Dom Jailton Olivera Lino
Bispo de Itabuna (BA)
A Igreja carrega mais de dois mil anos de história, oração e missão. Desde o seu nascimento, aprendeu diretamente do próprio Cristo que a fé jamais pode ser separada do cuidado com os mais frágeis. Jesus não permaneceu distante da dor humana: aproximou-se dos excluídos, tocou os enfermos, alimentou multidões e enfrentou, com coragem profética, toda forma de opressão.
Muito antes da encarnação do Verbo, o profeta Isaías já anunciava essa pedagogia divina, revelando que a verdadeira religião passa necessariamente pelo amor concreto ao próximo:
“Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o… se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz.”
Essa Palavra atravessou os séculos e chega até nós com a mesma força transformadora.
É preciso afirmar com clareza: a opção da Igreja pelos pobres não nasce de ideologias nem de projetos partidários. Ela nasce do Evangelho. É fidelidade radical a Jesus Cristo. Como recorda o Papa Francisco: “Cada cristão e cada comunidade é chamada a ser instrumento de Deus para a libertação e promoção dos pobres.”
Também é fundamental compreender que não se trata de colocar o pobre no lugar de Cristo, mas de obedecer ao maior mandamento da Lei: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Servir o pobre é consequência desse amor. É resposta concreta ao chamado do Senhor.
São João Paulo II já ensinava que “o amor preferencial pelos pobres faz parte da tradição viva da Igreja” — não como estratégia social, mas como expressão da própria fé. A chamada Doutrina Social da Igreja apenas sistematiza, em linguagem teológica, aquilo que Jesus viveu em gestos cotidianos.
A Igreja caminha com os pobres não por escolha ideológica, mas por obediência ao seu Senhor.
Isaías nos confronta com uma verdade exigente: não basta rezar bonito ou erguer as mãos aos céus. Deus é direto. A oração que não se traduz em compromisso com o próximo torna-se estéril. Antes de dizer “Eis-me aqui”, o Senhor pede atitudes reais: abandonar instrumentos de opressão, rejeitar hábitos autoritários, calar palavras maldosas e abrir o coração ao necessitado.
Agostinho de Hipona sintetiza isso com precisão espiritual: “Se queres encontrar Deus, procura-o primeiro no irmão.” A fé cristã não é abstrata; é encarnada. Ela nos tira da comodidade e nos conduz ao encontro com quem sofre.
Vivemos tempos de polarização, discursos vazios e uma religiosidade muitas vezes confortável. Enquanto isso, famílias passam fome, jovens perdem perspectivas, idosos são esquecidos e trabalhadores seguem esmagados por estruturas injustas.
O profeta não deixa espaço para neutralidade.
Ou repartimos o pão, ou nossa luz não brilha.
Ou acolhemos o peregrino, ou permanecemos nas trevas.
Ou socorremos o necessitado, ou nossa espiritualidade se torna vazia.
Não se trata de assistencialismo superficial. Trata-se de reconhecer a dignidade humana. Trata-se de compreender que amar a Deus passa, necessariamente, por amar o irmão. Como dizia Teresa de Calcutá: “O que conta não é quanto fazemos, mas quanto amor colocamos no que fazemos.”
Quando isso acontece — garante Isaías — a justiça caminha à frente e a glória do Senhor nos acompanha. A vida obscurecida se transforma em pleno dia.
Talvez seja exatamente isso que nosso tempo mais precise: menos discursos e mais pão repartido. Menos julgamento e mais acolhimento. Menos vaidade religiosa e mais compromisso com quem dói.
E Deus continua respondendo do mesmo modo àqueles que vivem essa Palavra:
“Eis-me aqui.”
