Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)
O Tempo Pascal constitui o centro luminoso de todo o ano litúrgico. Depois da grande noite da Vigília Pascal, a Igreja entra em cinquenta dias de alegria contínua, celebrados como “um único grande domingo”, até a solenidade de Pentecostes. A liturgia exprime assim que a ressurreição de Cristo não é apenas um acontecimento isolado, mas o início de um tempo novo na história da salvação.
A Escritura apresenta a ressurreição como a passagem definitiva da morte para a vida. São Pedro proclama no dia de Pentecostes: “Deus o ressuscitou, rompendo as cadeias da morte” (At 2,24). O Ressuscitado inaugura a nova criação e abre à humanidade o horizonte da vida eterna. Por isso, a liturgia pascal é marcada por sinais de luz, vida e renovação: o Círio Pascal, a água batismal, o canto do Aleluia e a abundância da Palavra de Deus.
Plenitude espiritual e comunhão com a igreja
A tradição da Igreja sempre contemplou esses cinquenta dias como tempo de plenitude espiritual. Santo Atanásio afirmava que “os cinquenta dias que seguem a Páscoa são como um único e grande domingo, no qual celebramos a vitória do Senhor”. Já Santo Agostinho recordava que “a ressurreição de Cristo é o fundamento da nossa alegria, porque nele já começou aquilo que esperamos para todos”.
Liturgicamente, o Tempo Pascal prolonga e desdobra o mistério celebrado na Vigília Pascal. Os evangelhos proclamados nas liturgias dominicais apresentam as aparições do Ressuscitado, revelando que Cristo continua presente no meio de sua comunidade. Ele se manifesta aos discípulos, fortalece sua fé e os envia em missão. A comunidade cristã reconhece o Senhor vivo na Palavra proclamada, na fração do pão e na vida fraterna.
Nesse tempo, a liturgia valoriza também o mistério do Batismo. Os neófitos, que receberam os sacramentos da iniciação na Vigília Pascal, são acompanhados pela comunidade no chamado período mistagógico. A Igreja contempla, assim, a passagem do pecado para a graça e da morte para a vida nova em Cristo. Como ensina São Paulo: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto” (Cl 3,1).
A Luz do Cristo Ressuscitado e o envio ao Espírito Santo
Outro elemento central do Tempo Pascal é a presença constante do Círio Pascal, símbolo do Cristo ressuscitado que ilumina a Igreja e o mundo. Ele permanece aceso nas celebrações para recordar que a luz de Cristo venceu as trevas do pecado e da morte. A liturgia insiste também no canto do Aleluia, expressão bíblica de louvor e alegria pela vitória do Senhor.
O caminho pascal culmina na solenidade da Ascensão do Senhor e se completa em Pentecostes, quando o Espírito Santo é derramado sobre a Igreja. Assim se manifesta plenamente o mistério trinitário da salvação: o Pai ressuscita o Filho e o Filho envia o Espírito que vivifica a Igreja.
Viver na Luz do Ressuscitado
O Tempo Pascal não é apenas uma memória litúrgica, mas uma experiência espiritual que transforma a vida cristã. A ressurreição revela que a história está aberta à esperança. Como recorda São Leão Magno: “A ressurreição de Cristo não pertence somente a Ele, mas é também a exaltação de todos os que nele creem”.
Celebrar o Tempo Pascal significa viver na luz do Ressuscitado, deixando que sua vida nova transforme nossas relações, nossa missão e nosso modo de habitar o mundo. A Igreja caminha na história sustentada por essa certeza: Cristo vive, e sua vitória já começou a renovar todas as coisas.
