Teve início nesta terça-feira, 19 de maio, em Brasília (DF), na Casa Dom Luciano, o Encontro de Ecônomos, promovido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Com o tema “Gestão Eclesial em tempos de mudanças: desafios econômicos, pastorais e éticos”, o evento reúne ecônomos, bispos, padres, religiosos e leigos de diversas dioceses do país para um tempo de formação, partilha de experiências e aprofundamento sobre a administração dos bens da Igreja.
A mesa de abertura contou com a presença do primeiro vice-presidente da CNBB, dom João Justino de Medeiros Silva, e do padre Felipe Lima, ecônomo da CNBB. Já a primeira conferência do encontro foi conduzida pelo Núncio Apostólico no Brasil, dom Giambattista Diquattro, que abordou o tema da gestão eclesial em tempos de secularização e mudança cultural.
Serviço pastoral a favor da missão da Igreja

Ao dar as boas-vindas aos participantes, dom João Justino destacou que a realização do encontro responde a uma decisão da 62ª Assembleia Geral da CNBB, realizada em abril, em Aparecida (SP), na qual os bispos manifestaram apoio à promoção de iniciativas voltadas à formação de colaboradores das dioceses em diferentes áreas, como pastoral, jurídica e econômica.
“Reunimo-nos como Igreja que deseja servir melhor à própria Igreja, na administração dos bens que devem estar a serviço da missão”, afirmou.

O arcebispo ressaltou que a função do ecônomo ultrapassa o aspecto técnico e administrativo, constituindo-se como um verdadeiro serviço pastoral. Segundo ele, a boa gestão dos bens eclesiais é expressão concreta do cuidado com a evangelização, com a sustentabilidade da missão e com a promoção da dignidade humana.
“Não se trata apenas de uma função técnica ou administrativa, mas de um verdadeiro serviço pastoral realizado com profundo senso de responsabilidade eclesial”, enfatizou.
Inspirado no caminho sinodal vivido pela Igreja, dom João Justino destacou a importância de uma administração cada vez mais participativa, responsável e transparente. Ele recordou que a prestação de contas fortalece a confiança, o testemunho e a credibilidade da Igreja perante a sociedade.
Para o primeiro vice-presidente da CNBB, a gestão dos bens eclesiais é também um espaço concreto de vivência da sinodalidade, onde todos colaboram para que a Igreja seja sinal do Reino de Deus no mundo.
Ao concluir sua mensagem, desejou que os dias de encontro sejam fecundos em reflexão, diálogo e fraternidade, pedindo a intercessão de Nossa Senhora Aparecida para que a Igreja no Brasil continue crescendo em unidade, fidelidade ao Evangelho e compromisso com uma Igreja cada vez mais sinodal, missionária e transparente.
Governança, integridade e reforma tributária
Na sequência, o padre Felipe Lima acolheu os participantes e destacou a importância do encontro como espaço de formação, informação e renovação da consciência sobre a missão confiada aos ecônomos.
“Administramos bens que não nos pertencem, mas que foram colocados sob nossos cuidados para que possamos agir com equidade, transparência, sustentabilidade e fidelidade ao Evangelho”, afirmou.

O ecônomo da CNBB ressaltou que o contexto atual, marcado por rápidas transformações sociais, econômicas e jurídicas, exige atualização constante dos gestores eclesiais. Entre os desafios apontados, mencionou a reforma tributária em curso no Brasil, que demandará atenção especial por parte das dioceses quanto aos impactos sobre as instituições religiosas.
Padre Felipe também enfatizou a necessidade de fortalecer uma cultura de governança e integridade, com práticas como compliance, auditoria, prestação de contas, planejamento estratégico e gestão de riscos.
“A transparência não enfraquece a Igreja; ao contrário, fortalece sua credibilidade. A boa gestão cria as condições necessárias para que a evangelização aconteça com continuidade e confiança”, destacou.
Primeira conferência: Gestão eclesial em tempos de secularização e mudança cultural

A primeira conferência do encontro foi conduzida pelo Núncio Apostólico no Brasil, dom Giambattista Diquattro, que abordou o tema da gestão eclesial em tempos de secularização e mudança cultural.
Em sua exposição, o representante da Santa Sé refletiu sobre os impactos da secularização e das profundas mudanças culturais sobre a vida da Igreja e sua sustentabilidade econômica. Segundo ele, o cenário atual exige novos instrumentos e uma mentalidade capaz de unir competência técnica e sabedoria evangélica.
Dom Giambattista destacou que o crescimento das denominações evangélicas, a mudança no perfil dos fiéis e a redução da participação sacramental trazem consequências concretas para a administração das dioceses, como diminuição das ofertas ordinárias e maior exigência de transparência.
O Núncio recordou ainda que a administração dos recursos de uma diocese deve ser uma ação colegial, sustentada por organismos funcionais e pela corresponsabilidade efetiva entre bispo, ecônomo e conselho para assuntos econômicos.
“Governar os recursos de uma diocese não é uma tarefa solitária nem prerrogativa exclusiva do ecônomo. É uma ação colegial que requer organismos funcionais, plurais e corresponsabilidade efetiva”, afirmou.
Outro ponto destacado foi a necessidade de superar o modelo de paróquias economicamente isoladas em favor de uma gestão integrada em nível diocesano, capaz de promover maior eficiência, solidariedade e comunhão entre as comunidades.
Para dom Giambattista, o ecônomo é chamado a ser “construtor de comunhão”, exercendo um serviço essencial para a missão evangelizadora da Igreja.
O Núncio Apostólico destacou que a Igreja é chamada a avançar para um modelo de gestão integrada dos bens e recursos, com serviços como contabilidade, administração de pessoal e manutenção do patrimônio, além da criação de unidades pastorais com administração compartilhada. Segundo ele, essa perspectiva encontra respaldo no Código de Direito Canônico, que atribui ao bispo diocesano a responsabilidade de coordenar e supervisionar toda a administração patrimonial, garantindo que os recursos sejam utilizados de forma eficiente e em conformidade com a missão evangelizadora da Igreja.
Ele reconheceu que essa transição pode gerar resistências, sobretudo entre paróquias que temem perder autonomia ou ver seus recursos destinados a outras comunidades. Por isso, ressaltou que a implantação deve ocorrer de maneira gradual, dialogada e respeitosa, deixando claro que a gestão integrada não significa expropriação, mas racionalização e partilha solidária em benefício de toda a diocese.

O representante da Santa Sé enfatizou também a dimensão comunitária da administração dos bens eclesiais. Recordou que os administradores devem prestar contas aos fiéis, que não são meros destinatários das decisões econômicas, mas participantes ativos cuja confiança deve ser continuamente cultivada. Nesse contexto, o ecônomo diocesano aparece como figura-chave, chamado a unir competência técnica, sensibilidade pastoral e espírito de comunhão.
O Núncio observou que, em um país de dimensões continentais e profundas desigualdades como o Brasil, é essencial fortalecer mecanismos de solidariedade entre dioceses, como fundos comuns e instrumentos de equalização financeira coordenados pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, para garantir que nenhuma Igreja particular fique privada dos recursos necessários para cumprir sua missão.
Ao tratar da formação dos ecônomos, destacou que o cargo não pode ser reduzido ao de mero administrador. Trata-se de um colaborador estratégico do bispo, cuja atuação exige preparo específico em direito canônico, legislação civil, gestão financeira, ética e doutrina social da Igreja. Por isso, recomendou a criação de programas permanentes de capacitação para ecônomos, bispos e membros dos conselhos econômicos, com a colaboração de universidades católicas e faculdades especializadas.
Dom Giambattista ressaltou ainda que a administração eclesial deve observar não apenas o Código de Direito Canônico, mas também a legislação civil brasileira, especialmente no que se refere a contratos, obrigações, regimes fiscais e responsabilidade patrimonial. Segundo ele, a gestão financeira das dioceses situa-se na interseção entre a ordem canônica e a ordem estatal, e falhas em qualquer um desses campos podem acarretar sérias consequências jurídicas e econômicas.
Por fim, destacou que o pontificado do Papa Francisco impulsionou uma profunda renovação na governança econômica da Igreja, com a criação de organismos como o Conselho para a Economia e a Secretaria para a Economia. Inspiradas em princípios de transparência, separação de funções e controle independente, essas estruturas, segundo o Núncio, tornaram-se referência para todas as Igrejas particulares, inclusive no Brasil, e desafiam as dioceses a aperfeiçoarem continuamente seus instrumentos de gestão em sintonia com os padrões de responsabilidade e integridade promovidos pela Igreja universal.
Outras conferências
Ainda neste primeiro dia de encontro dos ecônomos serão discutidos os impactos reais da reforma tributária na economia e no Terceiro Setor; e os desafios legais e pastorais na administração eclesial com relação à auditoria, prestação de contas e Compliance.
O Encontro de Ecônomos segue até a próxima quinta-feira, 21 de maio, com conferências, debates e partilhas voltados ao fortalecimento da gestão econômica e patrimonial da Igreja no Brasil, sempre em sintonia com os princípios da ética, da corresponsabilidade e da missão evangelizadora.
Por Larissa Carvalho | Fotos: Fiama Tonhá
