Jesus se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza!

Dom Anuar Battisti
Arcebispo emérito de Maringá (PR)

 

Como é que Deus vê as desigualdades gritantes que fazem sofrer tantos de seus filhos? O que Ele pensa daqueles que se instalam numa vida de bem-estar e não querem saber da sorte de seus irmãos? Os textos que a liturgia deste dia nos convida a escutar procuram responder a essas questões. Deixam claro que o projeto de Deus para o mundo e para os homens não inclui a injustiça, a exploração nem a apropriação, por parte de alguns, dos bens que pertencem a todos. Deus quer, para todos os seus filhos, uma vida digna, plena e feliz.

Na primeira leitura – Am 6,1.4-7 –, o profeta Amós denuncia com veemência o egoísmo dos ricos e poderosos, agarrados a uma vida de luxo e esbanjamento, indiferentes à sorte dos pequenos e dos pobres. Esta leitura reflete a situação do Reino do Norte, no século VIII a.C., época de prosperidade, mas também de ameaças diante da invasão assíria, que aconteceria pouco tempo depois. O profeta anuncia o desterro – o exílio – como consequência das injustiças praticadas pelos poderosos – reis, corte e elite – em desfavor dos pobres explorados.

“Ai de vós… que bebem vinho em taças, e se perfumam com os mais finos ungentos, mas não se preocupam com a ruína de José!” (José designa aqui todo o povo do Reino do Norte – Israel). Essa desproporção injusta entre ricos exploradores e pobres arruinados nos prepara para a meditação do Evangelho. Amós avisa que Deus não está disposto a suportar uma situação que contrasta com o projeto sonhado para o mundo e para os homens. Se Israel insistir em seguir nesse caminho, sofrerá as consequências de suas escolhas egoístas. O profeta revela que os primeiros a serem exilados na Babilônia seriam justamente os que viviam despreocupadamente. O grande desafio dos profetas, também hoje, é denunciar o escândalo de uma situação em que o luxo de poucos existe ao lado da indigência de muitos.

No Evangelho – Lc 16,19-31 –, Jesus, através da parábola do rico e do pobre Lázaro, ensina que é uma má opção assentar a própria vida sobre o dinheiro, o bem-estar, o conforto e os interesses egoístas. Quem se preocupa apenas em gozar a vida, permanecendo indiferente ao sofrimento dos irmãos, falha completamente no sentido da existência. E perceberá, no juízo final, que sua vida não valeu para nada.

O evangelista propõe combater a pobreza sem endeusar a riqueza, a qual deve cumprir uma função social. Não condena a riqueza em si, mas o mau uso dela e sua acumulação nas mãos de poucos. O amor desordenado ao dinheiro pode tornar as pessoas cegas para Deus e para os pobres, aprofundando ainda mais o abismo entre ricos e pobres, deixando estes sempre à margem.

A situação de Lázaro é dramática, terrível e desumana: os cachorros lambiam suas feridas. Morrem Lázaro e o rico explorador, que nada fazia para matar-lhe a fome. O abismo entre o rico anônimo e Lázaro permanece, mas de forma invertida. O pobre foi levado pelos anjos para o seio de Abraão – expressão semita que afirma o dom da salvação –, enquanto do rico apenas se diz que foi enterrado. Em meio aos tormentos, o rico pede por si e por seus irmãos, mas não é atendido: a situação é irreversível.

Para que não se chegue a tal destino, é necessário que, nesta vida, se ouçam e se pratiquem os ensinamentos de Moisés – a Lei de Deus –, dos profetas e do Evangelho de Jesus Ressuscitado. Todos nós sabemos que não podemos negar a atualidade desta página evangélica. Qual de nós pode negar o abismo injusto, terrível e desumano da sociedade moderna?

A segunda leitura – 1Tm 6,11-16 –, num tom diferente das outras duas, apresenta a “fotografia” do “homem de Deus”. Ele contrasta totalmente com o homem egoísta, apegado aos bens materiais, ambicioso e injusto. O “homem de Deus” é aquele que, correspondendo aos compromissos assumidos no batismo, torna-se sinal vivo da presença divina no meio de seus irmãos. São Paulo orienta os cristãos, sobretudo as lideranças das comunidades, a cultivar as virtudes: buscar a justiça, guardar a fé, viver o amor e a mansidão, fugir da ambição e conduzir a vida com dignidade.

Jesus se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza. Encerrando, em toda a Igreja no Brasil, o Mês da Bíblia, recordamos neste domingo o Dia Nacional da Bíblia e também a força transformadora da Palavra de Deus na vida da Igreja, Casa da Palavra. Lembramos a missão de todas as pessoas que se dedicam ao ensino e à meditação da Sagrada Escritura em nossas comunidades e grupos de oração, em especial nos encontros bíblicos.

Tenhamos consciência de que a Palavra de Deus nos exorta a não permanecer indiferentes diante dos que sofrem e vivem em condições precárias. Neste Dia Nacional da Bíblia, em pleno Ano Jubilar, que a Palavra do Senhor abra nossos olhos para ver a realidade em que vivemos e nossos ouvidos para escutar o clamor dos “Lázaros” sofredores!!

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