Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Irmãos e irmãs,
Com a celebração do Batismo do Senhor, a Igreja conclui o Tempo do Natal e contempla o primeiro grande gesto público da vida de Jesus. Aquele que nasceu em Belém, manifestado aos pastores e aos povos, apresenta-se agora às margens do Jordão para ser batizado por João. Este acontecimento não é um detalhe secundário da vida de Cristo, mas uma verdadeira revelação do mistério da sua identidade e da sua missão.
O Evangelho segundo São Mateus narra que “Jesus veio da Galileia ao Jordão, até João, para ser batizado por ele” (Mt 3,13). Trata-se de um movimento carregado de significado. Jesus não se coloca acima da humanidade; Ele desce às águas onde o povo confessa os seus pecados. Embora não tenha pecado algum, o Filho de Deus escolhe a solidariedade radical com a condição humana ferida. Aqui se revela um Deus que não salva à distância, mas que entra na história, assume o peso da fragilidade humana e caminha junto com os pecadores.
João Batista resiste: “Eu é que devo ser batizado por ti, e tu vens a mim?” (Mt 3,14). A resposta de Jesus é decisiva: “Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça” (Mt 3,15). A justiça, no sentido bíblico, não é mero cumprimento legal, mas fidelidade plena à vontade do Pai. Jesus inaugura sua missão colocando-se no lugar dos últimos, assumindo o caminho da obediência e do serviço. Desde o início, fica claro que o Messias não se imporá pela força, mas pela humildade.
A primeira leitura, do profeta Isaías – Is 42,1-4.6-7 –, ilumina profundamente este gesto. O Senhor apresenta o seu Servo: “Eis o meu servo, eu o recebo; eis o meu eleito, nele se compraz a minha alma” (Is 42,1). Este Servo não clama nem levanta a voz, “não quebra a cana rachada, nem apaga a mecha que ainda fumega” (Is 42,3). No Jordão, Jesus se manifesta como esse Servo manso, sustentado pelo Espírito, enviado para instaurar a justiça não pela violência, mas pela fidelidade ao amor de Deus.
O Salmo responsorial proclama: “Eis a voz do Senhor sobre as águas; o Deus da glória troveja” (Sl 28[29],3). As águas do Jordão tornam-se lugar de revelação. Aquilo que era símbolo de conversão torna-se agora espaço de manifestação trinitária. O Pai fala, o Filho está nas águas, o Espírito desce. O Batismo do Senhor não é apenas um gesto pessoal de Jesus, mas uma epifania do próprio Deus.
O Evangelho – Mt 3,13-17 – relata que, após o batismo, “os céus se abriram, e Jesus viu o Espírito de Deus descer como pomba e pousar sobre ele” (Mt 3,16). E uma voz do céu proclama: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado” (Mt 3,17). Aqui está o coração da fé cristã: Jesus é o Filho amado, plenamente unido ao Pai, ungido pelo Espírito. Sua missão nasce dessa relação de amor e obediência.
A segunda leitura, dos Atos dos Apóstolos – At 10,34-38 –, confirma essa compreensão ao afirmar que “Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder” (At 10,38). Essa unção não o afasta da realidade humana; ao contrário, leva-o a “passar fazendo o bem e curando todos os que estavam dominados pelo demônio” (At 10,38). O Batismo do Senhor marca o início de uma vida inteiramente entregue ao serviço da libertação humana.
Esta festa lança também uma luz decisiva sobre o nosso próprio batismo. Fomos batizados não para uma fé privada ou intimista, mas para participar da missão de Cristo. Pelo batismo, tornamo-nos filhos no Filho, ungidos pelo Espírito, chamados a viver segundo a justiça do Reino. Isso significa rejeitar toda forma de cristianismo triunfalista, distante da dor humana, e assumir o caminho do Servo, que não quebra a cana rachada nem apaga a chama vacilante.
Celebrar o Batismo do Senhor é perguntar-nos, com seriedade:
— Nosso batismo transformou nossa maneira de viver?
— Somos sinal da presença do Espírito no mundo ou apenas portadores de um nome cristão?
— Nossa fé nos aproxima dos feridos da história ou nos mantém protegidos em uma religião sem compromisso?
O Jordão continua a atravessar a vida da Igreja. Nele somos constantemente chamados a descer, a abandonar pretensões de grandeza e a ouvir novamente a voz do Pai. Só assim poderemos escutar, também dirigidas a nós, as palavras que sustentam toda vocação cristã: “Tu és meu filho amado”.
Que esta celebração renove em nós a graça do batismo, fortaleça nossa fidelidade ao Evangelho e nos conduza a viver, com humildade e coragem, a missão que recebemos. Amém.
