Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)
Há dias no calendário litúrgico que não apenas celebram um acontecimento, mas iluminam o significado secreto da história. A Epifania — festa da manifestação de Deus ao mundo inteiro — é um desses momentos. Depois do silêncio de Belém, da ternura da manjedoura e da luz que nasce na noite de Natal, a Epifania abre as cortinas do grande palco da humanidade para mostrar que aquela criança não é apenas de um povo, mas de todos os povos.
O Evangelho conta que homens vindos de longe — magos, estrangeiros, buscadores — atravessaram desertos guiados por uma estrela. A tradição os vê como sábios, capazes de ler os sinais do céu e do coração. O essencial, porém, não é sua origem, mas sua sede. Eles representam todos aqueles que não se contentam com a superfície da vida, que buscam um sentido maior, que não temem caminhar na noite atrás de uma luz que às vezes se esconde, mas nunca engana.
A Epifania é, antes de tudo, festa da procura. Mas é também, e sobretudo, festa da revelação: Deus se deixa encontrar. Não se esconde na força, no poder ou no prestígio. A estrela não conduz os magos a um palácio, mas a uma casa simples. E ali, diante de um menino frágil, desprovido de qualquer símbolo de grandeza, aqueles homens se ajoelham. A sabedoria humana reconhece a sabedoria divina, que escolhe a humildade como linguagem.
Há uma força simbólica profunda nesse gesto: quando o mundo se curva diante da pequenez de Deus, descobre seu verdadeiro tamanho. A Epifania desmente a ideia de que a glória está ligada ao poder; revela que o rosto de Deus brilha na simplicidade, na delicadeza, na vulnerabilidade. É uma lição que não perde atualidade em tempos marcados por disputas, ostentação e excesso de visibilidade.
Os presentes dos magos — ouro, incenso e mirra — falam de um Deus que é Rei, Deus e Servo. Mas também falam de nós: das ofertas que trazemos ao encontro da fé. Cada pessoa, ao chegar diante do Menino, oferece o que tem e o que é: alegrias, cansaços, medos, feridas, esperanças. A Epifania é esse encontro entre a busca humana e a resposta divina, entre o caminho percorrido e a vida que se entrega.
No contexto mais amplo da fé cristã, a Epifania recorda uma verdade essencial: o Evangelho não é propriedade privada. A estrela não brilha apenas para alguns — brilha para todos. O Deus que nasce na periferia de Belém se manifesta nas periferias do mundo. Ele é luz para os que creem e para os que procuram, para os que chegam cedo e para os que chegam tarde. É luz para quem se perde, para quem duvida, para quem recomeça.
É por isso que a Epifania é também uma festa missionária. Ela afirma que a fé é dom, mas é igualmente responsabilidade: a luz recebida deve ser refletida. O cristão é chamado a tornar-se estrela — não para atrair para si, mas para apontar para Deus. Em tempos de sombras, isso significa viver com autenticidade, com justiça, com serviço, com compaixão. A luz que transforma o mundo nasce de vidas que se deixam iluminar.
Ao final, a Epifania nos convida a uma atitude permanente: aprender a ver. Ver Deus nos acontecimentos pequenos. Ver sinais de esperança onde o olhar superficial só enxerga desânimo. Ver a dignidade dos que são diferentes, como os magos que vinham de outros povos. Ver que cada pessoa carrega um brilho que pede reconhecimento. Ver que a história — pessoal e coletiva — é atravessada por uma luz que vem do alto.
Sim, a Epifania é mais do que a visita dos magos. É o anúncio de que a luz de Deus é para todos. É o chamado a caminhar, a buscar, a encontrar. É a certeza de que quem segue a estrela jamais caminha sozinho.
