O amor que se faz lar: a família como ponte e alicerce 

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

Amados irmãos e irmãs da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Escrevo a vocês com o coração de pastor e os olhos voltados para a realidade do nosso povo. O nosso tempo apresenta transformações profundas e debates intensos. Diante dessas mudanças constantes, olho para as nossas raízes e afirmo uma verdade essencial, inegociável e atemporal: a família é o maior dom que o Criador confiou à humanidade. Não falo de um conceito teórico ou distante. Falo da realidade pulsante dos lares, feita de abraços, renúncias, perdão e de um amor que insiste em florescer mesmo nos terrenos mais áridos da nossa existência. 

Algumas visões contemporâneas tratam a família como uma prisão ou uma amarra de convenções que sufoca a individualidade. O desígnio de Deus, no entanto, estabelece exatamente o oposto. A família constitui a mais pura expressão de um amor que liberta, que acolhe a vulnerabilidade do outro e que oferece um porto seguro contra as tempestades do mundo. A sociedade moderna levanta questionamentos naturais sobre as formas de afeto. Conhecemos lares feridos e histórias de dor que exigem a nossa compaixão e o nosso cuidado pastoral diário. Contudo, atacar, escarnecer ou diminuir a instituição familiar destrói a base fundamental que sustenta milhões de vidas. Quando a sociedade fere a família, ela fragiliza a própria capacidade humana de amar e de encontrar o seu lugar no mundo. 

As Sagradas Escrituras revelam a força intransponível desse alicerce. A Bíblia não mostra famílias irreais, blindadas contra o sofrimento ou isentas de crises profundas. Ela apresenta lares de carne e osso que mudaram a história humana pela força da confiança mútua e da fidelidade a Deus. A Palavra de Deus atesta que o amor familiar suporta o peso do tempo e vence o impossível. 

O Livro do Gênesis nos entrega o testemunho monumental de Abraão e Sara. Eles enfrentaram a incerteza do desconhecido, o peso da idade avançada e a dor prolongada da esterilidade. O mundo via ali um fim de linhagem, um fracasso histórico. No entanto, eles confiaram em Deus e ampararam um ao outro. A promessa divina encontrou terreno fértil na união daquele casal idoso. Eles geraram Isaque e tornaram-se o berço da esperança para toda uma nação. A família de Abraão prova que o lar é o lugar onde Deus faz o impossível acontecer, transformando a fragilidade em força duradoura (Gênesis 21). 

O Livro de Rute oferece outra face belíssima e comovente da força familiar. O relato expõe o drama de Noemi, uma mulher devastada pela perda do marido e dos filhos em terra estrangeira. A dor e a viuvez ameaçavam destruir o seu futuro. Nesse cenário de desolação, sua nora, Rute, toma uma decisão radical movida pelo amor familiar. Rute recusa o caminho mais fácil do abandono e declara a Noemi: “Aonde quer que tu fores, irei eu; e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rute 1, 16). Esse juramento rasga o preconceito e a miséria. Rute e Noemi provam que os laços familiares ganham força máxima na solidariedade e na decisão inabalável de nunca abandonar o outro no momento da dor. O amor verdadeiro cria laços mais fortes que o próprio sangue. 

Os Evangelhos coroam essa visão através da Sagrada Família de Nazaré. José e Maria viveram a pobreza, a perseguição implacável do rei Herodes, o exílio no Egito e a incompreensão do mundo. Ameaças externas cercaram o nascimento e a infância de Jesus. José agiu como o escudo protetor daquela família. Maria envolveu o seu filho na ternura e na sabedoria. Eles criaram um espaço de intimidade tão verdadeiro e seguro que o próprio Filho de Deus encontrou ali o ambiente perfeito para crescer em estatura, sabedoria e graça (Lucas 2, 52). A família de Nazaré ensina que o lar blinda a vida contra os ataques da maldade humana. 

A Bíblia decreta e Jesus confirma no Evangelho de Mateus: a estrutura da vida exige rocha firme. “Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha” (Mateus 7, 25). A família é esta rocha. As tempestades políticas, econômicas e culturais sopram com violência constante, mas o aconchego do lar estruturado no amor impede o desmoronamento humano. 

A Igreja Católica ilumina essa realidade inegável através da voz firme e constante dos Sumos Pontífices ao longo das décadas. O Papa São João Paulo II dedicou parte expressiva do seu pontificado a lembrar o mundo de que o futuro da humanidade passa irremediavelmente pela família. Em sua inesquecível visita ao Rio de Janeiro em 1997, ele olhou para o nosso povo e declarou de forma categórica: “A família é uma comunidade insubstituível por qualquer outra”. Ele estabeleceu o lar como o santuário primordial da vida e o primeiro ambiente onde a pessoa humana descobre e consolida a sua dignidade intocável. 

O Papa Bento XVI alertou a sociedade civil sobre a necessidade vital e inegociável de preservar esse bem comum. Em tempos de relativismo agudo, ele afirmou: “A família constitui a célula primordial da sociedade, e, portanto, não deve ser destruída, mas defendida com coragem e paciência”. A defesa pública da família não nasce do ódio, do preconceito ou da intolerância. Ela brota do desejo genuíno de preservar a saúde moral da sociedade e a sanidade afetiva de nossas crianças e jovens. 

O saudoso Papa Francisco, que nos deixou em abril de 2025, transformou a abordagem da Igreja com a teologia da misericórdia. Ele definiu a família como o grande “hospital de campanha” do mundo moderno. O lar trata as feridas diárias com o remédio insubstituível do afeto. Francisco deixou um alerta claro e incisivo para os nossos dias: “Num mundo onde frequentemente se amaldiçoa, insulta, semeia discórdia, polui com as murmurações o nosso ambiente humano, a família pode ser uma escola de comunicação feita de bênção”. Ele rejeitou a amargura dentro de casa e instituiu a família como a escola definitiva do perdão, da paciência e da gratuidade. 

Hoje, o Papa Leão XIV guia a Barca de Pedro com um foco inabalável no encontro e na missão. Logo no início do seu pontificado, em maio de 2025, o Papa Leão XIV direcionou a Igreja para a construção de uma “paz desarmada”. Ele ordenou a edificação de “pontes por meio do diálogo” e reafirmou de forma vigorosa a premissa de que “Deus ama a todos”. O lar cristão espelha essa Igreja viva e atuante. A família forte acolhe as diferenças com respeito, cura as divisões e recusa terminantemente a lógica do conflito e da polarização destrutiva que envenena o mundo atual. 

Esse mesmo espírito de respeito e construção de pontes pauta a minha visão sobre os eventos culturais da nossa cidade. O Rio de Janeiro respira criatividade e celebra a vida através da arte e das manifestações populares de forma brilhante e intensa. A arte autêntica eleva o espírito humano, une o povo e constrói a compreensão mútua. Ela nunca ergue muros de ressentimento ou de segregação. A verdadeira cultura promove o encontro. Recentemente, algumas manifestações culturais em nossa cidade usaram referências à instituição familiar e à fé cristã de forma agressiva, pejorativa e dolorosa para muitos corações. 

A expressão da pluralidade e da liberdade artística não exige a ridicularização daquilo que sustenta emocionalmente e espiritualmente milhões de cidadãos cariocas e brasileiros. Uma mãe que sacrifica o seu sono e o seu corpo pelos filhos, um pai que enfrenta o suor do trabalho diário para manter o pão à mesa, avós que transmitem os valores da bondade em meio às dificuldades da vida compõem uma riqueza imensurável. Ninguém possui o direito de tratar essa realidade sagrada com escárnio ou deboche. A liberdade de expressão representa, sem dúvida, um dom precioso de uma sociedade democrática madura, mas ela exige a contrapartida da responsabilidade e o respeito absoluto pelo sagrado do outro. 

A cultura da paz necessita do empenho ativo de todos nós. O Rio de Janeiro abraça as pessoas; ele não divide o povo. A fé, a cultura e a família não ocupam trincheiras opostas na sociedade. Elas caminham lado a lado e enriquecem a nossa vida em comum. Façam de seus lares verdadeiras fortalezas de amor, perdão e acolhimento. A vivência respeitosa edifica a civilização. 

Que a Sagrada Família de Nazaré abençoe cada casa, cada pai, cada mãe e cada filho da nossa Arquidiocese. Que Deus ilumine os nossos passos com a força do amor verdadeiro e a coragem da paz. 

 

 

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