O gênio feminino: protagonistas da fé e da dignidade humana 

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

Neste Dia Internacional da Mulher, o nosso olhar se volta não apenas para uma celebração civil ou um registro no calendário, mas para uma profunda e necessária reflexão teológica, antropológica e social sobre a dignidade daquelas que são, por essência, as sentinelas do invisível e as guardiãs primordiais da vida. Celebrar a mulher, na perspectiva da fé católica, é reconhecer que o projeto de Deus para a humanidade jamais estaria completo sem a “ajuda adequada” (Gn 2,18), um termo que, no original hebraico, não denota submissão ou inferioridade, mas sim uma reciprocidade vital e uma plenitude de ser. 

A Sagrada Escritura é permeada por mulheres que, com coragem, audácia e uma sensibilidade espiritual aguçada, alteraram o curso da história da salvação. Se olharmos para o Antigo Testamento, encontramos figuras que desafiaram impérios e estruturas rígidas. Recordamos a liderança profética de Miriã, que conduziu o povo em cânticos de vitória; a coragem estratégica de Ester, que colocou a própria vida em risco ao interceder por seu povo diante do rei; e a força de Débora, juíza e profetisa que guiou Israel em tempos de incerteza. Elas nos ensinam que a força de Deus não se manifesta pelo poder mundano, mas pela fidelidade absoluta Daquela que confia na Sua justiça. 

No Novo Testamento, essa presença torna-se ainda mais vital e revolucionária. É impossível compreender a missão de Cristo e o nascimento da Igreja sem mencionar as mulheres que O acompanharam desde a Galileia. Em um tempo em que o testemunho feminino não tinha valor jurídico, Jesus rompeu barreiras ao dialogar com a Samaritana no poço e ao permitir que mulheres fizessem parte de Seu círculo mais íntimo de discípulos. Enquanto muitos dos apóstolos, tomados pelo medo, se dispersaram no momento da Paixão, as mulheres permaneceram firmes, em silêncio e oração, aos pés da Cruz. 

Foi Maria Madalena, a quem a tradição chama de “Apóstola dos Apóstolos”, a primeira a receber o anúncio da maior notícia da história: a Ressurreição. Sem a sensibilidade e a coragem dessas mulheres em irem ao sepulcro ao amanhecer, o anúncio da vitória de Cristo sobre a morte teria tardado a ecoar pelos ouvidos do mundo. A Igreja nasce, portanto, sob o signo do testemunho feminino. 

Não há como exaltar a mulher sem elevar os olhos e o coração para a figura de Nossa Senhora. Em Maria, a humanidade atingiu o seu ponto mais alto de cooperação com o Divino. O seu “Fiat” (Faça-se) não foi um ato de passividade resignada, mas uma escolha livre, consciente e extremamente corajosa. Ela aceitou o desconhecido para que o Verbo se fizesse carne em seu ventre virginal. 

Maria é o modelo perfeito da Igreja e de todo o gênero humano. Ela nos ensina que a verdadeira autoridade no Reino de Deus é o serviço desinteressado. Ela é a Mulher Revestida de Sol que, conforme o Apocalipse, enfrenta as forças do mal e protege a vida. Ao exaltarmos a Mãe de Deus, sob os títulos de Aparecida, de Fátima ou da Penha, estamos, na verdade, exaltando a dignidade de todas as mulheres. Em cada mulher reside essa capacidade mariana de gerar esperança, de nutrir a fé e de sustentar a caridade, seja através da maternidade biológica, que acolhe a vida em sua fragilidade, seja pela maternidade espiritual, que educa e guia as almas para o céu. 

A celebração deste dia internacional também exige de nós uma palavra de firmeza, conversão e correção fraterna. Infelizmente, ainda vivemos em uma sociedade que carrega as chagas abertas do machismo, da exclusão e da violência com o famigerado feminicídio. É uma obrigação moral, ética e, sobretudo, cristã, que cada homem compreenda que o respeito à mulher não é uma opção, mas um mandamento derivado da nossa criação à imagem e semelhança de Deus. 

O homem não foi criado para ser senhor da mulher, nem para subjugá-la com força ou autoridade vazia. São João Paulo II, em sua Carta às Mulheres, falava com propriedade sobre a dívida que a humanidade tem para com o “gênio feminino”. É urgente que lutemos por uma cultura que proteja os direitos das mulheres em todas as instâncias: na família, onde devem ser coprotagonistas; no mercado de trabalho, com salários justos e igualitários; e na vida pública, onde sua voz é indispensável para o bem comum. 

Repudiamos veementemente toda forma de violência — seja ela física, psicológica, patrimonial ou moral — que tente calar o protagonismo feminino ou ferir sua integridade. Como cristãos, não podemos ser coniventes com qualquer estrutura que degrade a mulher. Uma sociedade que não protege, não ouve e não honra suas mulheres é uma sociedade que caminha para o deserto da desumanização. 

A história da Igreja é escrita, em grande parte, com mãos femininas e corações apaixonados por Deus. Como não nos emocionarmos com o exemplo de Santa Dulce dos Pobres, o “Anjo Bom da Bahia”? Com sua saúde debilitada, mas uma fé inabalável que movia montanhas de indiferença, ela ergueu hospitais e acolheu os esquecidos, provando que a caridade não conhece limites quando é movida pelo amor feminino. Ela personifica a Igreja que sai de si mesma para servir. 

Recordamos também a audácia intelectual e espiritual de Santa Teresa d’Ávila, Doutora da Igreja, que reformou ordens inteiras com sua determinação; a pequena via de Santa Teresinha do Menino Jesus, que ensinou o mundo a amar nas pequenas coisas; e a sabedoria de Santa Catarina de Sena, que não temeu aconselhar e exortar papas. 

Não podemos esquecer da sabedoria e dos conselhos da Beata Francisca Isabel de Jesus, a mineira Nhá Chica de Baependi, na Diocese da Campanha, que repleta da sabedoria divina, mesmo analfabeta, era conselheira admirável de todos aqueles que batiam em sua porta e exercia o ministério da escuta e da profecia colocando a sua confiança unicamente em Deus e na “minha Sinha” – como ela carinhosamente se referia a Nossa Senhora da Conceição que atendia, infalivelmente, todos os seus pedidos, por mais difíceis que fossem.  

Contudo, além das santas canonizadas, desejo render graças pelas “santas da porta ao lado”: as avós, mães e catequistas que, no silêncio dos lares e das comunidades, são as verdadeiras responsáveis pela manutenção da fé católica. São elas que ensinam as primeiras orações, que transmitem os valores do Evangelho e que mantêm vivas as nossas paróquias através do serviço pastoral, da liturgia e da caridade. Sem as mulheres, a transmissão da fé às novas gerações sofreria uma interrupção irreparável. Elas são a coluna vertebral da nossa vida eclesial. 

Ao final desta reflexão, elevo minhas preces ao Pai das Misericórdias por todas as mulheres brasileiras e do mundo inteiro. Rezamos pelas mães que se sacrificam diariamente, pelas profissionais que lutam com ética por seu espaço, pelas consagradas que são o pulmão orante da Igreja e pelas jovens que carregam nos olhos o brilho de um futuro mais justo. 

Que a Igreja de São Sebastião do Rio de Janeiro e de todo o Brasil continue a ser um espaço onde o protagonismo feminino não seja apenas um discurso, mas uma realidade vivida e incentivada, seguindo o exemplo do próprio Jesus, que sempre tratou as mulheres com uma reverência e uma dignidade que desafiavam os preconceitos de Sua época. 

Que Nossa Senhora Aparecida, nossa Mãe e Padroeira, cubra com seu manto de proteção todas as mulheres, fortalecendo-as em suas lutas, consolando-as em suas dores e iluminando-as na nobre missão de serem luz, sal e fermento de um mundo novo, mais humano e mais fraterno. Deus as abençoe hoje e sempre. 

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