O que você vende para comprar o que vale

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

 

 

Uma reflexão sobre escolhas, sabedoria e alegria a partir do Evangelho deste domingo

Caros irmãos e irmãs, há uma pergunta que atravessa a vida inteira de qualquer pessoa, seja ela crente ou não: o que eu estou dispondo a vender para conquistar aquilo que realmente importa? Não falo de vender no sentido comercial, mas no sentido mais profundo da palavra. O que eu abandono, o que eu deixo de lado, o que eu recuso para ter espaço de verdade para o essencial?

O Evangelho deste 17º Domingo do Tempo Comum, Mt 13,44-52, nos coloca diante dessa pergunta com duas imagens simples e fortíssimas. Um homem encontra um tesouro escondido no campo e vende tudo para comprá-lo. Outro encontra uma pérola de grande valor e faz o mesmo. Em ambos os casos, não há hesitação nem tristeza. Jesus diz que o homem age “cheio de alegria”. E aqui está o ponto que talvez passe despercebido em uma leitura apressada: quem descobre o valor verdadeiro de algo não sente que está perdendo, sente que está ganhando.

Isso muda completamente a forma como devemos entender o desprendimento cristão. Não é sacrifício amargo. É lucidez alegre. Quem já experimentou, ainda que uma única vez, a presença real de Deus tocando o coração, sabe que tudo o mais passa a ter outro peso. Não porque as coisas boas da vida deixem de valer, mas porque encontram seu lugar certo, deixando de ser o centro para se tornarem meios.

A primeira leitura – 1Rs 3,5.7-12 – nos apresenta o rei Salomão em um momento decisivo. Deus lhe oferece qualquer coisa que ele desejar, e o jovem

rei, consciente de sua fragilidade, pede um coração capaz de discernir entre o bem e o mal. Ele não pede riqueza, nem vitória, nem longevidade. Pede sabedoria para servir bem ao povo que lhe foi confiado. Em 1Rs 3,9, ele diz claramente: “Dá, pois, ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal”.

Quantas vezes, no meio das responsabilidades que carregamos, sejam elas familiares, profissionais ou comunitárias, nos falta exatamente isso: não informação, não estratégia, mas um coração que saiba discernir com honestidade o que é justo. A sabedoria que a Bíblia elogia não é acúmulo de conhecimento, é capacidade de julgar bem diante da vida real, com seus dilemas concretos.

O Salmo responsorial confirma esse caminho quando afirma, em Sl 118(119),72, que a lei de Deus vale mais do que milhões em ouro e prata. Uma afirmação corajosa para os tempos atuais, em que tantas vezes se mede o valor de uma pessoa pelo que ela possui, e não pelo que ela é capaz de discernir e de amar.

Já a segunda leitura, tirada de Rm 8,28-30, traz uma palavra de imenso consolo. São Paulo escreve que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus. Não significa que tudo o que vivemos seja bom, sabemos bem que não é assim, mas significa que nada fica fora do olhar amoroso de Deus, nem mesmo as dificuldades que atravessamos. Ele nos predestinou a sermos conforme a imagem de seu Filho, e esse é o horizonte final de toda vida cristã, tornar-se, pouco a pouco, mais parecido com Jesus.

Voltando ao Evangelho, ainda há a parábola da rede lançada ao mar, que recolhe peixes de todo tipo. É uma imagem que descreve com honestidade a própria Igreja: uma comunidade onde convivem, até o fim dos tempos, pessoas

em diferentes estágios de conversão. Isso deveria nos livrar de qualquer tentação de julgar precipitadamente quem está mais ou menos próximo de Deus. O julgamento definitivo pertence somente a Ele.

E Jesus encerra com uma imagem bonita: o discípulo do Reino é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas. A fé cristã não descarta a tradição recebida, mas também não teme a novidade que o Espírito sempre suscita. Equilíbrio entre memória e criatividade, entre raiz e caminho.

Queridos amigos, se hoje alguém nos perguntasse o que estamos dispostos a vender para comprar o que realmente importa, o que responderíamos? Talvez seja hora de rever prioridades, de pedir, como Salomão, um coração que saiba discernir, e de redescobrir, com alegria e não com peso, o valor imenso do Evangelho em nossa vida cotidiana.

Neste domingo – em que celebramos São Joaquim e Sant’Ana – rezemos por nossos avós e por todos os idosos. A Igreja os valoriza e preocupa com a sua inserção dentro da vida social! Deus os abençoe!

Que este domingo nos ajude a caminhar com esse olhar renovado, confiando que Deus, fiel à sua promessa, continua chamando, justificando e conduzindo cada um de nós à plenitude para a qual fomos criados.

Caminhai no Senhor.

 

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