Férias: quando o tempo livre ensina a viver

Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)

 

Há períodos do ano que chegam como um suspiro. Depois de meses marcados pela urgência, pelos prazos e pelas responsabilidades que se acumulam, as férias surgem como aquele espaço imprevisto de respiro onde, enfim, é possível desacelerar. Mais do que descanso, as férias são um tempo simbólico, um convite silencioso a reaprender o ritmo da vida. 

Na perspectiva cristã, o tempo nunca é neutro. Ele é sempre lugar de encontro – encontro consigo, com os outros e com Deus. Por isso, as férias não são uma pausa vazia, mas uma possibilidade preciosa: a oportunidade de habitar o tempo de outro modo, sem as pressões que normalmente o comprimem. Quando o relógio perde sua tirania cotidiana, descobrimos que viver pode ser mais do que apenas cumprir agendas: pode ser saborear, ouvir, olhar, ser. 

A missão não se sustenta sem descanso  

Aprender a viver é uma arte que exige pausa. O próprio evangelho mostra Jesus conduzindo seus discípulos para um lugar à parte, longe do barulho das cidades, para que pudessem repousar o corpo e aquietar a alma. Ele sabia que a missão não se sustenta sem o descanso; que a vida se desumaniza quando não encontra espaços de silêncio; que o coração precisa respirar para continuar amando. 

As férias carregam, portanto, uma dimensão espiritual. São um tempo que lembra ao ser humano sua própria fragilidade: ninguém consegue viver em permanente tensão. A pausa é necessária não apenas para recuperar forças, mas para reorientar sentidos, reorganizar prioridades e reencontrar aquilo que, no meio da correria, vai se escondendo — a alegria das pequenas coisas, a força dos vínculos, o valor do simples. 

Mas as férias também podem transformar-se em ilusão se forem vividas apenas como fuga ou consumo. O descanso verdadeiro não se mede por quilômetros percorridos ou fotografias acumuladas, mas por aquilo que ele produz por dentro: serenidade, leveza, abertura, reconciliação. Tempo livre, sim — mas livre para o essencial. Livres para rir, conversar, contemplar. Livres para deixar que a vida, tantas vezes sufocada, volte a respirar em nós. 

Os ensinamentos das férias 

É por isso que as férias se tornam ocasião privilegiada para aprender a viver. Porque, ao retirar o peso das ocupações, elas nos devolvem a chance de prestar atenção ao que importa. Permitem reencontrar quem somos sem os rótulos do trabalho, sem as exigências da produtividade, sem a ansiedade das rotinas. Permitem descobrir o outro — familiares, amigos, desconhecidos — com olhar renovado. E permitem, sobretudo, encontrar Deus no inesperado: na paisagem, no silêncio, na refeição partilhada, no descanso merecido. 

Na tradição bíblica, Deus é apresentado como Senhor do tempo. Ele é Aquele que conduz ciclos, abre caminhos e sustenta a vida em seus altos e baixos. As férias, nesse horizonte, não são um luxo ocasional, mas um direito e uma tarefa: a tarefa de permitir que Deus nos ensine, outra vez, a arte de viver bem. Porque só quem descansa pode servir; só quem se recolhe pode se doar; só quem se encontra pode, de fato, encontrar os outros. 

Ao final, talvez seja esse o grande ensinamento das férias: lembrar que o ser humano não é apenas força, movimento, rendimento — mas também fragilidade, contemplação e descanso. Lembrar que viver não é apenas fazer, mas sentir. Não é apenas correr, mas permanecer. Não é apenas avançar, mas saborear o tempo que se recebe. 

E quando, no encerramento das férias, cada pessoa retornará ao seu cotidiano, levará consigo algo desse aprendizado. Talvez um pouco mais de paciência. Talvez mais silêncio e menos urgência. Talvez um olhar mais atento para o outro. Talvez a consciência de que o tempo — todo ele — é dom. 

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