Dom Antonio Carlos Rossi Keller

Bispo de Frederico Westphalen (RS)

 

Festa do Batismo do Senhor marca o encerramento do Tempo do Natal e a transição para o Tempo Comum. Celebramos o momento em que Jesus, já adulto, se apresenta no rio Jordão junto a João Batista para receber o batismo de conversão. Embora sem pecado, Jesus entra na água dos pecadores, manifestando assim a sua profunda solidariedade com a humanidade caída. Este evento não é somente uma epifania (manifestação) do Filho de Deus, mas também o início oficial da sua vida pública: os céus se abrem, o Espírito desce e o Pai o proclama como “Filho amado”. A festa nos convida a redescobrir o sentido do nosso próprio batismo: não mero rito do passado, mas fonte permanente de identidade cristã e força missionária. 

1.a Leitura (Is 42,1-4.6-7) — O Servo do Senhor

A primeira leitura apresenta o primeiro dos “cânticos do Servo” em Isaías. Deus anuncia o seu “servo eleito”, sobre quem repousa o seu Espírito, com a missão de trazer justiça às nações. Este servo age com delicadeza extrema: “não quebra a cana rachada, nem apaga o pavio que ainda fumega” — imagem de alguém que cuida dos mais frágeis e não desiste dos que estão quase se apagando. Deus o constitui “aliança do povo e luz das nações”, para abrir olhos de cegos, libertar presos e tirar das trevas os que vivem no cárcere. 

No Batismo de Jesus, a Igreja reconhece o cumprimento pleno desta profecia: Jesus é o Servo por excelência, ungido pelo Espírito, que inaugura o Reino pela via da misericórdia e da não-violência. Ele não veio para condenar, mas para restaurar com ternura os corações feridos. 

2.a Leitura (At 10,34-38) — O testemunho de Pedro

Pedro, falando na casa de Cornélio (um pagão), proclama uma verdade revolucionária: “Deus não faz acepção de pessoas”. A salvação em Jesus Cristo é universal. Ele resume a vida de Jesus a partir do batismo que João pregou: “Deus ungiu com o Espírito Santo e com poder a Jesus de Nazaré”, que “passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demônio, porque Deus estava com ele”. 

Este texto nos mostra o Batismo de Jesus como o ponto de partida do seu ministério: ungido pelo Espírito, Ele se torna o “Senhor de todos” e inicia uma vida dedicada ao bem e à libertação. Pedro nos recorda que a mesma unção que desceu sobre Jesus no Jordão continua atuando na Igreja: o Espírito nos capacita a continuar a missão de “fazer o bem” e combater toda forma de opressão. 

Evangelho (Mt 3,13-17) — O Batismo de Jesus no Jordão

Mateus apresenta o diálogo mais rico entre Jesus e João: João hesita (“Eu é que preciso ser batizado por ti”), mas Jesus responde: “Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça”. Jesus entra na água não por necessidade própria, mas para “cumprir toda a justiça” — ou seja, para realizar plenamente o plano de Deus, solidarizando-se com os pecadores e inaugurando a justiça do Reino. 

Ao sair da água, os céus se abrem, o Espírito desce em forma de pomba e ouve-se a voz do Pai: “Este é o meu Filho amado, em quem ponho o meu bem-querer”. É a revelação trinitária plena: o Pai ama o Filho, o Espírito o unge, e Jesus se revela como o Messias esperado. 

Aplicação prática para a vida diária 

A Festa do Batismo do Senhor não é somente memória histórica: é renovação do nosso próprio batismo. Perguntemo-nos: 

Reconheço-me como “filho amado” do Pai, mesmo nas minhas fragilidades? Deixo que esta certeza me liberte do medo e da desvalorização pessoal?  

Vivo a unção do Espírito como força para “fazer o bem” no dia a dia? Sou delicado com os “pavios que fumegam” — com os desanimados, marginalizados, feridos?  

Coloco-me ao lado dos pecadores como Jesus fez, sem medo de “sujar as mãos”, ou mantenho-me distante por medo do julgamento alheio?  

Cumpro a “justiça” no meu ambiente: família, trabalho, bairro, defendendo a dignidade dos mais frágeis e promovendo a paz pela misericórdia?  

Renovemos hoje, conscientemente, as promessas batismais: renunciar ao pecado, crer no Evangelho e viver como filhos amados, ungidos para servir. Que o Espírito que desceu sobre Jesus desça também sobre nós e nos impulsione a “cumprir toda a justiça” no concreto da nossa existência cotidiana. Assim, o Natal não termina: continua em cada gesto de amor e de serviço. 

 

 

Tags:

leia também