Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Na quinta etapa do nosso caminho quaresmal, a Palavra de Deus continua a desafiar-nos à conversão, ao reencontro com Deus, à vida nova. Este é o tempo de desatar os nós que nos prendem à morte, de sair dos cantos sombrios do nosso comodismo e de abraçar aquela oferta irrecusável de vida que Deus insistentemente nos faz. Hoje estamos diante do sétimo e último dos sinais de Jesus no Evangelho escrito por São João. Os sinais querem indicar uma realidade mais profunda, e também aqui, na ressurreição do amigo Lázaro, Jesus revela quem é Deus, mostrando o sentido de sua missão e as exigências feitas a seus seguidores e seguidoras.
Na primeira leitura – Ez 37,12-14 –, através da voz profética de Ezequiel, Javé promete aos habitantes de Judá exilados numa terra estrangeira, desesperados e sem futuro, uma vida nova. A leitura faz parte da cena dos ossos ressequidos, que mostra a situação de Israel no exílio da Babilônia. “Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo” – diz-lhes Deus. O desígnio de Deus para os seus queridos filhos é e sempre será um desígnio de vida; por isso, Ele nunca deixará de vir ao encontro do seu povo e de o guiar, pela sua própria mão, até às fontes da vida eterna. A promessa de vida nova começa com a ação de Deus, que anuncia uma transformação profunda, um despertar da morte para a vida. O termo hebraico ruah – espírito –, corresponde ao grego pneuma, revela mais que um simples sopro. É o princípio vital, a energia divina que revigora, anima e sustenta. Indica o princípio vital e a forma animadora que Deus insufla para dar vida, ressuscitar e renovar. A presença do espírito em nós não é apenas um dom futuro, mas uma realidade presente, capaz de renovar todo o ser. Quando já não resta esperança, o espírito de Deus sopra e a recria novamente, no coração do povo.
O Evangelho – Jo 11,1-45 – oferece-nos – a partir da história de um amigo de Jesus chamado Lázaro – uma magnífica catequese sobre o projeto de vida que Deus tem para o homem. Diz-nos que Jesus veio ao nosso encontro, enviado por Deus, para nos oferecer uma vida que a morte nunca poderá vencer. Àqueles que manifestam interesse em acolher essa vida, Jesus garante-lhes: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá”. Chegamos à vida se ousarmos seguir atrás de Jesus, como discípulos. Jesus se revela como a Ressurreição e a Vida. Ele não fala de algo distante, mas de um presente que se manifesta na fé e na confiança. A palavra grega zõe – vida – destaca a dimensão plena e eterna da vida que Jesus oferece. Essa vida não se limita ao tempo que vivemos, mas se estende para além, inaugurando a eternidade no hoje. Ao ouvir Jesus, Marta reconhece que, mesmo diante da morte, há esperança.
A morte de Lázaro, porém, devia servir para Jesus se revelar como a própria Ressurreição e a Vida. A resposta a essa revelação vem de Marta, uma mulher, a primeira pessoa no Evangelho segundo São João a professar a fé em Jesus como Messias enviado por Deus – nos outros Evangelhos, esse papel cabe a São Pedro –. E o encontro com Jesus, sempre transformador, leva Marta a procurar a Maria. Maria chora, todos choram. Jesus se comove – por três vezes – e também chora. Seu choro é o choro de Deus com a ausência de vida. É Deus chorando com a humanidade que sofre e chora.
O Deus de Jesus é capaz de trazer de volta à vida, desatar os panos que impedem o morto de sair do sepulcro e caminhar por conta própria. A fé na vida eterna passa, portanto, pelo nosso empenho nas ressurreições do dia a dia. Com a fé em Jesus – a Ressurreição e a Vida –, tantas pedras podem ser hoje removidas e tantas vidas restauradas. Essas pedras podem ter tantos nomes, como a ressignificação, a desesperança, o preconceito ou a falta de solidariedade. Jesus continua ordenando para todos nós: “removam a pedra!”.
Na segunda leitura – Rm 8,8-11 – o apóstolo Paulo convida os cristãos de Roma – e os discípulos de Jesus de todos os tempos e lugares – a relembrarem o compromisso que assumiram no dia do seu batismo e a viverem sob o domínio “do Espírito”. Aqueles que escolheram Cristo e que vivem no Espírito, pertencem a Deus e integram a família de Deus. Estão destinados à vida eterna, à vida plena e verdadeira. O Espírito daquele que ressuscitou Jesus habita em nós. Isso significa que não somos mais escravos da carne, daquilo que impede a vida plena. O Espírito nos dá a capacidade de viver, segundo o mesmo Espírito, uma existência marcada pela liberdade, pela esperança e pela força interior que supera a morte. Pelo batismo, o Espírito nos torna novas criaturas, pertencentes a Cristo ressuscitado.
O Espírito de Deus, que mora em nós, convoca-nos para caminhar desvencilhados dos laços mortais da descrença e do egoísmo. Com Marta e Maria, professemos nossa fé em Cristo Jesus, ressurreição e vida plena para todos os que se deixam iluminar por sua Palavra que nos livra das situações de desânimo. Peçamos as luzes divinas que nos encoraja a viver segundo o Espírito Santo que nos consola para contemplar Jesus como a ressurreição e a vida!
