O descanso que vem de baixo 

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR) 

A humildade como caminho de encontro com Deus 

Há uma cena que o profeta Zacarias desenha com precisão desconcertante: um rei que chega não sobre um cavalo de guerra, mas sobre um jumento – Zc 9,9-10 –. Não com exércitos, mas com a paz. Não para dominar, mas para encontrar. Essa imagem, escrita séculos antes de Cristo, já revelava algo que o mundo prefere ignorar: o poder verdadeiro não precisa de barulho. 

Quando Jesus entra em Jerusalém sobre um jumento, ele não está apenas cumprindo uma profecia. Ele está revelando o rosto de Deus. E esse rosto, ao contrário do que a religiosidade superficial muitas vezes projeta, não é o de um juiz implacável que pesa nossos erros. É o rosto de alguém que vem ao nosso encontro. 

A sabedoria que os simples carregam. No Evangelho de Mateus – Mt 11,25-30 –, Jesus faz uma oração que surpreende. Ele louva o Pai porque escondeu os mistérios do Reino dos sábios e entendidos e os revelou aos pequeninos (cf. Mt 11,25). Isso não é um elogio à ignorância. É um alerta sobre o tipo de abertura que Deus exige. 

Os “sábios e entendidos” de que Jesus fala não são os estudiosos em si. São aqueles que, por conta do próprio conhecimento, fecharam o coração. Que acham que já sabem como Deus deve agir. Que constroem sistemas de segurança espiritual tão elaborados que não há mais espaço para a surpresa, para a graça, para o inesperado. 

Os “pequeninos”, ao contrário, são os que chegam com as mãos abertas. Não porque sejam ingênuos, mas porque reconhecem que precisam. E essa consciência da necessidade é a primeira forma de sabedoria. 

Quantas vezes, na vida da Igreja, na vida das comunidades, na vida de cada um de nós, a experiência acumulada vira uma armadura que impede o encontro real com o Senhor? A fé não é um patrimônio que se acumula. É uma relação que se renova todos os dias. 

O peso que carregamos e o descanso que nos é oferecido. Jesus olha para as pessoas ao seu redor e vê o cansaço. Não é uma observação abstrata. É um reconhecimento concreto: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). 

Esse convite atravessa os séculos sem perder nada da sua força. Porque o cansaço de que Jesus fala não é apenas o físico. É o cansaço de quem vive sob o peso de exigências impossíveis, de culpas não resolvidas, de relações que pesam, de uma religiosidade que cobra mais do que sustenta. 

Há pessoas que chegam à Igreja já cansadas. Cansadas de tentar ser perfeitas. Cansadas de sentir que nunca são suficientes. Cansadas de um Deus que parece sempre insatisfeito. 

Para essas pessoas, e para todos nós em algum momento da vida, Jesus diz: o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. Isso não significa que seguir a Jesus é fácil. Significa que o que ele pede não esmaga. Ele não carrega o fardo por nós de longe. Ele carrega junto. 

Viver segundo o Espírito. São Paulo, na carta aos Romanos – Rm 8,9.11-13 –, aprofunda essa mesma realidade por outro ângulo. Ele fala da vida segundo o Espírito como uma alternativa real à vida segundo a carne (cf. Rm 8,9.11-13). Mas o que isso significa na prática? 

Viver segundo a carne, para Paulo, não é simplesmente ter um corpo ou sentir prazer. É orientar a vida inteira pelo que é imediato, pelo que favorece apenas a si mesmo, pelo que fecha o horizonte no próprio eu. É uma forma de existir que, por mais que prometa satisfação, termina sempre em morte, porque se fecha ao outro e, portanto, se fecha a Deus. 

Viver segundo o Espírito é, ao contrário, deixar que o mesmo Espírito que ressuscitou Jesus habite em nós. Não como uma força mágica que nos dispensa do esforço, mas como uma presença que nos orienta, que nos sustenta quando vacilamos, que nos levanta quando caímos, como canta o Salmo 144: “Ele sustenta todo aquele que vacila e levanta todo aquele que tombou” (Sl 144,14). 

Essa vida não é uma conquista nossa. É uma resposta a uma oferta. O Espírito já está disponível. A questão é se abrimos espaço para ele ou se continuamos a encher esse espaço com o ruído das nossas ansiedades e certezas. 

Aprender de quem é manso e humilde. Jesus não diz apenas: “Venha descansar.” Ele acrescenta: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Há um convite ao aprendizado. E o conteúdo desse aprendizado não é uma doutrina, mas uma postura: mansidão e humildade. 

A mansidão não é fraqueza. É a capacidade de não usar o poder para impor, mas para servir. O rei que chega no jumento, de Zacarias, é a imagem perfeita disso. Ele tem autoridade, ele tem domínio, ele traz paz às nações. Mas não chega pisoteando. Chega ao encontro. 

A humildade não é autocomiseração. É o realismo de quem sabe de onde vem e para onde vai. É reconhecer que o que temos de melhor em nós não é obra exclusivamente nossa. Que a vida, a fé, a graça, tudo isso é recebido antes de ser conquistado. 

Numa cultura que glorifica a performance, que mede as pessoas pela produtividade e pela visibilidade, essa dupla de mansidão e humildade parece ingênua. Mas é exatamente ela que sustenta as relações verdadeiras, as comunidades que duram, as lideranças que transformam sem destruir. 

Um convite para esta semana: Irmãos e irmãs, neste 14º Domingo do Tempo Comum, a liturgia nos coloca diante de uma pergunta simples e exigente: que tipo de fardo estamos carregando? E de quem estamos aprendendo a carregar o peso da vida? 

Se o cansaço é real, o convite de Jesus também é real. Se a vida segundo a carne pesa, a vida segundo o Espírito é possível. Se a sabedoria nos fecha, a simplicidade dos pequeninos nos abre. 

Que possamos, nesta semana, dar um passo em direção ao Senhor que vem ao nosso encontro. Não com grandiosidade. Com simplicidade. Com as mãos abertas. Caminhai no Senhor. 

 

 

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