Dom Antônio Carlos Altieri
Arcebispo Emérito de Passo Fundo (RS) 

No coração da liturgia que celebra a Natividade de São João Batista, a figura de Zacarias emerge não apenas como o pai do precursor, mas como o protótipo do homem contemporâneo diante do mistério de Deus. Sacerdote idoso, justo aos olhos do Altíssimo, ele carregava no peito o peso de uma dupla esterilidade: a de sua casa, que não conhecia o riso de um filho, e a de sua época, um Israel que há séculos não ouvia a voz de um profeta. 

O drama de Zacarias começa no lugar mais sagrado, no Santo dos Santos, enquanto cumpria o seu dever ritual. Ao receber o anúncio do Anjo Gabriel de que suas orações haviam sido ouvidas, a resposta do sacerdote não é de júbilo, mas de ceticismo: “Como poderei saber isto? Pois sou velho e minha mulher é de idade avançada” (Lc 1,18). 

Há uma humanidade pungente nessa dúvida. Zacarias representa o perigo do cansaço da esperança. Ele continuava rezando por hábito, cumprindo seus deveres litúrgicos com perfeição, mas já não acreditava que a realidade pudesse mudar. Quantas vezes, nos tempos atuais, não nos assemelhamos a ele? Enredados no ativismo diário, na burocracia da vida e até das nossas comunidades, corremos o risco de anestesiar a fé, repetindo ritos, mas duvidando de que Deus ainda possa intervir no deserto da nossa existência. 

O emudecimento de Zacarias, frequentemente interpretado como mero castigo, revela-se, na pedagogia divina, como um período de profunda misericórdia. Diante da palavra que duvida, Deus impõe o silêncio. Em uma sociedade contemporânea marcada pelo ruído incessante, pelo excesso de opiniões e pela necessidade de reagir instantaneamente a tudo, o drama de Zacarias nos convida a redescobrir o valor do recolhimento. Ele precisou emudecer para que suas palavras deixassem de ser humanas e passassem a ser divinas. Nove meses de silêncio foram necessários para que o sacerdote deixasse de olhar para as suas limitações biológicas e passasse a contemplar a soberania da graça. 

O desfecho desse drama ocorre no nascimento do menino. Confrontado pelos parentes que queriam impor as tradições do passado e dar ao filho o nome do pai, Zacarias pede uma tabuinha e escreve, de forma categórica: “João é o seu nome” (Lc 1,63). Ao abrir mão do próprio nome para o filho, Zacarias rompe com o egoísmo e com a lógica da autoperpetuação. Ele aceita que o novo de Deus não é uma cópia do passado. No mesmo instante, sua língua se solta e ele não irrompe em reclamações ou justificativas, mas no Benedictus, um dos mais belos hinos de louvor da Escritura. 

Zacarias nos ensina que o fruto do verdadeiro silêncio diante de Deus é a profecia e a alegria. Que neste tempo de tantas incertezas, saibamos, como o velho sacerdote, recolher as nossas dúvidas no silêncio da oração, para que, transformados pela fidelidade de Deus, possamos também nós cantar que “o Sol nascente nos veio visitar”, iluminando os que jazem nas trevas e guiando nossos passos no caminho da paz. 

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