Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Domingo de Ramos da Paixão do Senhor
“Meu Deu, Meu Deus, porque me abandonaste” (Sl 21/22).
Iniciamos a grande semana do ano ao celebrarmos neste domingo, dia 29 de março, a Santa Missa do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor. Com essa celebração, iniciamos a Semana Santa, a semana maior e mais importante do calendário cristão. Somos convidados a participar das celebrações todos os dias ao longo desta semana e, principalmente, no ápice deste momento que é o Tríduo Pascal, a partir da Quinta-feira Santa. As celebrações desta semana são muito ricas e cheias de significado. Caso não seja possível participar de todas as celebrações devido ao trabalho ou aos estudos, meditemos os textos sagrados em casa e procuremos acompanhar as celebrações pela televisão, rádio ou internet. Hoje concluímos também a Campanha a Fraternidade com o nosso gesto concreto que é a Coleta da Solidariedade.
Durante cinco semanas da Quaresma, fomos impelidos a vivenciar três práticas espirituais: oração, jejum e caridade. Ir ao deserto, e, do mesmo modo que Jesus, iluminados pelo Espírito Santo, fomos convidados a vencer as tentações. A Quaresma é um tempo forte de penitência e oração. Somos convidados a iniciar esse tempo de uma maneira e chegar à Páscoa de outra; algo precisa ser mudado em nós. Não é um tempo triste ou de luto; pelo contrário, trazemos em nosso coração a certeza de que o Senhor ressuscitou. Trata-se de um grande momento espiritual que a Igreja nos convida a viver ao longo desses quarenta dias.
A Quaresma ainda não terminou. Mesmo com a celebração do Domingo de Ramos e o início da Semana Santa, ela continua até a Quinta-feira Santa, antes da Missa vespertina. A partir da tarde, celebra-se a Missa da Ceia do Senhor, com o rito do lava-pés, dando início ao Tríduo Pascal. Por isso, ao longo desta semana, ainda devemos manter as penitências iniciadas na Quarta-Feira de Cinzas. Ainda é possível nos aproximarmos do sacramento da Reconciliação e intensificarmos as práticas espirituais da oração, do jejum e da caridade.
No Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, assim como na Sexta-Feira Santa, a Igreja se reveste da cor vermelha, recordando que Cristo doou a sua vida por nós. Outro elemento semelhante é que, em ambas as celebrações, é proclamado o Evangelho da narrativa da Paixão de Cristo, no Domingo de Ramos na versão de São Mateus e na sexta-feira santa segundo São João.
Nesta celebração do Domingo de Ramos, somos convidados, no momento do ofertório, a contribuir com a Coleta da Campanha da Fraternidade, chamada Coleta Nacional da Solidariedade. O dinheiro arrecadado neste dia é destinado aos Fundos Diocesano e Nacional de Solidariedade e ajudará a colocar em prática aquilo que a campanha nos propôs. Por isso, sejamos solidários nesta coleta.
A celebração do Domingo de Ramos inicia-se com todos os fiéis reunidos do lado de fora da igreja, para a proclamação do Evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém e a bênção dos ramos. Após a bênção, os fiéis, imitando o povo que aclamou o Senhor, entram na igreja com seus ramos, cantando: “Hosana ao Filho de Davi”.
Após a entrada de todos, aquele que preside profere a oração da coleta própria do dia, dando início à Liturgia da Palavra. Neste tempo estamos com as imagens cobertas, para que o olhar dos fiéis esteja totalmente voltado para Cristo.
O primeiro Evangelho desta celebração é de Mateus (Mt 21,1-11), que narra a entrada de Jesus em Jerusalém. Ao chegar a Betfagé, próximo ao Monte das Oliveiras, Jesus envia dois discípulos à sua frente, orientando-os a encontrar um jumentinho, que deveria ser desamarrado e levado até Ele. Jesus o utiliza para entrar em Jerusalém, cumprindo as Escrituras e manifestando sua humildade. Enquanto Ele entra na cidade, a multidão estende suas vestes pelo caminho e o aclama como rei.
A primeira leitura da Missa é do livro do profeta Isaías (Is 50,4-7), um trecho conhecido como o cântico do Servo Sofredor, que se assemelha profundamente à vida de Jesus. O Servo é aquele que sofre em silêncio, mas permanece fiel, anunciando a justiça e a verdade que vêm de Deus. Ao longo desta semana, especialmente na Segunda, Terça, Quarta e Sexta-feira, ouviremos esses textos na liturgia. Mesmo diante das dificuldades, Deus não abandona os seus servos.
O Salmo responsorial é o 21 (22): “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”. Trata-se de um salmo de angústia e súplica, cujas palavras são retomadas por Jesus na cruz. Mesmo diante da dor, o nome de Deus continua a ser proclamado.
A segunda leitura é da carta de São Paulo aos Filipenses (Fl 2,6-11). Nela, o apóstolo nos recorda que Cristo se esvaziou de si mesmo, assumiu a condição humana e foi obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso, Deus o exaltou, e diante dele todo joelho se dobra e toda língua proclama: “Jesus Cristo é o Senhor”, para a glória de Deus Pai.
Após a segunda leitura, ouvimos a narrativa da Paixão. No Domingo de Ramos, ela é proclamada segundo o evangelista do ano — neste caso, Mateus (Mt 26,14–27,66). Essa narrativa apresenta os acontecimentos desde a prisão de Jesus até sua morte. Durante a proclamação, há a participação da comunidade, além do narrador, dos leitores e do sacerdote, que proclama as palavras de Cristo.
Os acontecimentos da Paixão se inserem no contexto da Última Ceia, na qual Jesus lava os pés dos discípulos, institui a Eucaristia e ensina o mandamento do amor. Mesmo sabendo de sua entrega, Ele revela que o verdadeiro caminho é o serviço e a doação total de si. Jesus nos ensina que a grandeza está em servir. Ao instituir a Eucaristia, Ele nos deixa sua presença permanente: todas as vezes que partimos o pão e bebemos o cálice, fazemos memória de sua entrega. Pelo Espírito Santo, Ele permanece conosco todos os dias, até o fim dos tempos.
Iniciemos hoje, com Jesus, o caminho rumo ao Calvário e à Ressurreição. Intensifiquemos nossa oração, participemos das celebrações e vivamos profundamente o Tríduo Pascal. Caminhemos com Cristo na cruz, para com Ele ressuscitarmos para uma vida nova.
