Continuamos a leitura do capítulo 6º do evangelho de João. Nossas comunidades eclesiais encontram motivo de muito apreço por sua leitura na liturgia, porque a Eucaristia é tema fundamental para todo cristão, para toda comunidade de fé, para toda paróquia e para toda Igreja. É importante para nós compreendermos Jesus “pão vivo” para viver como verdadeiros cristãos.
Dois domingos atrás, encontrávamos no Evangelho o relato da multiplicação dos pães. No domingo passado vimos as conseqüências deste estrepitoso prodígio. Os curiosos esperavam a continuação de outros prodígios, como se Jesus fosse apenas um hábil prestidigitador. Os discípulos estavam muito impressionados, mesmo não compreendendo. Os chefes do povo mostravam-se incrédulos diante dos prodígios, hostis para com Jesus, entrando em polêmica contra ele.
Vendo muitos se afastarem, Jesus perguntou aos apóstolos: “E vocês não querem também ir embora?” Será Pedro a responder em nome de todos, com resposta da fé, que aparecia também de bom senso: “A quem iremos. Senhor? Tu tens palavras de vida eterna”. Os demais apóstolos ficaram com ele.
Desde aquele momento, Jesus sabia poder contar com Pedro, com os doze. Na última Ceia, realizará o seu projeto: A Eucaristia. Tomará o pão e o vinho. “Isto é meu corpo, isto é meu sangue”, e acrescentará as palavras decisivas: “Fazei isso em memória de mim”.
Pedro e os apóstolos tomaram decisivamente a sério o seu mandamento: “Fazei isso!” Em torno do rito da Eucaristia, da missa, construirão pouco a pouco a Igreja.
Há dois mil anos, as comunidades de fé se reúnem com o Papa, sucessor de Pedro, os bispos, os párocos, os sacerdotes, para renovar aquele rito em memória do Senhor. Também hoje, particularmente no domingo, dia do Senhor, centenas de comunidades de fé se recolhem ao redor de um altar.
O Concílio Vaticano II exprime em fórmula breve, mas densíssima, tudo isso: “A Igreja faz a Eucaristia, e a Eucaristia faz a Igreja.” Igreja significa convocação, assembléia: assembléia dos fieis. O fiéis, por meio de Cristo que se fez nosso irmão, tornaram-se capazes de render culto agradável a Deus Pai de todos. E exprimem esse culto através dos continuadores dos apóstolos: os bispos e sacerdotes, escolhidos do meio do povo.
Mais complexo é compreender como a Eucaristia por sua vez faz a Igreja. Se tomamos consciência, vemos como a missa é capaz de transformar e em profundidade nós cristãos que dela participamos.
Vamos à igreja para libertar-nos ao menos um pouco das preocupações materiais, porque sentimos necessidade de encontrar-nos com Deus, termos o autor de nossa fé em nossas mãos e conceder-nos um momento de silêncio e de reflexão profunda.
Não julgamos os outros por serem faltosos à verdade, à justiça, à solidariedade. Examinamos a nós mesmos e pedimos a Deus perdão de nossos pecados.
Colocamo-nos a seguir na escuta da Palavra do Senhor. Através do evangelho, Jesus nos fala ainda, como falava às multidões lá na Palestina. Dizemos com Pedro “Tu tens palavras de vida eterna” e procuramos guardar para a vida o que diz. Suas palavras nos ajudam a compreender melhor nossa situação de criaturas, filhos de Deus, por ele amados em Cristo, e chamados a um destino eterno. Somos convidados a uma coerência de vida, a um testemunho no mundo. Temos o que rever em nossos programas, purificar-nos, formular novos projetos, mais generosos, mais cristãos.
Vem depois o momento da comunhão, do encontro no mistério com Cristo, do encontro pessoal com Ele, pão descido do céu, dom do Pai aos homens. Saímos dos bancos, colocamo-nos em fila, e encaminhamo-nos para o altar como um povo em caminho. Não cada um por si, mas juntos, unidos pela fé e pela comunhão de propósitos. No silêncio falamos com o Senhor. Agradecemos-lhe pelos seus dons, pedimos-lhe aquilo de que temos mais necessidade, oferecemos-lhe em troca nossa boa vontade, e o empenho por uma vida melhor.
Com a despedida da celebração, voltamos a nossas casas, a nossas ocupações, a nossos amigos, e levamos para a vida de cada dia o que amadurecemos no encontro eucarístico.
Somos chamados a participar de uma revolução silenciosa para que o mundo creia no Cristo Jesus e faça como ele fez: Passou pelo mundo fazendo o bem.
