Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Já passamos da metade do tempo da Quaresma. Tempo favorável de mudança de vida, de penitência, jejum, oração e caridade. Chegamos ao 4º Domingo da Quaresma, chamado Domingo Laetare, o domingo da alegria. A própria antífona de entrada da Missa reza: “Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos… exultai de alegria!” As leituras deste domingo propõem-nos o tema da “luz”. Definem a experiência cristã como “viver na luz”.
No Evangelho (Jo 9,1-41), Jesus apresenta-se como “a luz do mundo”; a sua missão é libertar os homens das trevas do egoísmo, do orgulho e da autossuficiência. Aderir à proposta de Jesus é enveredar por um caminho de liberdade e de realização que conduz à vida plena. Da ação de Jesus nasce, assim, o Homem Novo, isto é, o homem elevado às suas máximas potencialidades pela comunicação do Espírito de Jesus. Ao curar o cego de nascença, Jesus revela-se a luz da humanidade. O relato vai descortinando progressivamente quem é Jesus: Mestre, Profeta, Messias e Senhor. O episódio ilustra o itinerário cristão de busca de Jesus e de adesão a Ele.
Jesus se manifesta como a luz do mundo (Jo 9,1-41). O sinal da cura do cego — o sexto entre os sete sinais relatados no Evangelho de João — é realizado em um dia de sábado e liga-se à Festa das Tendas, festa da água e da luz. No Batismo fomos iluminados por Cristo e chamados a nos comportar como filhos da luz e a caminhar na luz.
Caminhar na luz é abandonar as falsas luzes; abandonar os discursos agressivos e polarizados, fugir das divisões e quebrar os muros de separação. Devemos vencer o egoísmo e deixar de lado os caminhos da competição e da busca doentia do lucro acumulativo e do descarte das pessoas. Esses comportamentos são do diabo.
“Pelo mistério da encarnação, Jesus conduziu à luz da fé a humanidade que caminhava nas trevas e elevou à dignidade de filhos e filhas os nascidos na escravidão do pecado, fazendo-os renascer das águas do Batismo”.
A Quaresma é tempo de iluminação para quem se dispõe a ser iluminado. Os fariseus, que pensavam enxergar bem, em sua autorreferencialidade, eram insensíveis ao sofrimento humano e guiavam-se por preconceitos, alimentando a cultura do descartável. O cego, ao contrário, dispõe-se a percorrer o caminho de adesão à luz que é Jesus: a princípio vê nele um homem; depois passa a considerá-lo um profeta; para, ao final, professar plena adesão: “Eu creio, Senhor!”
E as cegueiras em sua vida? Quais são as cegueiras que você terá de vencer? O preconceito? O legalismo? Nós precisamos curar os preconceitos, para que a luz de Cristo ilumine a nossa vida.
Na segunda leitura (Ef 5,8-14), São Paulo propõe aos cristãos de Éfeso que recusem viver à margem de Deus (“trevas”) e que escolham a “luz”. Em concreto, Paulo explica que viver na luz é praticar as obras de Deus: a bondade, a justiça e a verdade. Com o Batismo, nos tornamos luz no Senhor. O apóstolo nos convida a viver como filhos e filhas da luz, praticando a bondade, a justiça e a verdade e abandonando as obras das trevas.
A primeira leitura (1Sm 16,1.6-7.10-13) não se refere diretamente ao tema da luz (tema central na liturgia deste domingo). No entanto, narra a escolha de Davi para rei de Israel e a sua unção. É um ótimo pretexto para refletirmos sobre a unção que recebemos no dia do nosso Batismo e que nos constituiu testemunhas da luz de Deus no mundo. Davi é o ungido de Deus, eleito rei de Israel. As decisões divinas nem sempre coincidem com as humanas. As pessoas olham as aparências; Deus vê o coração. Na escolha de nossos representantes, é importante não se deixar levar pelas aparências, mas observar suas ações e realizações.
Assim como ao cego de nascença Jesus abriu os olhos, hoje Ele também nos abre os olhos da fé e da esperança, curando nossa cegueira e fazendo-nos enxergar os sinais vivos do seu amor. Nós somos chamados a crer no Filho de Deus. Não apenas com uma crença pessoal, mas com uma fé comunitária e eclesial. Peçamos ao Senhor que este tempo da Quaresma seja uma oportunidade única para curar nossas cegueiras espirituais e renovar nossa visão da fé.
