Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Irmãos e irmãs, depois de iniciar a Quaresma com o sinal austero das cinzas, a Igreja nos conduz imediatamente ao deserto. O Evangelho afirma: “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mt 4,1). Não é o acaso que leva Jesus ao deserto; é o próprio Espírito. Isso significa que a Quaresma não é um tempo de fuga da vida, mas um caminho espiritual necessário para purificar o coração.
O deserto, na Bíblia, é lugar de prova e também de encontro com Deus. Foi no deserto que Israel aprendeu a confiar no Senhor. Agora, Jesus revive essa experiência, mas de modo perfeito. Onde o antigo povo caiu, Cristo permanece fiel.
A primeira leitura – Gn 2,7-9; 3,1-7 – mostra justamente o drama da humanidade: Adão e Eva escutam a voz da serpente e desconfiam de Deus. A tentação começa com uma distorção da verdade: “É verdade que Deus vos proibiu comer de toda árvore do jardim?” (Gn 3,1). O mal sempre começa assim, sem negar Deus diretamente, mas insinuando que Ele limita nossa felicidade. O pecado nasce quando o ser humano acredita que pode construir a própria vida sem Deus.
São Paulo – Rm 5,12-19 – explica esse contraste na segunda leitura: “Por um só homem entrou o pecado no mundo” (Rm 5,12), mas também afirma que “pela obediência de um só, todos se tornarão justos” (Rm 5,19). Cristo é o novo Adão. Ele refaz o caminho humano, vencendo exatamente onde a humanidade fracassou: na confiança em Deus.
No Evangelho – Mt 4,1-11 – vemos três tentações que, na verdade, resumem todas as tentações humanas.
A primeira é transformar pedras em pão. O tentador diz: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães” (Mt 4,3). Não é apenas fome física; é a tentação de viver apenas do material, de reduzir a vida às necessidades imediatas. Jesus responde com a Escritura: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4). O ser humano perde o sentido da vida quando esquece sua dimensão espiritual.
A segunda tentação acontece no alto do Templo: “Atira-te daqui abaixo” (Mt 4,6). É a tentação de usar Deus para proveito próprio, de exigir sinais, de querer uma fé baseada em espetáculos e garantias. Jesus responde: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Mt 4,7). A verdadeira fé não manipula Deus; confia nele mesmo no silêncio.
A terceira tentação mostra todos os reinos do mundo: “Tudo isso te darei, se te prostrares diante de mim” (Mt 4,9). Aqui aparece a sedução do poder, do domínio e da glória fácil. É a tentação de alcançar bons fins por caminhos errados. Cristo responde com firmeza: “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele servirás” (Mt 4,10). Nada pode ocupar o lugar de Deus no coração humano.
Percebemos então que Jesus vence não com força extraordinária, mas com fidelidade à Palavra. Ele combate o mal apoiado nas Escrituras. Isso ensina algo fundamental para nossa Quaresma: não vencemos as tentações apenas com esforço pessoal, mas permanecendo unidos a Deus.
A Quaresma é o nosso deserto espiritual. Todos enfrentamos tentações semelhantes: viver só para o consumo, buscar reconhecimento a qualquer custo, colocar segurança no poder, no dinheiro ou na aparência. O Evangelho mostra que o verdadeiro combate acontece dentro do coração.
O detalhe importante é que Jesus não dialoga longamente com a tentação. Ele responde com a Palavra e permanece firme. Muitas quedas espirituais começam quando começamos a negociar interiormente com aquilo que sabemos que não vem de Deus.
Ao final do Evangelho, lemos: “Então o diabo o deixou, e os anjos aproximaram-se e o serviram” (Mt 4,11). A vitória espiritual não elimina o combate, mas traz paz interior. Quem permanece fiel experimenta a consolação de Deus.
Este primeiro domingo da Quaresma nos convida a perguntar: onde está nossa maior tentação hoje? O que tenta ocupar o lugar de Deus em nossa vida? A Quaresma não é apenas renunciar a algo exterior, mas reorganizar o coração.
Cristo entrou no deserto para caminhar conosco. Ele conhece nossas fraquezas e nos ensina que a fidelidade é possível. Unidos a Ele, também podemos vencer, porque, como afirma São Paulo, “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20).
Que este tempo quaresmal nos ajude a fortalecer a oração, redescobrir a Palavra de Deus e confiar mais profundamente no Senhor, para que, caminhando com Cristo no combate espiritual, possamos chegar renovados à alegria da Páscoa. Amém.
