Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
A Solenidade do Sagrado Coração nos convida a redescobrir que fomos amados antes de aprender a amar.
Uma grande alegria nos reúne nesta sexta-feira, dia 12 de junho do ano da graça de 2026! Celebramos a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, uma das festas mais queridas pelo povo de Deus, especialmente aqui no Rio de Janeiro, onde o Cristo de braços abertos no alto do Corcovado nos lembra, a cada amanhecer, que estamos abraçados por um amor que não tem fim. Esse gesto de pedra e concreto aponta para algo muito mais profundo: o Coração de carne do Filho de Deus, que bateu por nós, que foi atravessado por uma lança e que, mesmo aberto, continuou a derramar vida. O coração do Cristo Redentor é o único órgão que também está reproduzido dentro da imagem. Foi uma devoção do Cardeal Leme com o Coração de Jesus, assim como ele também criou o Santuário do Coração Eucarístico de Jesus, sede da Obra da Adoração Perpétua na Igreja de Santana no Centro da cidade.
Neste dia, a liturgia nos oferece grandes janelas para contemplar esse mistério. E eu os convido a olhar por cada uma delas com olhos novos.
A primeira leitura nos leva ao Deuteronômio – Dt 7,6-11 –, e Moisés fala algo que deveria nos parar no meio do caminho. Ele diz ao povo: “O Senhor se afeiçoou a vós e vos escolheu, não por serdes mais numerosos que os outros povos — na verdade sois o menor de todos — mas, sim, porque o Senhor vos amou” (Dt 7,7-8).
Deus não escolheu Israel porque era poderoso. Não o escolheu porque tinha mais recursos, mais território, mais influência. Escolheu porque amou. Simplesmente porque amou. E esse amor não é uma emoção passageira. É aliança. É fidelidade. É um Deus que “guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações” (Dt 7,9).
Quando olhamos para a nossa cidade, o Rio de Janeiro, com toda a sua beleza e com todas as suas feridas, com a alegria do povo das favelas e das comunidades, e com a dor de quem perdeu um filho para a violência, com a fé das romarias à Nossa Senhora da Penha e com o cansaço de quem mal consegue chegar ao fim do mês, precisamos ouvir esse texto de Moisés como se fosse dito a nós, agora. Deus não nos escolheu porque somos os melhores. Nos escolheu porque nos ama. E esse amor é a base sobre a qual nos levantamos todos os dias.
Isso muda a forma como nos olhamos. Muda a forma como olhamos o outro. Aquele vizinho difícil, aquele familiar que nos feriu, aquele colega que nos decepcionou: todos eles também foram escolhidos por esse mesmo amor gratuito. Quando a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus nos convida a celebrar, está nos chamando a viver essa lógica nova, essa lógica do amor que não calcula e não exige mérito.
João, o discípulo amado, aquele que repousou sobre o peito de Jesus na última ceia e que ficou de pé diante da cruz quando quase todos fugiram, escreve com a autoridade de quem viu de perto. (Segunda Leitura da Missa – 1Jo 4,7-16) E o que ele viu, ele precisa compartilhar: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de reparação pelos nossos pecados” (1Jo 4,10).
Deus chegou primeiro. Essa é a grande notícia. Não precisamos conquistar o amor de Deus. Não precisamos nos tornar perfeitos para sermos aceitos. Não precisamos resolver tudo antes de nos aproximar. Ele já veio ao nosso encontro. Ele já deu o primeiro passo. O Sagrado Coração de Jesus é exatamente isso: o coração de Deus que se move em nossa direção antes de qualquer movimento nosso.
João ainda vai além e nos diz algo que tem força de missão: “Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor é plenamente realizado entre nós” (1Jo 4,12). O amor de Deus não foi dado para ficar guardado. Ele se completa quando circula. Quando sai de nós em direção ao próximo. Uma família que se perdoa, uma comunidade que acolhe o estranho, uma paróquia que abre as portas para quem está no fundo do poço: ali o amor de Deus está sendo plenamente realizado. Ali o Sagrado Coração de Jesus pulsa de verdade.
Nós, como Igreja no Rio de Janeiro, somos chamados a ser esse espaço onde o amor circula. Em cada hospital, em cada escola, em cada grupo de jovens, em cada visita ao doente, em cada gesto de reconciliação, o Coração de Jesus se torna presente e age. Não somos apenas admiradores dessa devoção. Somos instrumentos vivos dela.
O Evangelho de Mateus nos traz Jesus em oração – Mt 11,25-30 –. E é bonito perceber que antes de convidar os cansados, ele louva o Pai. “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25). Jesus começa pelo louvor. Começa pela gratidão. E esse é um ensinamento que vale para nós também: antes de agir, antes de correr, antes de resolver, parar e bendizer.
Depois vem o convite que tantos corações precisam ouvir hoje: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Quantas pessoas em nossa cidade carregam fardos que ninguém vê? O jovem que não encontra emprego. A mãe que cria os filhos sozinha. O idoso que vive no silêncio do abandono. O profissional que perdeu o sentido do que faz. Jesus os chama a todos. Sem exceção. Sem triagem.
E revela, nesse momento, o segredo do seu Coração: “sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Não é um Deus que grita. Não é um Deus que humilha. É um Deus que se abaixa. Que escuta. Que carrega junto. O jugo que ele oferece não é ausência de compromisso, mas é uma forma de caminhar onde o peso é dividido e o caminho tem sentido. “O meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,30). Não porque a vida deixa de ter dificuldades, mas porque ela passa a ter companhia.
A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus não é apenas uma data no calendário litúrgico. É um convite a uma forma de viver. A devoção ao Coração de Jesus, tão enraizada na tradição da Igreja e tão presente na espiritualidade do nosso povo, nos chama a três movimentos concretos.
O primeiro é o de receber. Parar, contemplar, deixar que o amor de Deus nos alcance de verdade. Muitos de nós vivemos tão ocupados que esquecemos de receber. A Eucaristia, a oração, o silêncio diante do Santíssimo Sacramento: esses são os lugares onde o Coração de Jesus nos toca e nos renova.
O segundo é o de testemunhar. João diz: “nós vimos, e damos testemunho” (1Jo 4,14). Quem recebeu esse amor tem a responsabilidade de contar. Não com discursos longos, mas com a vida. Com a forma de tratar quem está ao lado. Com a paciência no trânsito, com a generosidade no trabalho, com o perdão dentro de casa.
O terceiro é o de ir. A mansidão de Jesus não é passividade. É força que se doa. Somos chamados a ir ao encontro dos cansados, dos pequeninos, dos que ainda não ouviram que foram escolhidos por amor. A missão da Igreja nasce do Coração de Cristo e retorna a ele, mas passa obrigatoriamente pelo coração do mundo.
Que nesta solenidade, o Sagrado Coração de Jesus acenda em cada um de nós o desejo de amar como fomos amados, de servir como fomos servidos e de anunciar, com alegria e sem medo, que Deus chegou primeiro, que Deus é amor e que esse amor “é de sempre e perdura para sempre”, como canta o Salmo (Sl 102,17).
Rezemos juntos para que o Coração de Jesus seja cada vez mais conhecido e amado nesta cidade e em todo o Brasil.
Sagrado Coração de Jesus nós temos confiança em Vós!
