Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Iniciamos com a celebração do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, a Semana Maior da nossa fé, a Semana Santa. A liturgia deste dia nos envolve em uma atmosfera paradoxal, que transita da exultação festiva à dor profunda do Calvário. Começamos a nossa celebração com a procissão festiva, revivendo a entrada triunfal de Jesus na Cidade Santa (cf. Mt 21,1-11). Vemos o povo que O recebe com ramos nas mãos, estendendo seus mantos pelo chão e entoando cantos de alegria: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor!” (Mt 21,9). Porém, a mesma liturgia rapidamente nos conduzirá a um silêncio consternado, mergulhando-nos no mistério do sofrimento ao escutarmos o longo e doloroso relato da Paixão segundo Mateus (Mt 26,14 – 27,66).
Essa mudança abrupta e litúrgica não é um mero recurso retórico da Mãe Igreja, mas uma profunda pedagogia espiritual. Ela revela, antes de tudo, a inconstância da multidão e a fragilidade dos nossos próprios corações, que num dia louvam e aclamam, mas noutro dia se deixam levar pela indiferença ou pelo ódio, clamando: “Seja crucificado!” (Mt 27,22-23). Mais do que isso, a entrada em Jerusalém revela a verdadeira identidade do Messias. Ele cumpre de forma singular a antiga profecia: “Eis que o teu rei vem a ti, humilde, montado num jumento” (Mt 21,5; cf. Zc 9,9). O nosso Rei não se impõe pela força dos exércitos, pela opulência ou pelas armas de guerra, mas pela mansidão extrema e pela entrega total de Si mesmo pela salvação do mundo.
Na primeira leitura – Is 50,4-7 –, o profeta Isaías nos apresenta o tocante cântico do Servo Sofredor, uma prefiguração cristalina da atitude de Cristo diante do flagelo que se aproxima: “Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas” (Is 50,6). O Servo não recua diante da violência do mundo porque a sua confiança está inteiramente enraizada em Deus Pai: “O Senhor Deus é meu auxílio, por isso não me deixei abater” (Is 50,7). Esta fidelidade inabalável nos ensina teologicamente que o sofrimento, quando abraçado por amor e em obediência à vontade divina, torna-se fonte inesgotável de redenção.
A profunda angústia deste Servo ecoa perfeitamente no Salmo responsorial de hoje. Jesus, no auge de sua dor na cruz, consumido fisicamente, reza com as palavras do salmista: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Sl 21[22],2; cf. Mt 27,46). Este brado, que tantas vezes ressoa silenciosamente no coração de tantos irmãos e irmãs nossos mergulhados no desespero da vida moderna, na boca de Jesus é a oração máxima de quem, mesmo na dor extrema, não perde a confiança, entregando a sua vulnerabilidade nas mãos do Criador e fazendo-se solidário com todas as dores da humanidade.
Para que possamos vislumbrar o abismo desse amor imensurável, a segunda leitura nos traz o sublime hino cristológico da Carta de São Paulo aos Filipenses. O Apóstolo – Fl 2,6-11 – nos ensina que Jesus, “existindo em condição divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo” (Fl 2,6-7). Este esvaziamento total, que a teologia chama de kenosis, atinge o seu ápice incomensurável quando Ele “humilhou-se, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,8). Não há outro caminho para a glória da ressurreição que não passe pela rudeza do madeiro. É justamente por descer de forma tão radical às profundezas da miséria e do pecado humanos que “Deus o exaltou acima de tudo” (Fl 2,9).
O Evangelho da Paixão – Mt 27,11-54 – nos detalha com crueza cada passo dessa doação voluntária. Acompanhamos Jesus desde os últimos ensinamentos, passando pela agonia e pela amarga traição no Getsêmani (cf. Mt 26,36-56). Vemos a negação de Pedro, que tantas vezes espelha as nossas próprias covardias cotidianas (cf. Mt 26,69-75), e assistimos perplexos à injustiça dos tribunais humanos perante Pilatos (cf. Mt 27,11-26). Em cada chaga, vemos o Cordeiro de Deus suportando silenciosamente a zombaria e a coroa de espinhos (cf. Mt 27,27-31). Tudo ocorre não por um capricho do destino, mas em obediência à missão salvífica, como Jesus mesmo alerta aos seus captores nas trevas do Horto das Oliveiras: “Tudo isso aconteceu para se cumprirem as Escrituras dos profetas” (Mt 26,56). Quando Ele, por fim, rende o seu espírito, e o véu do santuário se rasga de alto a baixo (cf. Mt 27,51), a barreira entre Deus e a humanidade cai por terra para sempre. A entrega é tão majestosa que arranca do centurião pagão, aos pés da cruz, a mais pura profissão de fé: “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus!” (Mt 27,54).
A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo não é uma mera recordação histórica do passado; ela é um mistério vivo, que se prolonga nos dias de hoje no sofrimento do Seu Corpo Místico, a Igreja, e de modo especial nas chagas dos mais pobres e descartados de nossa sociedade. Neste Domingo de Ramos, em que refletimos sobre a entrega do Senhor, a Igreja no Brasil conclui seu tempo forte de conscientização com o Dia Nacional da Coleta da Solidariedade, gesto concreto e transformador da Campanha da Fraternidade de 2026 sobre a moradia e o encontro com Aquele que veio morar entre nós.
Neste ano, iluminados pelo Evangelho de São João, com o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), fomos convocados a refletir sobre o tema “Fraternidade e Moradia”. O mesmo Cristo que se esvaziou de sua glória eterna, que nasceu sem encontrar lugar na hospedaria de Belém e que foi crucificado fora das muralhas, identifica-se profundamente com as multidões que ainda hoje peregrinam sem um teto adequado para proteger suas famílias. Como nos alerta a Igreja nesta Campanha, a falta de um teto digno não é apenas uma carência material; ela é a expressão concreta da exclusão social que fere de morte a dignidade de filhos e filhas de Deus.
Devemos ter consciência cristã de que a moradia é a porta de entrada para os demais direitos sociais. Sem ela, faltam a segurança, a saúde, a educação e a própria possibilidade de um convívio familiar estruturado. Quando contemplamos o Senhor pregado e despojado de tudo na cruz, nosso coração pastoral não pode ficar indiferente a tantas famílias que habitam em áreas de risco ou que sobrevivem na invisibilidade das nossas ruas. Aclamar o “Hosana” com os nossos ramos nas mãos exige de nós o firme compromisso de sermos construtores de justiça. Os frutos da nossa penitência quaresmal, partilhados na Coleta de Solidariedade deste domingo e destinados aos Fundos Diocesano e Nacional de Solidariedade, são o nosso “sim” para que ações concretas garantam que nossos irmãos tenham onde reclinar a cabeça.
Convido-os a entrar nesta Semana Santa com a alma descalça e os olhos fixos em Jesus. Façamos destes dias um verdadeiro retiro espiritual nas nossas paróquias. Participem ativamente das liturgias do Tríduo Pascal: o Lava-pés, a Adoração da Santa Cruz e a Vigília da Ressurreição. Que os ramos abençoados, levados hoje para as suas casas, não sejam guardados como amuleto, mas permaneçam visíveis como o compromisso inabalável de que o seu lar é habitado por Cristo, e de que nossa vocação é lutar para que a moradia digna seja realidade para todos.
Caminhemos nestes dias sob o olhar amparo da Virgem Maria, a Senhora das Dores, que esteve de pé junto à cruz de seu Filho, sustentando a fé da nascente Igreja. Que ela interceda por nós, nos ensine a não fugir diante do sofrimento dos nossos irmãos, para que, perseverando no amor até o fim, possamos proclamar com exultação a vitória do Cristo Ressuscitado.
