GT Migrações da CNBB inicia elaboração de Orientações Pastorais para fortalecer a acolhida a migrantes e refugiados 

O Grupo de Trabalho (GT) Migrações da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realizou, nesta quinta-feira, 30 de julho, na sede da Conferência, em Brasília (DF), uma reunião dedicada à análise da realidade das migrações no país e ao planejamento da elaboração de um documento de Orientações Pastorais voltado à Igreja no Brasil. 

A programação teve início com um momento de oração conduzido por dom Nereudo Henrique, bispo referencial do GT, seguido por uma análise da conjuntura das migrações e do refúgio no Brasil, reflexão sobre os desafios e perspectivas da ação pastoral junto aos migrantes, definição da metodologia de elaboração do documento, além de acordos e calendário de trabalho. 

Dom Ricardo Hoepers fez uma acolhida no início do encontro

Na acolhida aos participantes, o secretário-geral da CNBB, dom Ricardo Hoepers, destacou a importância de fortalecer a articulação entre os diversos organismos e pastorais que já desenvolvem ações com migrantes e refugiados. 

Segundo ele, a criação do GT não pretende iniciar um novo trabalho, mas integrar iniciativas já existentes, recuperar a memória da atuação da Igreja e favorecer uma ação mais coordenada. 

“A grande preocupação é fortalecer a articulação dos diferentes trabalhos realizados. Queremos que todos saibam o que está acontecendo, possam partilhar experiências e construir ações conjuntas. A questão migratória atravessa praticamente todas as dimensões da vida da Igreja e precisa ser assumida de forma integrada”, afirmou. 

Dom Ricardo também ressaltou que um dos objetivos centrais do grupo é oferecer subsídios que contribuam para sensibilizar o episcopado brasileiro sobre a realidade das migrações. 

“A expectativa é que este grupo produza materiais consistentes, fortaleça a consciência sobre o tema e ajude os bispos a responderem aos desafios que essa realidade apresenta. A causa é nobre e será cada vez mais necessária diante do crescimento dos fluxos migratórios e da xenofobia em diversas partes do mundo.”

GT reunido

Documento para toda a Igreja 

A assessora da Comissão para a Ação Sociotransformadora e do GT Migrações, Alessandra Miranda, explicou que a principal missão do grupo neste momento é elaborar uma carta de Orientações Pastorais destinada às dioceses, paróquias e comunidades de todo o Brasil. 

Segundo ela, o documento buscará sensibilizar as Igrejas locais para a acolhida, proteção e integração de migrantes e refugiados, além de reforçar a denúncia das violações de direitos humanos relacionadas ao tráfico de pessoas. 

“Nossa metodologia prevê uma série de reuniões ao longo deste ano para construir esse documento de forma participativa. A intenção é que ele seja apresentado ao Conselho Permanente e, posteriormente, à Assembleia Geral da CNBB, de 2027, para apreciação dos bispos.”

Alessandra Miranda

Durante a reunião, o grupo também realizou uma análise da conjuntura migratória no Brasil, identificando os principais desafios enfrentados atualmente pela Igreja e pelos organismos que atuam na área. 

Entre eles estão o aumento da chegada de novas nacionalidades ao país, especialmente migrantes cubanos, a continuidade do fluxo de venezuelanos e a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas ao acolhimento. 

Para Alessandra, a ação humanitária desenvolvida pela Igreja precisa caminhar em parceria com o poder público. 

“A Igreja tem uma missão muito clara de acolher, integrar e promover essas pessoas, mas essa resposta precisa caminhar junto com políticas públicas e orçamento. O Estado e a Igreja possuem responsabilidades diferentes, mas complementares.” 

Defesa da dignidade humana

Dom Nereudo Henrique ressaltou que a principal preocupação da Igreja diante do aumento dos fluxos migratórios é a defesa da vida e da dignidade humana. 

Dom Nereudo Henrique

Segundo ele, guerras, conflitos, perseguições e crises humanitárias têm forçado milhões de pessoas a deixarem seus países, tornando urgente uma resposta pastoral articulada. 

“A Igreja tem o cuidado de recuperar a dignidade humana. Criamos este grupo de trabalho para refletir, sensibilizar a Igreja no Brasil e construir caminhos que permitam acolher essas pessoas com respeito e proximidade.” 

O bispo destacou ainda que um dos maiores desafios pastorais é promover uma mudança de olhar nas comunidades. 

“Precisamos sensibilizar nossas paróquias, dioceses e comunidades para compreender que migrantes, refugiados e vítimas do tráfico humano são nossos irmãos. A dignidade humana passa pelo acolhimento, pelo respeito e pela integração.” 

Articulação das iniciativas 

Também participante da reunião, a diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), irmã Rosita Milesi, chamou atenção para o crescimento dos deslocamentos forçados em todo o mundo. 

Irmã Rosita Milesi

Ela recordou que guerras, mudanças climáticas, perseguições, violações de direitos humanos e situações de pobreza continuam impulsionando fluxos migratórios cada vez mais complexos. 

Segundo a religiosa, a missão da Igreja vai além do primeiro acolhimento:

“O Papa Francisco nos deixou como referência acolher, proteger, promover e integrar. Precisamos avançar até a integração, para que essas pessoas possam reconstruir suas vidas com dignidade.” 

Irmã Rosita destacou ainda que o GT tem um papel estratégico ao reunir diferentes instituições que já atuam com migrantes e refugiados. 

“O objetivo é articular essas iniciativas e construir, de forma conjunta, orientações pastorais fundamentadas na Sagrada Escritura, na Doutrina Social da Igreja e na experiência concreta das instituições que atuam diariamente com essa realidade.” 

Na reunião, os participantes também definem os próximos passos do processo de elaboração das Orientações Pastorais, que continuará ao longo dos próximos meses com novas reuniões, consultas e contribuições de especialistas. A expectativa é que o texto seja apresentado aos bispos durante a Assembleia Geral da CNBB em 2027.

 

 

 

Por Larissa Carvalho | Fotos: Fiama Tonhá

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