Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)
Aquele dia estranho da liturgia em que a Igreja não celebra nem canta, em que tudo parece em suspenso entre a dor já vivida e a esperança ainda não manifestada. É o dia do silêncio de Deus… e, talvez por isso mesmo, o dia em que Ele mais fala.
Foi nesse clima que, em um momento simples de partilha, um místico me confiou algo muito íntimo por meio de um texto. Não era um discurso elaborado nem uma reflexão teológica. Era, antes, uma confissão, daquelas que nascem quando o coração já não consegue guardar o que sente.
Falava do Amor, naturalmente de Deus, pois, como nos recorda a Primeira Carta de São João, “Deus é amor”. Mas não um amor abstrato ou distante. Era um amor vivido como relação pessoal, próxima, quase tangível, dito na linguagem de quem ama, com entrega, ternura e delicadeza.
Ao ler, algo em mim se calou, não por falta do que dizer, mas por excesso de sentido.
Meu primeiro impulso foi responder, comentar, elogiar, talvez até interpretar. Mas me contive. Percebi que estava diante de algo que não se comenta, contempla-se. Era preciso cobrir o rosto, tirar as sandálias da pressa e da tagarelice e deixar que o mistério falasse por si. Fiz daquele texto a minha oração.
Ele não veio como resposta, mas como revelação. Como se, no íntimo do coração, algo tivesse sido semeado no escuro e, sem alarde, começasse a florescer em direção à luz. Aproxima-se do mistério da Quinta-feira, quando se reconhece o Amor que se inclina.
E, enquanto lia, fui sendo conduzido, quase sem perceber, à escola dos grandes místicos. Pensei em Santa Teresa de Ávila, com sua linguagem tão humana e profundamente divina. Ela falava com Deus como quem fala a um amigo e até lhe dirigia certas queixas. Recordei o episódio em que, diante das dificuldades, Teresa diz: “Se é assim que tratais os Vossos amigos…”. E, ao ouvir que Deus assim trata os que ama, responde: “Ah, Senhor, então é por isso que tendes tão poucos amigos!”
Há nisso uma verdade profunda: o Amor não nos poupa da travessia; ao contrário, introduz-nos nela. Não nos isenta da cruz; antes, configura-nos a Cristo. Amar é entrar num caminho que passa pela Quinta-feira do serviço, pela Sexta-feira da dor e da doação e pelo Sábado do silêncio. Era exatamente isso que se revelava na leitura: um amor que se inclina e se doa, mesmo quando não compreende tudo; que carrega marcas, atravessando desertos interiores, silêncios densos e feridas que doem; e, sobretudo, um amor que sabe esperar, como no Sábado Santo, tempo em que nada parece acontecer, mas tudo está sendo gestado em profundidade.
O mais impressionante é que não havia desespero. Havia silêncio, serenidade e permanência. E isso é profundamente místico! O verdadeiro amor não depende das consolações para existir. Permanece mesmo quando não sente, não vê, não compreende. Permanece porque encontrou, no fundo de si, uma presença que não passa.
E, então, quase sem ruído, como na madrugada da Páscoa, surge a luz. Não como espetáculo, mas como claridade mansa; não como ruptura violenta, mas como aurora que se impõe suavemente sobre a noite. Assim terminava aquele texto, não com uma explicação, mas com uma presença. Uma alegria serena, discreta e real, como quem atravessou a noite e descobriu que a vida venceu.
Depois de ler e reler, permaneci em silêncio. Decidi acolhê-lo não apenas como texto, mas como oração. Há palavras que não são meras palavras, mas lugares onde Deus passa, onde o coração se reconhece, onde o mistério se deixa tocar sem se explicar.
Saí com uma convicção: textos assim não deveriam permanecer escondidos, não por vaidade de quem os escreve, mas por necessidade de quem os encontra. Eles são memória viva de que Deus continua falando e continua amando de forma surpreendentemente humana.
Talvez esse seja o maior sinal da experiência mística: quando o amor a Deus se torna tão concreto, tão próximo e tão verdadeiro que começa a falar a linguagem do coração. Sem ruído, como no Sábado Santo, mas pleno de eternidade.
