Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
A certeza da vitória de Jesus sobre a morte continua a ecoar ao longo de cada hora deste “grande domingo”, que é o Tempo Pascal. Mas, neste Terceiro Domingo da Páscoa, a liturgia nos lembra, de modo específico, que também nós podemos experimentar a presença de Jesus, vivo e ressuscitado, nos caminhos que percorremos todos os dias. Essa experiência nos transforma, renova, santifica e faz de nós testemunhas vivas do Ressuscitado.
No Evangelho (Lc 24,13-35), o “catequista” Lucas nos convida a acompanhar dois discípulos que, abalados pela aparente falência do projeto de Jesus, desistem da comunidade cristã e se põem a caminho de uma outra vida. No entanto, Jesus, sem se identificar, os acompanha no caminho, ajuda-os a encontrar respostas e devolve-lhes a esperança. Eles só o reconhecem quando, à mesa, Ele parte e reparte o pão. O relato — com um evidente “sabor” eucarístico — é uma maravilhosa parábola sobre os nossos desencontros e encontros com o Ressuscitado: Ele nunca deixa de nos acompanhar, de nos explicar o sentido da vida e de nos alimentar com a sua Palavra e com o seu Pão. O Ressuscitado revela as Escrituras aos discípulos de Emaús e é reconhecido ao repartir o pão. Ele caminha com a humanidade, e nós o reconhecemos quando partilhamos o pão da Eucaristia e também no dia a dia com os irmãos. Por isso, somos chamados a partilhar todos os dons e bens que recebemos.
É muito importante lembrar que quem se põe a caminho o faz porque busca e deseja encontrar. Assim fizeram os discípulos de Emaús. Ainda que suas expectativas humanas tivessem sido frustradas pelos acontecimentos recentes, continuavam inquietos. Por isso estavam a caminho, quando foram alcançados pelo Ressuscitado. Jesus os acompanha sem apressar o ritmo da caminhada, sem acelerar seus passos. Paciente, escuta suas inquietações, sem interferir. No momento certo, questiona: “O que ides conversando pelo caminho?”. No tempo oportuno, explica e esclarece. Jesus entra e permanece com os discípulos de Emaús. É um encontro que acontece à medida que o caminho, percorrido na inquietação, chega ao seu ápice no “partir o pão”. Nesse momento, os olhos dos discípulos se abrem e eles reconhecem Jesus.
Neste domingo, somos chamados a repartir o pão com quem mais precisa. Só quem reparte o pão de cada dia e o pão da Palavra de salvação reconhece Jesus como o Ressuscitado que caminha conosco no cotidiano. Estamos inquietos, percorrendo o caminho de Jesus, ou nos refugiamos em saudosismos e nas friezas mundanas?
No versículo 30 de Lc 24, ao entrarem no povoado, sentam-se à mesa. Jesus toma o pão, abençoa-o, parte-o e lhes distribui. É importante destacar o termo grego koinonia, que significa comunhão: comunhão de vida e partilha profunda entre os membros da comunidade. Esse conceito é fundamental para compreender a experiência dos discípulos ao redor da mesa. Somente quando participamos dessa koinonia e partilhamos o pão consagrado podemos, verdadeiramente, reconhecer Jesus como nosso Senhor e Salvador. Assim, a mesa eucarística torna-se o espaço privilegiado da revelação e do encontro com o Ressuscitado.
A primeira leitura (At 2,14.22-33) é um trecho do discurso de Pedro na manhã de Pentecostes. Ele anuncia aos habitantes de Jerusalém e ao mundo que aquele Jesus, assassinado pelas autoridades judaicas, venceu a maldade, a injustiça, a violência e a própria morte. Pedro, com ousadia profética, afirma: “disso todos nós somos testemunhas”. Esta é a Boa-Nova que os discípulos de Jesus, em todos os tempos, continuam a anunciar. Pedro proclama o núcleo da fé cristã: Jesus, rejeitado pelas autoridades, é reconhecido por Deus como seu enviado. Exaltado à sua direita, Ele nos torna participantes do Espírito que recebeu. Sua ressurreição é o centro da pregação da Igreja.
Na segunda leitura (1Pd 1,17-21), um autor cristão do século I recorda aos batizados a vocação fundamental a que são chamados: a santidade. Para reforçar esse apelo, lembra-lhes que foram resgatados por um preço altíssimo: o sangue precioso de Cristo. Ao ressuscitar e glorificar o seu Filho, Deus confirmou a proposta de vida que Ele nos trouxe. Fundamento da fé e da esperança, a ressurreição de Cristo inspira e orienta a vida dos cristãos em todos os tempos. Predestinado antes da criação do mundo, Jesus ocupa um lugar central no plano divino: está no coração de Deus e, ao mesmo tempo, é solidário com a humanidade.
O encontro com o Ressuscitado não acontece apenas no momento de partir o pão, mas em todo o caminho. Encontramos Jesus na escuridão de nossas dúvidas, até mesmo na dureza de nossos pecados; Ele está lá para nos ajudar, em meio às nossas inquietações. Está sempre conosco.
O Senhor nos acompanha porque deseja encontrar-nos. Por isso dizemos que o núcleo do cristianismo é um encontro: o encontro com Jesus. “Por que és cristão? Por que és cristã?”. Muitos não sabem responder. Alguns o são por tradição; outros não percebem que já encontraram Jesus. No entanto, Ele está sempre à nossa procura. Sempre. E nós trazemos dentro de nós uma inquietação. Quando essa inquietação encontra Jesus, começa a vida da graça, a vida plena, o verdadeiro caminho cristão.
Que o Senhor conceda a todos nós a graça de encontrá-lo todos os dias; de reconhecê-lo e saber que Ele caminha conosco em todos os momentos. Ele é o nosso companheiro de peregrinação.
O Ressuscitado continua caminhando conosco e nos convida a viver em comunhão com Ele, ao redor da sua Palavra e do Pão partilhado.
