IV Domingo da Quaresma – Ciclo A  

Dom Antonio Carlos Rossi Keller

Bispo de Frederico Westphalen (RS)

IV Domingo da Quaresma – Ciclo A  

Da Escuridão à Luz, da Casa Vazia ao Lar de Deus 

 

Chegamos ao IV Domingo da Quaresma, conhecido como Domingo “Laetare” (do latim laetare, “alegra-te”). A Igreja, no meio do caminho penitencial rumo à Páscoa, nos convida a uma pausa de alegria. É o domingo em que as vestes litúrgicas podem ser róseas, sinal de que a aurora pascal já desponta no horizonte.  

A mensagem central deste domingo é a luz. Jesus é a Luz do mundo que vem iluminar nossas trevas, abrir nossos olhos e nos fazer enxergar a realidade com os olhos de Deus. 

Primeira Leitura: 1 Samuel 16,1b.6-7.10-13a 

“O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração.” 

Deus envia o profeta Samuel para ungir o novo rei de Israel. Diante dos filhos de Jessé, Samuel se impressiona com a aparência de Eliab, mas Deus o corrige: Ele não olha as aparências externas, mas o coração. O escolhido é Davi, o menor, o pastor de ovelhas, aquele que ninguém considerava. 

Quantas vezes julgamos pela aparência? Quantas vezes excluímos pessoas por sua condição social, por onde moram, por como se vestem? Deus nos ensina a olhar com outros olhos – os olhos do coração. 

Segunda Leitura: Efésios 5,8-14 

“Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz.” 

São Paulo é direto: pelo Batismo, fomos arrancados das trevas e nos tornamos filhos da luz. Mas isso exige de nós uma vida coerente. A luz produz bondade, justiça e verdade. As obras das trevas – mentira, injustiça, indiferença – devem ser abandonadas. 

Somos chamados a brilhar no mundo! Não podemos viver uma fé escondida. Nossa vida cristã deve iluminar os ambientes onde estamos: a família, o trabalho, a escola, a comunidade. 

Evangelho: João 9,1-41 – A Cura do Cego de Nascença 

“Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.” 

Este é um dos evangelhos mais ricos e profundos da Quaresma. Jesus encontra um homem cego de nascença e o cura. Mas a cura física é apenas o começo: ao longo do relato, vemos o cego crescer na fé – primeiro reconhece Jesus como “um homem”, depois como “um profeta”, até finalmente proclamá-lo “Senhor” e adorá-lo. 

Em contraste, os fariseus – que diziam enxergar tudo – permanecem cegos, presos em seus preconceitos e rigidez. 

A grande pergunta que o Evangelho nos faz: Quem é verdadeiramente cego? Aquele que não vê com os olhos físicos, ou aquele que se recusa a ver a verdade, o sofrimento do próximo, a presença de Deus? 

Conexão com a Campanha da Fraternidade 2026: “Fraternidade e Moradia” 

A Campanha da Fraternidade deste ano nos desafia a abrir os olhos para uma realidade que muitos preferem não ver: milhões de brasileiros não têm um lar digno. Famílias inteiras vivem em condições precárias, em áreas de risco, sem saneamento básico, sem segurança. 

O Evangelho do cego de nascença ilumina profundamente este tema: 

Jesus viu o cego – não passou ao largo, não fingiu que ele não existia. E nós, vemos os sem-teto? Vemos as famílias que moram em barracos? Ou preferimos a cegueira confortável? 

Jesus tocou o cego – Ele se aproximou, fez lama, ungiu seus olhos. Que gestos concretos fazemos para tocar a realidade de quem não tem moradia? 

Jesus deu dignidade ao cego – Depois de curado, o homem pôde participar plenamente da sociedade. Moradia digna é questão de dignidade humana, não de favor ou caridade. 

O lema “Ele veio morar entre nós” recorda que Deus, em Jesus, quis ter um lar entre os homens. Ele conhece o que é nascer num estábulo, fugir como refugiado para o Egito, não ter onde reclinar a cabeça. Cristo se identifica com quem não tem casa. 

Um Forte Convite à Confissão Sacramental 

Irmãos e irmãs, estamos na metade da Quaresma. É hora de fazer um exame de consciência sincero: 

Tenho vivido como filho da luz ou tenho me acomodado nas trevas? 

Meus olhos estão abertos para Deus e para o próximo, ou estou espiritualmente cego? 

Tenho julgado os outros pelas aparências? 

Tenho sido indiferente ao sofrimento de quem não tem moradia digna? 

O Sacramento da Reconciliação é um verdadeiro banho de luz. Na Confissão, apresentamos nossas trevas ao Senhor e Ele, com sua misericórdia infinita, nos restaura como filhos da luz. 

Não deixe para a última hora! Procure seu pároco, participe das celebrações penitenciais comunitárias, aproveite os horários de confissão em sua paróquia. A Páscoa se aproxima – prepare seu coração para vivê-la em plenitude! 

“Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará!” (Ef 5,14) 

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