Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba (MG)
O equilíbrio vivencial, ou convivência ética entre as pessoas, depende muito dessas duas importantes virtudes, desses dois dons, justiça e bondade. As duas são complementares e ajudam na retidão de caminhada. Justiça significa dar a cada um o que lhe pertence. A bondade vai além das normas estabelecidas e cria sentimento de compaixão, empatia e consegue amolecer a rigidez da lei.
Diz o Salmo que “Deus é um justo juiz” (Sl 7,12). Também, que “é misericordioso e compassivo” (Sl 103,8). Se somos a imagem e a semelhança Dele, deve ser essencial, em nossa vida, a justiça e a misericórdia. É uma grandeza, que se deve expressar na compaixão e na maturidade quando fazemos as nossas escolhas, caso contrário, evidenciam-se a injustiça, o espírito de competição e de vingança.
A justiça e a bondade têm uma dimensão que ultrapassa os limites do humano. Por isto, são práticas divinas, com iluminação do Espírito de Deus nas atitudes de fé das pessoas. Assim, na relação entre os indivíduos, a Justiça e a bondade implicam respeito e defesa de direitos e deveres na convivência social. As decisões, nas relações, têm que ser feitas com muita sabedoria e liberdade responsável.
Há um profundo descuido em relação à prática da justiça em nosso país. São pessoas comprovadamente comprometidas com atos de injustiça e até em organizações criminosas. O que se percebe é a existência de políticos desonestos, que ainda se apresentam como candidatos a cargos públicos e, pior ainda, são eleitos. Com um voto sem compromisso, somos cúmplices dos erros na administração.
O Evangelho menciona a parábola do trigo e do joio, cenário referente ao bem e ao mal, aos atos de justiça, de bondade e de injustiça, presentes na sociedade. O interessante é que eles crescem juntos, cada um com sua força de ação e com consequências para vida pública. Na visão bíblica, serão separados, o trigo, isto é, o bem será preservado e o joio, os frutos da injustiça, serão queimados.
Muitos atos de injustiça são escandalosos, transgressores da lei e afrontam significativamente a justiça e a bondade. Sobre isso pesa a ação judicial. Diante de Deus, o que pesa de verdade é o juízo divino, com aceno para o choro e o ranger de dentes (cf. Mt 13,44), a condenação na eternidade. Mas Deus é sempre paciente e espera a mudança das pessoas em relação a seus atos de injustiça.
