O oásis em nossa caminhada quaresmal

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

Eu vim para salvar o mundo (Jo 12,47) 

O tempo santo e favorável da Quaresma é, por excelência, um itinerário de conversão e de retorno ao coração do Evangelho. A Igreja, em sua sabedoria milenar, oferece-nos este período de quarenta dias como um retiro espiritual em preparação para a celebração do Mistério Pascal, que é o centro da nossa fé. Neste contexto de penitência, jejum e esmola, somos convidados a olhar para as nossas próprias fragilidades não com o desespero de quem se vê perdido, mas com a esperança de quem sabe que o amor de Deus é infinitamente maior do que qualquer falta que possamos cometer. É exatamente nesta atmosfera de revisão de vida e de busca pela santidade que a Igreja vivencia um momento de particular intensidade espiritual com a iniciativa iniciada pelo Papa Francisco conhecida como 24 Horas para o Senhor, realizada tradicionalmente às vésperas do quarto domingo da Quaresma, o domingo Laetare, ou seja, da alegria que neste ano acontece nesta sexta e sábado, dias 13 e 14 de março. Esta jornada de oração e reconciliação tornou-se um verdadeiro farol de luz, recordando-nos que a misericórdia divina não é uma ideia abstrata, mas uma realidade palpável que nos alcança e nos transforma. O tema deste ano que o Papa Leão XIV escolheu é significativo: “Eu vim para salvar o mundo” (Jo 12,47) nos remete a colocar o centro de nossa vida nAquele que nos salva e conduz e, com renovado ardor, anuncia-lO ao mundo de hoje.  

A dinâmica desta iniciativa é de uma beleza singular e de uma profundidade teológica inestimável. Ao propormos que as igrejas permaneçam de portas abertas ininterruptamente durante um dia e uma noite, a Igreja envia uma mensagem visual e espiritual muito clara ao mundo: o coração de Deus nunca se fecha. Em nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, uma metrópole marcada pela pressa, pelo barulho incessante, pelas tensões sociais e, muitas vezes, pela angústia do isolamento urbano, ver as portas de um templo escancaradas durante a madrugada é um convite ao repouso no Senhor. É a concretização do apelo de Jesus narrado no Evangelho de Mateus: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”. A Igreja de portas abertas é o símbolo da Igreja em saída, que não apenas espera passivamente pelos fiéis, mas que se coloca como um hospital de campanha pronto para acolher os feridos da vida a qualquer hora do dia ou da noite, oferecendo-lhes o remédio da graça. É também a oportunidade da Igreja sair às ruas e à praças para atender as pessoas que passam e anunciar a todos a misericórdia de Deus. 

O coração desta jornada ininterrupta de oração é o sacramento da Reconciliação. O mundo contemporâneo, frequentemente marcado pelo relativismo moral, tem perdido a consciência do pecado. Quando perdemos a noção daquilo que nos afasta de Deus, perdemos também a imensa alegria de sermos perdoados. A confissão não é um tribunal de condenação, mas um encontro pessoal com o Pai das Misericórdias. A parábola do filho pródigo, tão central na espiritualidade quaresmal, ilustra perfeitamente o que acontece no confessionário: um Pai que aguarda ansiosamente o retorno do filho e que, ao vê-lo ainda de longe, corre ao seu encontro, abraça-o e restitui-lhe a dignidade de herdeiro. As 24 Horas para o Senhor oferecem a oportunidade propícia para que muitos que se encontram afastados da prática sacramental possam redescobrir a beleza deste abraço paterno. O perdão de Deus não apenas apaga as nossas faltas, mas reconstrói a nossa humanidade, devolvendo-nos a paz interior que as coisas deste mundo jamais poderão nos dar. 

Ao lado do sacramento da Reconciliação, a Adoração Eucarística sustenta estas preciosas horas de Vigília. Permanecer diante do Santíssimo Sacramento exposto no altar é um ato de fé suprema na presença real de Jesus Cristo entre nós. A adoração é a escola onde aprendemos a ouvir a voz de Deus. Em um tempo em que somos bombardeados por milhares de informações, imagens e opiniões a cada segundo, o silêncio diante da Eucaristia torna-se um ato de resistência espiritual e de libertação. Quem se ajoelha diante da Hóstia Consagrada reconhece que não é o senhor absoluto da própria vida, mas que depende inteiramente da Providência Divina. Além disso, a adoração Eucarística possui uma dimensão profundamente social e solidária. Enquanto adoramos o Senhor, levamos em nosso coração as dores da nossa cidade, intercedendo pelas famílias enlutadas, pelos desempregados, pelos doentes em nossos hospitais e por todos aqueles que são vítimas da violência. A oração Eucarística rompe as barreiras do individualismo e nos faz sentir responsáveis uns pelos outros. 

Exorto, com afeto de pai e pastor, todos os sacerdotes de nossa Arquidiocese a se colocarem com redobrada generosidade à disposição do povo de Deus para o atendimento das confissões durante esta jornada além dos atendimentos durante os mutirões de confissões e os atendimentos paroquais. Que cada sacerdote, agindo na pessoa de Cristo, seja um reflexo fiel da mansidão e da paciência do Bom Pastor. De igual modo, faço um apelo ardoroso aos fiéis leigos: sejam os missionários desta iniciativa. Convidem seus familiares, vizinhos e amigos, especialmente aqueles que por algum motivo se sentem excluídos ou indignos do amor de Deus, para fazerem uma breve visita ao Santíssimo Sacramento ou para procurarem o confessionário. Muitas vezes, uma simples palavra de incentivo, um convite feito com carinho, é o instrumento que o Espírito Santo utiliza para quebrar as barreiras do medo e da vergonha, proporcionando um encontro que pode mudar o rumo de uma vida inteira. 

É fundamental recordarmos que vivenciamos este momento em profunda comunhão com toda a Igreja Católica espalhada pelo mundo, unidos em oração sob a guia do nosso Santo Padre, o Papa Leão XIV. A barca de Pedro continua a sua travessia pelos mares da história, enfrentando os desafios do nosso tempo com a mesma confiança dos apóstolos, porque sabe que o Cristo Ressuscitado navega conosco. Perseverar nesta tradição das 24 Horas para o Senhor é reafirmar o nosso compromisso com a unidade da Igreja e com a missão de anunciar o Evangelho da esperança a todas as criaturas. Cada hóstia exposta e cada absolvição pronunciada em nossos templos formam uma imensa rede de graça que envolve o planeta, purificando a humanidade e apressando a vinda do Reino de Deus. A misericórdia é a força que vence o mundo e é o único antídoto capaz de curar as divisões que ferem a sociedade civil e a própria comunidade cristã. 

Que a Virgem Maria, a Mãe da Divina Graça, a quem invocamos sob tantos títulos de amor em nossa Arquidiocese, acompanhe cada passo desta nossa Vigília. Ela, que permaneceu de pé junto à Cruz de seu Filho, ensina-nos a não fugir diante do sofrimento e a confiar plenamente na vitória do amor sobre a morte. Que estas 24 Horas para o Senhor preparem os nossos corações para vivenciarmos os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus com uma fé mais viva e um amor mais autêntico. Que todos os que entrarem em nossas igrejas durante esta jornada possam sair transformados, irradiando a paz de Cristo em seus lares, em seus ambientes de trabalho e em toda a nossa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.  

 

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