desses marcos que convidam a redescobrir o essencial. No meio da velocidade que rege a vida moderna — telas, notificações, urgências — a Igreja ergue um gesto simples e revolucionário: colocar a Palavra de Deus no centro. É como acender uma chama no meio de tantas luzes artificiais, lembrando que só a luz verdadeira tem força para orientar a história humana. 

Em muitos sentidos, a Palavra é o coração que pulsa silenciosamente no corpo da Igreja. Ela não é um texto antigo, guardado em vitrines da memória; é voz viva, capaz de atravessar séculos e ainda assim falar com precisão ao coração de cada época. No Domingo da Palavra, a liturgia nos recorda que Deus é um Deus que fala, e que a fé cristã não nasce de ideias soltas, mas de um encontro: um Deus que entra na história, pronuncia o seu Nome e abre caminhos. 

Palavra como epifania da simplicidade 

Nesse sentido, a Palavra é sempre uma epifania. Não a epifania das vitrines deslumbrantes humanas, mas a epifania da simplicidade: um Deus que escolhe falar por parábolas, histórias, gestos, encontros, lágrimas e silêncios. A Escritura revela que Dele não brotam discursos impenetráveis, mas uma linguagem que atravessa a vida. Por isso, o Domingo da Palavra é, antes de tudo, a celebração de um Deus que não se oculta, mas se faz próximo — próximo como a voz que ecoa dentro de nós quando abrimos o Evangelho. 

Celebrar esse dia significa também reconhecer que a humanidade vive hoje um intenso deserto de sentido. A avalanche de informações nem sempre se traduz em sabedoria; o excesso de palavras não garante profundidade. A Palavra de Deus aparece, então, como aquela bússola escondida que devolve direção a quem se perdeu. Ela recorda que o tempo não é caos, mas história guiada pelas mãos de Deus; que a vida não é acaso, mas caminho que pode ser iluminado. 

O Domingo da Palavra nos leva a uma pergunta fundamental: onde estamos colocando a Palavra em nossa vida? No centro, como força que orienta decisões, relações e prioridades? Ou à periferia, visitada de longe, como se fosse apenas um adorno espiritual? O Papa Francisco insiste que este dia deve suscitar uma conversão do olhar: não basta venerar a Bíblia; é preciso deixá-la transformar a existência — nas famílias, nas comunidades, no cotidiano. 

E transformar significa ouvir. A Escritura é mestre em revelar que Deus gosta de falar por meio de detalhes que muitas vezes ignoramos: o gesto do bom samaritano, o olhar de Jesus sobre os pequenos, o silêncio do jardineiro diante de Maria Madalena, a coragem dos profetas, o sopro leve que visitou Elias. Quando Deus fala, não grita; chama. E quem escuta, descobre que sua vida ganha raízes mais profundas e horizontes mais largos. 

A palavra que reconstrói pontes  

A Palavra também é fermento de comunhão. Em um mundo marcado por polarizações e conflitos, ela derruba muros e reconstrói pontes. Lida na assembleia, proclamada no altar, meditada na casa e partilhada nos grupos, a Escritura gera um povo capaz de caminhar junto. A Bíblia é, em si, uma grande narrativa de alianças: Deus tece, pela Palavra, vínculos que salvam. Talvez por isso o Domingo da Palavra seja também um chamado à unidade, lembrando que ninguém interpreta o Evangelho sozinho — é comunidade que lê, escuta, celebra e vive. 

Mas há um aspecto ainda mais profundo: a Palavra não quer permanecer no papel. Ela procura carne. O Verbo se fez homem, e agora deseja fazer-se vida em cada pessoa. Quem acolhe a Palavra descobre que seu coração se torna morada de Deus e que sua história pode refletir o próprio Evangelho. Basta um pequeno gesto, uma atitude de bondade ou um perdão inesperado, para que a Escritura se torne novamente acontecimento no mundo. 

Por isso, neste 25 de janeiro, o Domingo da Palavra é mais do que uma celebração litúrgica: é uma convocação. Deus abre, diante de nós, o grande livro de sua vontade e pergunta se queremos caminhar guiados por Ele. A Palavra é mapa, é lâmpada, é sol que nasce sobre nossas sombras. É promessa de que a vida pode ser mais humana e mais divina ao mesmo tempo. 

Sim, o Domingo da Palavra é o dia em que Deus recorda ao mundo que Ele ainda fala. E que quem escuta, encontra o caminho. Quem acolhe, encontra a verdade. Quem vive, encontra a vida. 

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