Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
A liturgia deste 17º. Domingo do Tempo Comum nos convida a refletir nas nossas prioridades, nos valores sobre os quais fundamentamos a nossa existência. Sugere, especialmente, que o cristão deve construir a sua vida sobre os valores propostos por Jesus. O capítulo 13 de Mateus apresenta sete parábolas de Jesus. Três delas estão no texto evangélico que será proclamado neste domingo. São parábolas que falam do Reino de Deus e das transformações que ele provoca.
A primeira leitura – 1Rs 3,5.7-12 – apresenta-nos o exemplo de Salomão, rei de Israel. Ele é o protótipo do homem “sábio”, que consegue perceber e escolher o que é importante e que não se deixa seduzir e alienar por valores efémeros. Toda autoridade deveria se pautar pelo poder exercido segundo a vontade de Deus, ou seja, com inteligência, sabedoria, discernimento e justiça. A nação cujas autoridades são sábias e justas proporciona grande alegria e felicidade ao povo.
No Evangelho – Mt 13,44-52 –, recorrendo à linguagem das parábolas, Jesus recomenda aos seus seguidores que façam do Reino de Deus a sua prioridade fundamental. Todos os outros valores e interesses devem passar para segundo plano, face a esse “tesouro” supremo que é o Reino. Faz-se necessário investir sem medo e com alegria no projeto do Reino dos Céus. As três parábolas – do tesouro, da pérola e da rede – consistem em comparações com o Reino dos Céus, o qual merece nosso empenho. As duas primeiras ressaltam a alegria da descoberta e da acolhida do Reino. A última trata da presença do bem e do mal na comunidade e na sociedade.
À medida que nos tornamos “discípulos do Reino dos Céus”, vamos tirando do tesouro “coisas novas e velhas”. Pois nem tudo o que é antigo deixou de valer e precisa ser descartado, assim como nem tudo o que é novo é bom. O que conta é sempre o critério da justiça que traz para o mundo o Reinado de Deus, e não outros reinados. Antigas ou novas, o importante é que as coisas que cultivamos e oferecemos ao mundo nos mantenham comprometidas com o Reinado do Deus de Jesus. Afinal, onde estiver nosso tesouro, aí estará também nosso coração, ou seja, nossas decisões e ações concretas em favor da justiça misericordiosa de Deus.
A segunda leitura – Rm 8,28-30 – convida-nos a seguir o caminho e a proposta de Jesus. Esse é o valor mais alto, que deve sobrepor-se a todos os outros valores e propostas. Deus desde sempre nos conheceu, nos amou e nos predestinou a sermos conformes à imagem do seu Filho, primogênito de muitos irmãos. O projeto divino visa tornar-nos todos irmãos e irmãs em Jesus e construir uma humanidade nova.
A mensagem que une Salomão e as parábolas de hoje é clara: o Reino de Deus requer discernimento, entrega total e um coração aberto à sabedoria divina, valores que nos conduzem à justiça e à vida eterna.
A decisão pelo Reino de Deus, uma vez tomada, não admite meias tintas, tibiezas, hesitações, jogos duplos. Escolher o Reino não é agradar a Deus e ao diabo, pactuar com realidades que mutuamente se excluem; mas é optar radicalmente por Deus e pelos valores do Evangelho.
Senhor, nós Te bendizemos pelo Reino dos céus que estabeleceste no coração do nosso mundo como um tesouro escondido e como um laço que nos conduz a Ti. Nós Te pedimos: dá aos teus fiéis a coragem de procurar em toda a parte o tesouro da tua presença escondida, para aí encontrar a riqueza do teu amor.
