Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)
À luz da fé cristã, o sofrimento não é romantizado, mas assumido com serenidade e esperança. O cristianismo não nega a dor, mas afirma que Deus a assumiu em si mesmo. No centro da fé cristã está a convicção de que o sofrimento humano foi habitado por Deus em Jesus Cristo. Não se trata de uma explicação abstrata para a dor, mas de uma presença concreta que a redime por dentro.
O hino cristológico da Carta aos Filipenses exprime com profundidade esse mistério: Cristo, “sendo de condição divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,6-7). Nesse movimento de kénosis, o Filho de Deus assume radicalmente a condição humana em tudo, exceto o pecado. Conheceu a rejeição, a incompreensão, a solidão, o medo e a angústia e, por fim, “humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,8).
A cruz, portanto, não é um atalho espiritual nem uma exaltação do sofrimento em si, mas o lugar onde a dor é ressignificada. Pela obediência amorosa, Cristo transforma o sofrimento em oferta e a morte em passagem. Deus o ressuscita, não anulando a cruz, mas revelando o seu sentido mais profundo. A fé não elimina o sofrimento, mas impede que ele se torne absurdo. Unido à cruz de Cristo, o sofrimento deixa de ser mero peso e pode tornar-se lugar de maturação humana e espiritual.
O apóstolo Pedro recorda que a provação, embora dolorosa, pode tornar-se caminho de purificação: “Por isso, fiquem alegres, ainda que agora, por pouco tempo, vocês precisem suportar, a duras penas, diversas provações. Isso para que a autenticidade da fé que vocês têm receba louvor, honra e glória, quando Jesus se revelar. Porque a fé que vocês têm é muito mais preciosa do que o ouro que desaparece e é provado pelo fogo” (1Pd 1,6-7). Assim como o ouro é purificado no fogo, também a fé, quando provada pela dor com verdade, é depurada, amadurecida e revelada em sua autenticidade.
É nesse horizonte que a experiência da amizade adquire verdadeira densidade teológica e existencial. O sofrimento torna-se mais suportável quando não é vivido na solidão, mas sustentado pela presença fiel de um amigo; presença que se oferece não apenas nas palavras, mas também nos silêncios partilhados. A proximidade discreta, a escuta respeitosa, a paciência que não exige mais do que o outro pode dar, o silêncio que acolhe e a palavra que não invade nem julga compõem uma autêntica liturgia da amizade. Trata-se de um amor que não cobra nem pressiona, mas espera, acompanha e sustenta, à maneira daquele amor descrito pelo apóstolo: “o amor é paciente… tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (cf. 1Cor 13,4-7). Não se trata de eliminar ou explicar a dor do outro, mas de permanecer com ele, sustentando-o enquanto atravessa a noite escura da alma e o aparente silêncio de Deus.
Quando a alma ferida encontra acolhimento sem exigência de perfeição, o sofrimento deixa de ser destrutivo e pode tornar-se formativo. Há dores que não decorrem de falhas morais, mas da própria sensibilidade humana. Quanto mais nobre a alma — mais sensível, marcada pela delicadeza espiritual e pela honestidade afetiva —, tanto mais ela se expõe à dor, mas também se torna capaz de maior beleza, profundidade e verdade. Não se trata de fraqueza, mas de humanidade em estado puro.
O sofrimento, quando assumido, acolhido, vivido e ressignificado, pode tornar-se lugar de redenção. O inverno não tem a última palavra. O sol, ainda que velado, não deixou de brilhar. E, às vezes, basta uma amizade verdadeira para sustentar a travessia.
