Iniciação à missão no Brasil: onde os caminhos do mundo se cruzam na fé

“Uma jornada de mil milhas começa sempre com um passo discreto”, ensina a antiga sabedoria chinesa. Essa máxima ecoou na voz do padre Antônio Valdeir Duarte de Queiróz, diretor-geral do Centro Cultural Missionário (CCM), durante o agradecimento que marcou o encerramento dos 90 dias de jornada formativa da 129ª edição do Centro de Formação Intercultural (Cenfi), um programa de iniciação à missão no Brasil.

O ciclo, concluído em clima de celebração, havia começado bem antes: ao desembarcarem no Planalto Central no outono de 2026, o passo inaugural exigiu daqueles homens e mulheres mais do que a coragem de cruzar oceanos e fronteiras. Demandou a ousadia de despir-se do idioma nativo para habitar uma nova língua. Vindos de quatro continentes – em uma Babel mística-missionária composta por onze representantes da África, onze da América, três da Ásia e dois da Europa –, o grupo escolheu o Brasil não como mero destino, mas como pátria para viver a missão de suas vocações.

Uma bússola para o envio

Durante a celebração eucarística que marcou o encerramento do Cenfi, dom Ricardo Hoepers, bispo auxiliar de Brasília, secretário-geral da CNBB e presidente do CCM, agradeceu profundamente aos religiosos e religiosas por abraçarem o Brasil como o solo sagrado de suas missões. Com sensibilidade pastoral, recordou que a convivência desses meses deixará marcas indeléveis: o tempo passa, mas o coração guardará para sempre a memória de cada partilha e o rosto de cada pessoa.

Ao sintonizar a caminhada do grupo com a liturgia do dia 6 de junho, o bispo buscou na primeira leitura as palavras do apóstolo Paulo para selar o envio daqueles homens e mulheres, oferecendo-as como uma bússola espiritual: “Tu, porém, mostra vigilância em tudo, suporta o sofrimento, desempenha o teu serviço de pregador do evangelho, cumpre com perfeição o teu ministério”.

O mosaico da chegada

O ponto de convergência dessa odisseia, promovida pelo CCM – órgão vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) –, teve início no dia 10 de março, quando a sede em Brasília abriu suas portas para acolher os primeiros vinte e um caminhantes. Semanas depois, já no segundo módulo, o grupo expandiu-se com a chegada de mais seis missionários, completando o mosaico humano que, até o dia 6 de junho de 2026, compartilhou o pão, a gramática, a cultura de cada país – convergindo com a riqueza do Brasil – e o altar, nas celebrações e momento orantes.

No princípio, lembrou o padre Antônio Valdeir, a convivência teceu-se na timidez dos pequenos diálogos cotidianos. Pelos corredores do Centro, as vozes tateavam as texturas do português através de expressões que, aos poucos, ganharam o calor do afeto. O formalismo dava lugar à espontaneidade brasileira em fonemas curtos e profundos: “Bom dia!”, “Opa!”, “Sim, sim!”, o cauteloso “Vamos ver!”, o tipicamente expressivo e de raiz brasileira “Anram!”, além dos afetuosos “Meu amigo!”, “Toma cuidado!” e “Muito bom!”. São pequenas chaves linguísticas que deixam de ser simples vocábulos para se tornarem monumentos na memória afetiva do grupo em missão — estímulos permanentes para desbravarem as entranhas culturais e eclesiais das Igrejas Locais onde irão servir.

“Foram 90 dias de curso para o bem-estar de todos vocês. O Centro Cultural Missionário tem a missão de acolher, acompanhar, formar e enviar missionários de outros países para bem servir ao Povo de Deus. A presença de vocês é sinal de uma Igreja viva, missionária e acolhedora. Não tenham medo desse novo passo na jornada missionária! Vocês serão muito bem acolhidos nas diversas regiões do Brasil. O povo brasileiro é acolhedor e continuará ajudando vocês a aprofundarem a língua portuguesa, a cultura e a religiosidade”, reforçou o diretor-geral.

Atravessando os desertos do desterro

A travessia, contudo, não se faz sem desertos. O saudoso Papa Francisco, cujo magistério continua a iluminar os passos da Igreja, lembrava na exortação Evangelii Gaudium que o verdadeiro missionário jamais deixa de ser discípulo: ele sabe que Jesus caminha, fala, respira e trabalha ao seu lado, sentindo-O vivo no coração da tarefa evangelizadora. “É essa certeza mística que ancora vocês aqui no Brasil diante dos desafios inevitáveis do desterro: a solidão das noites, a saudade, a tristeza sutil da distância, as perdas deixadas além-mar, os atritos naturais da convivência e as frustrações momentâneas que nascem do cansaço diário”, animou o diretor do CCM.

Ele lembrou ainda que, ecoando essa mesma mística, o Papa Leão XIV, em sua mensagem para o 100º Dia Mundial das Missões celebrado neste ano, enfatizou que “no centro da missão está o mistério da união com Cristo”. É a união íntima com o Transcendente que resgata a alegria e transfigura as dificuldades em frutos maduros. Os vinte e sete rostos que agora se despedem de Brasília são compreendidos pela Igreja que os acolhe como puros dons divinos – sementes vivas prontas para florescer e fecundar a fé de tantas outras pessoas.

Vozes que contam a história

As narrativas particulares que se cruzaram no CCM traduzem a profundidade desses três meses. O Padre Joshua Tinourtob Bol, missionário do Verbo Divino vindo do Gana e cujo destino será a Arquidiocese de Curitiba, no Paraná, resume a experiência em tom de profunda gratidão:

“Foi um tempo muito especial que marcou minha vida em três partes: língua, missão e cultura. Experiência com a língua: minha professora Yasmin sempre dizia que o objetivo da língua não é ser perfeito, mas é comunicar. Comunicação é entender, falar, escrever e ler. Estudar em grupo trouxe apoio e motivação. Experiência missionária: na entrada do CCM, há uma frase que diz: ‘O CCM é um lugar onde a cultura encontra a missão’. Isso foi verdade para mim. Aprender português me ajudou a viver a missão de forma mais simples e bonita. Descobri que a missão é escutar e caminhar ao lado das pessoas que sempre me receberam com carinho. Experiência cultural: conhecer tradições e costumes do Brasil foi muito legal. Participei de festas. Provei comida típica do Brasil com feijoada, pão de queijo e ouvi música brasileira. Vi como cada região tem sua beleza. Isso me ensinou a respeitar a diferença e a valorizar as belezas da cultura brasileira. Então, esse tempo foi mais do que aprender uma língua. Foi uma experiência de crescimento, serviço e integração cultural. Sou muito grato pela oportunidade. Eu quero levar esses aprendizados para futuras missões. Muito obrigado!”

Da mesma forma, a leiga hondurenha Lilian Azucena Sanches Herrera, membra da Sociedade de Missões Estrangeiras e que agora parte para os desafios amazônicos na arquidiocese de Manaus (AM), sintetiza sua vivência sob a ótica da vida comunitária:

“Meu sentimento é de gratidão por tudo o que eu aprendi da língua portuguesa, pelas experiências missionárias nas paróquias e com as famílias. Isso me ajudará na integração com a realidade local no Brasil. Sou muito agradecida pela vivência comunitária, no intercâmbio entre participantes de diferentes culturas, nos momentos de oração juntos e juntas. Foi maravilhoso ter essas experiências de relações fraternas. Deus abençoe, gratidão para cada uma das pessoas que estavam presentes para que nós tivéssemos tudo o que precisávamos. Deus abençoe, boa missão!”.

Ao final do ciclo, o Centro Cultural Missionário cumpre mais uma vez o seu destino de ser porto e farol. Os vinte e sete missionários deixam Brasília munidos não apenas de conhecimento, mas de uma nova identidade cultural. O sotaque ainda estrangeiro agora carrega a doçura e o vigor da terra brasileira. Eles partem convictos de que a língua aprendida já não é uma barreira, mas o sacramento da comunhão e do caminhar conjunto com o Povo de Deus.

 

Por Osnilda Lima

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