O coração que nos escolheu 

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

Quando o amor de Deus se torna carne, história e convite 

Há uma pergunta que, cedo ou tarde, cada pessoa faz a si mesma: “Sou amado de verdade?” Não com um amor que depende do que faço, do que produzo ou do que ofereço em troca. Mas um amor que me precede, que me escolhe antes mesmo de eu merecer qualquer coisa. A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus é, no fundo, a resposta de Deus a essa pergunta. E a resposta é clara: sim, você é amado. Primeiro, gratuitamente e para sempre. 

A liturgia de hoje nos conduz por três momentos que se completam: a memória de uma escolha, o fundamento de um amor e o convite de um coração. 

Uma escolha que não depende de nós 

Na primeira leitura desta Solenidade – Dt 7, 6-11 – Moisés fala ao povo com uma clareza que deveria nos surpreender ainda hoje. “O Senhor se afeiçoou a vós e vos escolheu, não por serdes mais numerosos que os outros povos — na verdade sois o menor de todos — mas, sim, porque o Senhor vos amou” (Dt 7,7-8). Israel não foi escolhido por mérito. Foi escolhido por amor. Ponto. 

Isso subverte toda a lógica humana. Vivemos num mundo que mede, que classifica, que elege os maiores, os mais fortes, os mais influentes. Deus age ao contrário. Ele se volta para o menor. Ele escolhe o que os outros ignoram. E faz isso não por impulso passageiro, mas com fidelidade de aliança: “um Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações” (Dt 7,9). 

Quando celebramos o Sagrado Coração, estamos diante desse mesmo Deus. Não de uma devoção sentimental, mas de uma revelação histórica: Deus amou primeiro, amou livremente e amou com constância. O coração de Jesus não é apenas um símbolo. É o lugar onde essa fidelidade se tornou carne, pulsou, sangrou e permaneceu aberto. 

Deus é amor — e isso muda tudo 

Na segunda leitura – 1Jo 4,7-16 – João não usa palavras por acaso. Ele escreve com a precisão de quem viu de perto e precisou de décadas para entender o que tinha diante dos olhos. “Deus é amor: quem permanece no amor, permanece com Deus, e Deus permanece com ele” (1Jo 4,16). Não diz apenas que Deus ama. Diz que Deus é amor. O amor não é um atributo entre outros. É a natureza do Pai. 

E como esse amor se manifestou? “Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos vida por meio dele” (1Jo 4,9). O Sagrado Coração de Jesus é exatamente isso: o amor de Deus que se torna visível, tangível, histórico. Não fomos nós que tomamos a iniciativa. “Não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou” (1Jo 4,10). Essa inversão é o coração do Evangelho. E ela nos liberta de uma espiritualidade baseada no esforço de conquistar Deus. Ele já veio ao nosso encontro. 

João ainda acrescenta algo que tem peso pastoral enorme: “Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor é plenamente realizado entre nós” (1Jo 4,12). O amor de Deus não fica guardado numa experiência privada. Ele se completa no amor fraterno. O Sagrado Coração de Jesus pulsa nas comunidades que se amam, nas famílias que se perdoam, nas equipes que se respeitam, nos serviços que se doam sem calcular o retorno. 

O coração manso que nos chama ao descanso 

Jesus faz, no Evangelho de Mateus – Mt 11, 25-30 –, uma das afirmações mais belas e mais desafiantes de toda a sua pregação: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Ele não chama os que já chegaram. Chama os cansados. Os que carregam peso. Os que estão no limite. 

E depois revela quem ele é: “sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Aqui está o núcleo da solenidade. O coração de Jesus não é um coração de poder ou de dominação. É um coração que se abaixa. Que escuta. Que acolhe sem julgamento imediato. Que revela o Pai não aos sábios que já sabem tudo, mas “aos pequeninos” (Mt 11,25), aos que ainda têm espaço para receber. 

O jugo que Jesus oferece não é ausência de responsabilidade. É uma forma diferente de carregar a vida. Com ele, o peso tem sentido. O caminho tem companhia. E o coração encontra onde pousar. 

Caminhai no Senhor 

Irmãos e irmãs, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus não nos pede apenas sentimento. Pede conversão. Pede que deixemos de buscar amor onde ele não existe, que paremos de nos provar aos olhos de um Deus que já nos escolheu. Pede que tratemos o outro com a mansidão que recebemos. 

Nesta solenidade, que o Coração de Jesus seja para nós mais do que uma imagem. Que seja um endereço. O lugar aonde voltamos quando estamos cansados, onde aprendemos a amar como fomos amados e de onde saímos com o fardo mais leve. 

O amor do Senhor Deus por quem o teme é de sempre e perdura para sempre. 

 

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