Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Somos convidados a refletirmos juntos sobre as riquezas da liturgia deste Décimo Primeiro Domingo do Tempo Comum, no nosso Ano Litúrgico A, reunidos em torno da Mesa da Palavra e da Eucaristia, nas nossas paróquias, capelas ou acompanhando-nos pelos meios de comunicação, somos todos convocados a fazer uma pausa nas agitações da nossa vida cotidiana para escutar a voz do Senhor. A liturgia deste domingo nos oferece uma das mais belas e profundas reflexões sobre a essência do amor de Deus, a gratuidade da nossa eleição e a urgência do nosso compromisso missionário. Neste domingo, a Igreja nos convida a fazer a passagem do estado de multidão necessitada para a condição de discípulos missionários, chamados pelo nome, curados pela misericórdia e enviados para transformar a realidade que nos cerca. Não há como permanecermos indiferentes diante da força da Palavra de Deus que acaba de ser proclamada em nossas assembleias.
O Evangelho segundo São Mateus, no capítulo nove, nos revela, de forma extremamente comovente e profunda, o olhar de Jesus sobre a humanidade. O texto sagrado nos diz que Jesus, “vendo as multidões, encheu-se de compaixão, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9,36). Paremos um momento sobre esta palavra fundamental: compaixão. No idioma original em que o Evangelho foi escrito, o termo utilizado descreve uma dor que nasce nas entranhas, um remexer das vísceras diante do sofrimento do outro. É o amor paterno de Deus manifestado no peito de Jesus Cristo. O Senhor não olha para a multidão com a frieza de um burocrata, nem com o julgamento implacável de um juiz severo que apenas condena os erros. Ele olha para o cansaço do povo e sofre com ele. Como é reconfortante saber que o nosso Deus não é um ser distante, alheio às nossas dores! Quando caminhamos pelas ruas da nossa metrópole, quando enfrentamos as longas jornadas nos transportes, quando vemos a angústia de tantas famílias diante do desemprego, da violência e da falta de sentido para viver, nós podemos ter a absoluta certeza de que Jesus continua a olhar para a nossa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro com esse mesmo olhar de profunda compaixão. Ele vê as ovelhas desorientadas de nossos dias. Ele conhece o fardo que cada um de nós carrega no silêncio do próprio coração.
Esse amor compassivo e zeloso não é, entretanto, uma novidade exclusiva do Novo Testamento, mas a plena realização e o transbordamento daquilo que o Senhor já havia revelado na Antiga Aliança. Na primeira leitura, retirada do Livro do Êxodo, no capítulo dezenove (Ex 19,2-6a), acompanhamos o momento fundante em que o povo de Israel chega ao deserto do Sinai. Ali, Deus propõe a Sua Aliança. Ele pede que Moisés recorde ao povo como Ele mesmo os libertou da escravidão do Egito, carregando-os como que sobre asas de águias. E então o Senhor faz uma promessa que até hoje nos enche de assombro pela sua beleza: “Se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim a porção escolhida entre todos os povos… vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”. Notemos que a iniciativa é totalmente divina. O povo de Israel não fez nada para merecer essa libertação a não ser gemer sob o peso da escravidão. A vocação não nasce do mérito humano, mas da gratuidade do amor de Deus que escolhe, que liberta e que consagra. É por isso que, com os corações transbordando de gratidão, nós aclamamos no Salmo Responsorial número noventa e nove (Sl 99/100): “Sabei que o Senhor, só ele, é Deus, nós somos seu povo e seu rebanho”. A nossa maior dignidade, a nossa alegria inabalável, reside na certeza desta pertença. Nós não somos órfãos vagando pelo mundo; nós somos o rebanho conduzido pela mão amorosa do Bom Pastor.
A gratuidade absoluta e radical deste amor atinge o seu ápice na revelação trazida pelo Apóstolo São Paulo na sua Carta aos Romanos, que escutamos como nossa segunda leitura (Rm 5,6-11). O Apóstolo dos Gentios nos lembra, de maneira contundente e libertadora, que fomos amados e justificados não por sermos santos, perfeitos ou impecáveis, mas justamente o contrário. São Paulo nos diz: “Com efeito, quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado”. E ele reforça essa verdade fundamental da nossa fé afirmando que “Deus demonstra seu amor para conosco pelo fato de que Cristo morreu por nós, quando ainda éramos pecadores”. Esta é a boa nova que destrói o nosso orgulho e nos cura das nossas pretensões de autossuficiência! No mundo em que vivemos, os favores costumam ser dados àqueles que podem retribuir, o amor muitas vezes é condicionado ao bom comportamento, e as oportunidades são reservadas aos que se mostram mais fortes. Mas a lógica do Reino de Deus inverte completamente os critérios do mundo. Cristo deu a Sua própria vida por nós quando ainda estávamos mergulhados no pecado, distantes Dele e até mesmo agindo como Seus inimigos. É a compreensão profunda desta misericórdia imerecida que deve motivar toda a nossa vida eclesial.
E é exatamente a partir desta constatação – de que somos ovelhas feridas que foram resgatadas pelo amor imenso do Pastor – que brota a urgência do nosso chamado à missão. Voltemos a olhar para o Evangelho deste domingo. A narrativa não se encerra com a contemplação de Jesus sobre a multidão cansada. A compaixão de Cristo deságua na ação, e Ele nos envolve neste dinamismo salvífico. O Senhor vira-se para os Seus discípulos e diz: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a sua colheita” (Mt 9,37-38). Antes de enviar, Ele manda rezar. Toda ação pastoral, toda iniciativa missionária em nossas paróquias, deve nascer da oração. Uma Igreja que não reza pelas vocações é uma Igreja que perdeu o sentido do seu próprio mandato. Em seguida, depois de pedir orações, o Evangelho no início do capítulo dez nos mostra que Jesus chama a si os Doze e lhes dá autoridade para expulsar os espíritos maus e para curar todo tipo de doença. Mateus faz questão de listar o nome de cada um deles (Mt 10,2-4). Simão, André, Tiago, João, Tomé, o próprio Mateus, o cobrador de impostos… Jesus chama pelo nome. Ele escolhe homens simples, pescadores incultos, pecadores públicos, homens de temperamentos difíceis. Ele não buscou os mais letrados ou os mais perfeitos moralmente para iniciar a Sua Igreja. Ele os chamou, capacitou-os com o Seu Espírito e os enviou com um mandato muito claro: “Por onde andardes, anunciai que o Reino dos Céus está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10,7-8).
O Evangelho deste domingo é um espelho para a nossa realidade. A ordem do Senhor ressoa com a mesma urgência nas ruas da nossa cidade maravilhosa. A messe continua imensa! A nossa metrópole, com as suas favelas, com o seu asfalto, com os seus hospitais lotados, com os seus presídios, com as suas escolas e universidades, com os seus condomínios, prédios, bairros abastados que tantas vezes escondem vazios existenciais profundos, é a multidão de ovelhas que precisa desesperadamente ouvir a voz do Pastor. E quem será a voz do Pastor hoje? Quem serão os braços do Pastor que irão enfaixar as feridas dos caídos? Somos nós! A missão não é uma tarefa exclusiva dos bispos, dos padres ou das religiosas. Em virtude do nosso batismo, cada um de nós é esse operário convocado pelo Senhor da messe. Nós fomos constituídos como a nação santa de que falava a leitura do Êxodo. E não precisamos ter medo da nossa pequenez, pois os Doze também eram fracos, e Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores. O que o Senhor nos pede hoje é a coragem de sair do nosso comodismo, de abandonar a tentação de sermos uma Igreja fechada nos nossos próprios muros, para nos tornarmos verdadeiros apóstolos da misericórdia. O mandato final de Cristo deve estar gravado nas portas de nossas casas e nas assembleias das nossas paróquias: “De graça recebestes, de graça deveis dar”. O perdão que você recebeu de graça no confessionário, distribua-o de graça ao seu irmão que o ofendeu. O consolo que você recebeu do Senhor em suas noites de pranto, leve-o de graça ao doente que agoniza no leito de um hospital. A vida plena que Cristo nos deu na cruz, testemunhe-a com alegria diante da nossa juventude que tantas vezes se perde nos caminhos das drogas e da violência.
Não podemos nos furtar a este chamado. Que a Santa Eucaristia que celebramos, verdadeira fonte e ápice de toda a nossa vida cristã, nos fortaleça nesta jornada. Alimentados pelo Pão do Céu, tornemo-nos operários destemidos e alegres na vinha do Senhor. Peçamos a intercessão de São Sebastião, nosso glorioso padroeiro e mártir, que não mediu esforços para anunciar a Cristo, mesmo custando-lhe a própria vida. E confiemos a nossa caminhada, as nossas famílias, o nosso clero e todos os leigos engajados em nossas pastorais ao Imaculado Coração da Virgem Maria, a primeira discípula e a grande missionária do Pai, Nossa Senhora da Penha, que do alto do seu santuário intercede por nossas famílias. Que Ela nos ensine a ouvir a voz do Senhor e a responder com um “sim” generoso e total, para que o Reino de Deus se faça cada vez mais presente no meio de nós.
