Este é o meu Filho muito amado, escutai-O! 

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR) 

 

Na segunda etapa do caminho quaresmal, a Palavra de Deus convida-nos a revitalizar a nossa fé, a escutar a voz de Deus, a pormo-nos a caminho, sem reticências nem prevenções, na direção que Ele nos indicar. Pode ser que, à luz da lógica humana, os caminhos que Deus nos aponta pareçam estranhos e ilógicos; mas eles conduzem, indubitavelmente, à vida verdadeira e eterna. Neste Segundo Domingo da Quaresma somos convidados à contemplação da iniciativa divina de revelar-se à humanidade! A Revelação de Deus não é fruto de mérito humano, mas expressão de sua misericórdia e de seu desejo de conduzir a pessoa à plenitude da vida. 

A primeira leitura – Gn 12,1-4a – coloca diante dos nossos olhos aquele que a catequese de Israel considera o “modelo” do crente: Abraão. Depois de ouvir Deus dizer-lhe “põe-te a caminho”, Abraão deixa tudo, corta todas as amarras e avança rumo ao desconhecido, disposto a abraçar todos os desafios que Deus entender apresentar-lhe. A sua obediência é total, a sua confiança é inabalável. A forma como Abraão se entrega nas mãos de Deus interpela e desafia os crentes de todas as épocas. Abrão é chamado por Deus a abandonar suas seguranças – terra e família – e sair em busca de uma nova terra, onde será pai na fé, sejamos atentos à Palavra Divina e deixemo-nos guiar por ela, seguindo o caminho que nos indica. O verbo “sair”, primeiro imperativo dirigido a Abrão, aponta mais para uma disposição interior do que para um movimento geográfico. É preciso deixar-se conduzir, romper com as seguranças humanas e abrir-se ao novo de Deus Essa dinâmica da fé alcança a sua plenitude no Evangelho da Transfiguração. 

No Evangelho – Mt 17,1-9 – Jesus pede aos discípulos que confiem n’Ele e que ousem segui-l’O no caminho de Jerusalém. Esse caminho, embora passe pela cruz, conduz à ressurreição, à vida nova e eterna. Aos discípulos, relutantes e assustados, Deus confirma a verdade da proposta de Jesus: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. Ousaremos também nós seguir Jesus no caminho de Jerusalém? No alto da montanha, Jesus revela seu esplendor divino. Sua prática é confirmada pela Lei – Moisés – e pela Profecia – Elias –, completando a história da salvação. A voz saída da nuvem convida os discípulos a escutar Jesus. Ele é a presença viva de Deus. Somos todos convidados a “subir a montanha” para transfigurar nossa vida, a fim de transformar a realidade que nos cerca. 

Jesus leva consigo três discípulos ao monte e, ali, diante dos olhos atônitos de Pedro, Tiago e João, sua face resplandece como o sol, e suas vestes tornam-se brancas como a luz. A cena antecipa a glória da Ressureição, mas ocorre em um contexto de subida, de esforço e solidão. A presença de Moisés e Elias simboliza a Lei e os Profetas como dissemos, que convergem para Cristo. A experiência luminosa no monte sustenta os discípulos diante da escuridão do calvário. Contemplar o Cristo transfigurado é reconhecer que a glória não exclui a cruz, mas a atravessa. 

Na segunda leitura – 2Tm 1,8b-10 –, o autor da Carta a Timóteo recorda-nos que Deus conta conosco para sermos, no mundo, arautos da Boa Notícia da sua salvação. Talvez isso signifique correr riscos, enfrentar medos, suscitar oposições, viver em sobressalto; mas a proposta de Deus não pode ser riscada dos caminhos que a humanidade percorre: tem de ser proclamada de cima dos telhados e chegar ao coração de todos os homens. Todos recebemos, pelo batismo, uma vocação à santidade, para que nos comprometamos com o projeto de Jesus. A exemplo de Timóteo, somos exortados por Paulo a participar do sofrimento de quem proclama o Evangelho. 

A liturgia de hoje nos ensina que devemos ouvir mais do que falar. A Quaresma é este tempo propício para fugir da onda do barulho e sair da distração. Só Deus basta e devemos fazer silêncio para ouvir a voz de Deus. A cena da Transfiguração de Jesus é uma teofania, isto é, uma manifestação divina, contém um ensinamento fundamental: ouvir Jesus. “Este é o meu Filho amado, em quem encontro o meu agrado. Ouçam-no” (Mt 17,5). É interessante que a voz ressoou no momento em que o apóstolo Pedro falava. Em vez de ouvir e sentir o mistério, Pedro parecia olhar para a outra direção, como se estivesse sendo capturado pelas imagens. Não abriu os ouvidos. “Senho, é bom estarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tenda: uma para ti, outra para Moisés e outa para Elias” (Mt 17,4). É necessário adentrar o mistério em sua profundidade. As exterioridades exageradas podem ofuscar o essencial e desviar nossa atenção para o supérfluo. Jesus não quer apenas adeptos com práticas exteriores. Ele quer seguidores autênticos, convertidos, com vínculos, e não somente conexão.  

Hoje, neste tempo favorável, Jesus continua se transfigurando no monte sagrado de nosso coração. Deixemos que a sua voz seja ouvida e assimilada em nossa vida e na nossa alma! Que muitas vezes possamos ouvir a voz do Pai: “Este é o meu Filho amado, em quem encontro o meu agrado. Ouçam-no” (Mt 17,5). 

 

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