O dilema de um mundo sem consenso 

Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO) 

 

O início de 2026 encontra o mundo suspenso numa zona de ambiguidade histórica. Algo sutil e perigoso está em curso. Há uma corrosão dos critérios com os quais, desde 1945, aprendemos a diferenciar força de direito, soberania de arbítrio e correção de abuso, inaugurando um dilema moral, jurídico e civilizacional, e não apenas político. 

Como agir contra governos que corroem a própria legitimidade sem destruir, no gesto de correção, os fundamentos que ainda sustentam a convivência internacional? Como depor um governante que não quer sair do poder quando ele próprio tutelou as instituições encarregadas de removê-lo? 

A experiência recente da Venezuela tornou esse dilema quase didático em sua perversidade. Não se tratava de um tirano clássico, sustentado apenas pela violência ostensiva, mas de um dirigente que aprendeu a administrar o tempo institucional. 

Ele não aboliu eleições, esvaziou-as. Não fechou tribunais, domesticou-os. Não dissolveu o parlamento, transformou-o em cenário. A legitimidade não foi suprimida; foi cuidadosamente encenada. Criou-se, assim, uma tutela das instituições, uma legalidade que não corrige o poder, mas o perpetua. 

Diante disso, toda ação externa parece contaminada. Intervir é facilmente rotulado como golpe; não intervir, como cumplicidade. O direito internacional, concebido para arbitrar conflitos entre Estados soberanos relativamente estáveis, mostra-se frágil diante de regimes que não negam a legalidade, mas a consomem por dentro. O dilema, então, é como defender a democracia sem violar o princípio que a sustenta? 

Esse impasse torna-se ainda mais grave quando, em outro ponto do tabuleiro, países que sempre se apresentaram como pilares da ordem internacional passam a relativizar as mesmas regras que ajudaram a construir. Quando uma potência que pode agir militar, econômica e tecnologicamente começa a tutelar ou corroer as instituições internacionais em vez de sustentá-las, algo se rompe num nível tão profundo que não é mais apenas uma norma que é violada; é a própria ideia de norma que se enfraquece. 

Nesse contexto, as ameaças, ainda que retóricas, de anexação da Groenlândia pelos Estados Unidos ganham um peso simbólico devastador. Mesmo que jamais se concretizem, elas reintroduzem a expansão territorial como possibilidade legítima no discurso político, algo que, desde o pós-guerra, era considerado intratável entre democracias consolidadas. 

Após a Segunda Guerra Mundial, construiu-se a confiança de que ninguém mais reivindicaria o direito de reorganizar o mundo pela força. Um pacto frágil, mas decisivo. Hoje, esse pacto está rompido pela volta da ameaça como instrumento legítimo de negociação. 

A esse cenário, já instável, soma-se a emergência de projetos de civilizações-Estado, que não se reconhecem como países entre outros, mas como centros históricos com direitos difusos sobre territórios e povos como um terceiro movimento estrutural. 

A China, ao pensar-se cada vez mais como uma grande China, recupera uma gramática imperial na qual fronteiras contemporâneas são vistas como interrupções provisórias de uma continuidade histórica mais profunda. Países vizinhos deixam de ser plenamente soberanos e passam a ser compreendidos como zonas naturais de influência, segurança ou herança cultural. 

Essa lógica relativiza o direito internacional sem negá-lo frontalmente. Ele é reinterpretado, flexibilizado, contornado. O perigo não está apenas no conflito aberto, mas na aceitação progressiva da ideia de que a força histórica, econômica, demográfica, tecnológica, geram direitos políticos especiais. 

De modo ainda mais explícito, essa gramática manifesta-se na ideia de uma Rússia restaurada. A longa guerra contra a Ucrânia é a tentativa de reescrever o mapa moral do pós-Guerra Fria. Ao negar a plena legitimidade de um país vizinho, a Rússia desafia não um Estado específico, mas o princípio de que povos podem escolher seu destino fora das órbitas imperiais do passado. 

A guerra Russa surte o seu efeito pedagógico. Vizinhos observam; a Europa reencontra fantasmas que julgava superados e a força voltou a ser argumento para corrigir a história. 

É nesse ponto que tudo pode se acelerar. Quando diferentes potências, cada uma à sua maneira, passam a questionar os limites civilizacionais, cria-se um efeito de contágio. A exceção deixa de ser exceção. O gesto de um legitima a audácia do outro. Mesmo ameaças não cumpridas produzem efeitos reais, pois deslocam o centro de gravidade do sistema internacional do direito para a capacidade de impor fatos. 

O mundo de 2026 inicia-se com uma crise de critérios. Já não está claro quem tem autoridade para julgar, nem com que instrumentos, nem até onde pode ir sem se tornar aquilo que pretende combater. Depor governantes que tutelam seus países parece necessário; fazê-lo corroendo os fundamentos da soberania parece autodestrutivo. Defender a ordem internacional exige força; usá-la em excesso dissolve a própria ordem que se busca preservar. 

O traço mais inquietante deste tempo é a sensação de que não estamos assistindo apenas ao fim de uma ordem, mas ao fim da crença de que uma ordem comum seja possível. Quando grandes potências passam a pensar-se como exceções permanentes, o mundo deixa de ser um espaço compartilhado e volta a ser um tabuleiro. E tabuleiros, como a história insiste em lembrar, não conhecem dilemas morais, apenas movimentos. 

Viver no dilema parece, por enquanto, a única saída. Não porque seja desejável, mas porque as alternativas fáceis já demonstraram seu custo histórico. Habitar o dilema significa reconhecer limites, aceitar a tensão, resistir à tentação das soluções absolutas num mundo que perdeu os critérios absolutos. 

É nesse ponto que o Evangelho de Cristo pode iluminar com juízos mais profundos. O Evangelho não promete atalhos, mas propõe um modo de atravessar o conflito sem perder a alma. Ele recusa tanto a dominação quanto a indiferença; denuncia a violência sem absolver a injustiça; insiste na verdade sem se render à lógica da força. Sua luz não elimina o dilema, mas impede que o dilema se converta em desespero. 

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