Os sacerdotes de Cristo 

Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO) 

 

Há personagens que não pertencem propriamente ao cânon da Escritura, mas que, por força de sua beleza espiritual, acabam entrando no imaginário cristão como parábolas da alma.  

A grandeza dessas vidas não está apenas em ter partido em busca de Jesus, mas em ter descoberto, ao longo do caminho, que o verdadeiro encontro com o Senhor não se dá exclusivamente no esplendor das estrelas, mas também na obscuridade das feridas humanas. 

O sacerdote é um homem que parte em busca de Cristo e, no curso dessa busca, aprende que o Senhor se deixa encontrar no pobre, no ferido, no cativo, no coração quebrantado, no rosto cansado da humanidade. 

Lucas 4,16-21, ao retomar Isaías 61, oferece o fundamento desta reflexão. 

Jesus entra na sinagoga, recebe o livro, lê o profeta e pronuncia sobre si mesmo a palavra que resume sua missão: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor.” 

Nesse dia, o Verbo encarnado fez mais que interpretar a Escritura, ele a assumiu em sua própria existência. A unção do Espírito o envia para dentro do mundo e das delicadezas humanas, e dá início a um longo processo de cura. 

O sacerdote que o segue não é, antes de tudo, um homem da técnica religiosa, nem um administrador do sagrado, nem um especialista em direito canônico. É, acima de tudo, um homem visitado pelo Espírito e enviado às ruínas da humanidade. Seu futuro não dependerá da repetição dos métodos, mas da verdade de sua configuração com Cristo. 

Quanto mais o mundo se fragmenta, mais o sacerdócio precisa reaparecer como sinal de unidade; quanto mais a humanidade se torna órfã, mais o sacerdote precisa reaparecer como testemunha da paternidade de Deus; quanto mais se multiplicam as formas de cativeiro, mais ele precisa carregar em si a memória viva da libertação messiânica. 

Precisa ter fé inquebrantável que Senhor nascido em Belém e que falou em Nazaré é o mesmo Senhor que continua a caminhar pela história escondido nas chagas do tempo. 

O sacerdote do presente é um homem das interrupções. Não vive tão-somente de agenda, de protocolo, de compromissos formais. Precisa deixar a estrada prevista para atender à urgência do caído e socorrer com caridade aquilo que a eficiência não entende. 

Haverá ocasiões em que o amor de Cristo o obrigará a “atrasar-se” para não chegar atrasado à dor de um irmão. E talvez precisamente aí se manifeste a sua fidelidade. O Evangelho não conhece a pressa que abandona pessoas, pois Cristo não veio para organizar a superfície da vida, mas para consertar o que nela estava quebrado com a prontidão do amor. 

A missão do sacerdote é ainda descrita com imagens de grande força espiritual quando indica a necessidade de curar os corações feridos, consolar os que choram, trocar cinzas por coroa, luto por óleo de alegria, espírito abatido por veste de louvor. Trata-se, portanto, de restaurar a humanidade por dentro, devolvendo-lhe as suas possibilidade e esperanças. 

Não uma esperança superficial, feita de frases soltas lançadas sobre dores profundas, mas a esperança bíblica, que nasce quando Deus entra na história e faz brotar vida onde antes não havia nada. 

O mundo contemporâneo sofre de exaustão interior. Há multidões que já não sabem esperar. Há corações que perderam a linguagem da promessa. A missão sacerdotal deve assumir, agora, a responsabilidade de devolver à humanidade a coragem de crer que Deus ainda visita o seu povo. 

O futuro do sacerdócio passa também pela descoberta que há uma graça própria em estar junto, em suportar com o outro o peso da noite, em não abandonar ninguém ao exílio de sua própria dor. 

Pode-se dizer, então, que o sacerdote do presente é o homem que desce às periferias da alma e da história, carregando em si a memória de Nazaré, onde Cristo abriu o livro e revelou o segredo de sua missão. Carrega em si a pedagogia que descobriu o Rei nas demoradas exigências da caridade e a certeza de que a Igreja não existe para contemplar a si mesma, mas para prolongar no tempo a compaixão do seu Senhor. 

Homens que não se cansem de proclamar o ano da graça do Senhor, mesmo quando a dureza dos tempos parecer desmentir a promessa. Homens, enfim, cuja vida inteira diga com coragem indestrutível que o Reino já começou.

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