O ramo verde, a cruz redentora e a luz do Círio 

Dom Andherson Franklin Lustoza de Souza
Bispo Auxiliar de Vitória (ES)

 

Caminho de Formação do Discípulo Missionário 

Os séculos IV e V foram muito fecundos em experiências e escritos catequéticos, marcados por fortes acenos bíblicos, espirituais, teológicos e litúrgicos. Destacam-se as catequeses mistagógicas de Cirilo e João de Jerusalém, os escritos de cunho catequético e mistagógico de Santo Ambrósio, os discursos catequéticos e indicações sobre o batismo de Gregório de Nissa e Basílio e, ainda, os escritos e reflexões de Santo Agostinho. 

Com a celebração dos sacramentos, na Solenidade Pascal, iniciava-se o primeiro período da Mistagogia, que acontecia durante os oito dias depois da Páscoa. Nesse tempo de graça, os neófitos, ou os recém-nascidos para a fé, com as vestes brancas do Batismo, participavam diariamente das celebrações da Eucaristia e das catequeses sobre os mistérios celebrados. Muitas dessas catequeses eram ministradas pelos bispos, que aprofundavam o significado dos mistérios celebrados nos sacramentos, de maneira especial, ressaltando o quanto os ritos deveriam impactar na forma como deveriam viver, como cristãos e cristãs; destacando o valor da nova vida que receberam e as suas implicações na vida cotidiana. O intuito era o de oferecer aos novos cristãos um mergulho profundo no mistério celebrado e nas implicações existenciais da vida cristã. 

No caminho trilhado ao longo da Semana Santa, todos são conduzidos por um itinerário profundo de fé, no coração das comunidades eclesiais, por meio do qual celebra-se a memória atualizada dos mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, por meio da qual nascem os verdadeiros discípulos missionários. Nos passos dessa Semana, na qual o Santo de Deus se entrega, por amor, para salvar a humanidade, são entregues três símbolos: o ramo verde, a cruz do Senhor e a vela acesa com o fogo novo. 

A Semana Santa tem início com o Domingo de Ramos, no qual, com a bênção dos ramos verdes, todo o povo, com entusiasmo, acolhe Jesus, canta hosanas e o reconhece como Rei, mas, ainda não compreende plenamente quem Ele é. De fato, os gestos realizados e as expressões indicam um sim que precisa amadurecer e superar a superficialidade momentânea da multidão. O ramo verde é o símbolo do início de um caminho que pode levar ao compromisso maduro e comprometido do seguimento discipular. Porém, para que isso aconteça, é necessário superar a inconstância frágil dos que procuram somente por pão e milagres, indo na direção dos que, com coragem e amor, abraçam o ramo maduro da cruz. 

Na Sexta-feira Santa, com o silêncio eloquente, todos os olhares e corações se dirigem para a Cruz de Cristo, atraídos para o trono da graça, como indica a Carta aos Hebreus. As multidões entusiasmadas se calaram ou transformaram a sua acolhida em rejeição e escárnio diante da nudez daquele que tinham aclamado como Rei. Diante da Cruz estavam, de pé, a Mãe de Jesus e o seu discípulo amado, ambos silenciosos, na contemplação do amor que sempre vai além, até à plenitude. A cruz de Cristo é manifestação do amor de Deus que sempre, de forma incansável, encontra a sua estrada para entrar e tocar a vida dos homens, sobretudo a vida dos que mais sofrem. O silêncio da celebração é rompido com a proclamação contundente: “Eis o lenho da cruz do qual pendeu a salvação do mundo”. No beijo adorante da cruz, todos são convidados a assumir a sua verdade mais plena, como discípulos missionários de Jesus Cristo. Isto é, a escolha e a decisão cotidianas de viver segundo a nova lógica do amor, que nasce da própria entrega do Salvador no ramo seco da cruz. 

No Sábado Santo, a bênção do fogo novo dá início à Vigília, rompendo a escuridão da noite do pecado e de todo mal, iluminando o Círio Pascal, coluna luminosa no caminho dos discípulos missionários. Diante do vigoroso anúncio: “Eis a Luz de Cristo”, aos poucos a assembleia se ilumina com as velas acesas nesta luz, que deve misturar o seu brilho à luz das estrelas e, ao longo de toda a noite, fulgurar. A luz vitoriosa do Ressuscitado não é guardada, mas partilhada, pois o verdadeiro amor não se contenta em salvar e iluminar a si mesmo, mas, ao contrário, sempre se dirige ao encontro do outro. Desse modo, a cada vela acesa, um discípulo missionário, que disse sim com os ramos nas mãos e abraçou a lógica amorosa da cruz, compreende a sua missão. Pois a verdadeira e amadurecida profissão de fé, vivenciada no coração da comunidade eclesial, é traduzida no compromisso e na atitude missionária. 

A oitava da Páscoa é, então, o momento de experimentar e fazer memória de tudo o que foi vivenciado ao longo da Semana Santa, de maneira especial por meio da recordação dos símbolos apresentados ao longo desse caminho. Na realidade eclesial do Estado do Espírito Santo, onde está plantada a Igreja particular da Arquidiocese de Vitória, a alegria da Ressurreição encontra uma ressonância própria na vivência da Festa da Penha. Nesse horizonte de fé, o povo peregrino se coloca a caminho, reunindo oração, memória e esperança, como quem prolonga, pelas estradas da devoção e da piedade popular, a luz que brotou da noite santa da Vigília. Assim, aquilo que foi celebrado no silêncio fecundo dos mistérios pascais torna-se experiência viva na caminhada do povo fiel, que, sob o olhar materno de Maria, aprende a reconhecer os sinais do Ressuscitado e a renovar, com simplicidade e confiança, a sua vocação de discípulo missionário. 

A Virgem da Penha, a Senhora das Alegrias da Ressurreição, guardava e meditava todas as coisas em seu coração, como afirma o Evangelista Lucas. Que, a seu exemplo, todos possam compreender o mistério do amor divino que, no ramo verde, convida à acolhida do Seu Filho. Por meio da cruz revela a plenitude de seu infinito amor, que a todos alcança e redime. E, por fim, na vela iluminada com a luz do Círio, a todos envia como verdadeiros anunciadores do Evangelho, discípulos missionários de Jesus Cristo, como sal da terra e luz no mundo. 

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