Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Irmãos e irmãs, “este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos” (Sl 117[118],24). A Igreja hoje não apenas recorda um acontecimento passado, mas proclama uma verdade que transforma toda a realidade: Cristo ressuscitou. A morte foi vencida. O pecado não tem mais a última palavra. A vida nova começou.
A primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos – At 10,34a.37-43 –, nos apresenta o testemunho de Pedro: “Nós comemos e bebemos com Ele depois que ressuscitou dos mortos” (At 10,41). Não se trata de uma ideia ou de um símbolo, mas de um fato vivido, testemunhado. A fé da Igreja nasce desse encontro real com o Ressuscitado. E Pedro compreende algo essencial: “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10,34). A Ressurreição é para todos.
O Salmo proclama: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (Sl 117[118],22). Aquilo que foi descartado, rejeitado, condenado — torna-se fundamento. A lógica de Deus não é a lógica do mundo. A cruz não foi o fracasso de Cristo, mas o caminho da sua glorificação.
São Paulo, na Carta aos Colossenses – Cl 3,1-4 –, nos exorta: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto” (Cl 3,1). Aqui está uma exigência clara: a Ressurreição não é apenas algo que aconteceu com Jesus, mas algo que deve transformar a nossa vida. Não se pode celebrar a Páscoa e continuar vivendo como antes.
E então chegamos ao Evangelho, no Evangelho de João (cf. Jo 20,1-9). Maria Madalena vai ao sepulcro ainda de madrugada, quando tudo parece escuro. Ela não encontra o corpo de Jesus, e corre para avisar os discípulos. Pedro e o discípulo amado vão ao túmulo. Eles veem os panos de linho, o sudário dobrado… sinais de que algo extraordinário aconteceu.
O texto diz algo decisivo: “Ele viu e acreditou” (Jo 20,8). Ainda não tinham compreendido plenamente as Escrituras, mas já começam a crer. A fé pascal nasce assim: não da evidência total, mas de sinais que abrem o coração para algo maior.
Irmãos e irmãs, a Ressurreição não é um espetáculo. Não há testemunhas do momento em que Jesus sai do túmulo. Há sinais. Há um túmulo vazio. Há encontros que transformam vidas. A fé não é imposição — é resposta.
E aqui está o ponto central: o que a Ressurreição muda na nossa vida?
Muitos dizem crer, celebram a Páscoa, participam das liturgias… mas continuam presos às mesmas atitudes, aos mesmos pecados, à mesma lógica de sempre. Isso revela uma contradição. Se Cristo ressuscitou, então algo precisa mudar.
A Ressurreição exige uma vida nova:
sair do pecado para a graça,
do egoísmo para a caridade,
da indiferença para o compromisso,
do medo para a confiança.
Não se trata de um sentimento, mas de uma decisão concreta.
Vivemos em um mundo que, muitas vezes, vive como se Deus não existisse. A morte, a violência, a injustiça parecem ter mais força. Mas a Páscoa afirma o contrário: a vida venceu. E essa vitória não é abstrata — ela precisa aparecer na vida de cada cristão.
O túmulo vazio também nos provoca: quantas vezes mantemos Cristo “sepultado” em nossa vida? Guardado como uma lembrança, uma tradição, mas não como uma presença viva que transforma nossas escolhas?
A Páscoa é um chamado a remover essas pedras. A deixar Cristo viver em nós.
Irmãos e irmãs, não basta saber que Jesus ressuscitou. É preciso viver como ressuscitados.
Isso significa carregar ainda as marcas da cruz, sim — porque a Ressurreição não apaga a cruz —, mas viver com esperança, com sentido, com uma direção nova.
Que esta celebração não seja apenas mais uma no calendário. Que seja um verdadeiro recomeço.
Que, como o discípulo amado, possamos ver os sinais e crer.
Que, como Pedro, possamos testemunhar.
Que, como Maria Madalena, possamos anunciar.
Cristo ressuscitou verdadeiramente. E isso muda tudo. Aleluia! Amém.
A todos os que me acompanham pelas mídias sociais, pelos artigos e pelos vídeos, desejo-lhes, ex coorde, uma Santa e abençoada Páscoa do Ressuscitado! Jesus Vive, o Vivente, entre nós, Aleluia, Aleluia, Aleluia!
