Paciência de Deus, pressa dos homens 

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR) 

Uma leitura pintura pastoral para o 16º Domingo do Tempo Comum 

 

Caros irmãos e irmãs, a paz de Cristo esteja em nosso meio. Há uma pergunta que atravessa o coração humano desde sempre e que a liturgia deste 16º. Domingo do Tempo Comum nos ajuda a enfrentar com honestidade: por que Deus demora tanto para agir contra o mal? Se ele é justo, por que não elimina de uma vez o joio que cresce dentro e fora de nós? A resposta que a Palavra nos oferece hoje não é uma explicação fácil, mas um convite a confiar num tempo que não é o nosso, e sim o de Deus. 

Quando a força se torna paciência 

A primeira leitura – Sb 12,13.16-19 – traz uma afirmação que merece ser lida devagar. O texto diz que a força de Deus é o princípio da sua justiça, e que justamente por dominar todo o poder, ele governa com clemência. Note bem, irmãos: não é a fraqueza que gera a paciência de Deus, mas exatamente o contrário. Só quem tem domínio total sobre todas as coisas pode se permitir esperar, corrigir com delicadeza, dar tempo ao arrependimento. 

Isso muda completamente a forma como muitas vezes entendemos autoridade e liderança em nossas próprias vidas. Quantos de nós confundimos firmeza com dureza? Quantas famílias, comunidades e ambientes de trabalho sofrem porque alguém pensa que exercer poder significa cortar, excluir, condenar sem dar chance? O Livro da Sabedoria nos ensina o oposto: o verdadeiro poder se revela na capacidade de ser humano, indulgente, paciente com as fraquezas do outro. Como diz o texto sagrado, Deus ensinou ao seu povo que o justo deve ser humano. 

E há uma frase nessa passagem que considero um verdadeiro tesouro espiritual, quando afirma que Deus deu aos seus filhos a confortadora esperança de que concede o perdão aos pecadores. Isso não é uma licença para o pecado, mas uma porta sempre aberta para quem deseja voltar. O salmo responsorial – Sl 85(86),5-6.9-10.15-16 – confirma essa certeza quando proclama que o Senhor é bom e clemente, cheio de amor, paciência e perdão. 

A oração de quem não sabe orar 

São Paulo, na segunda leitura – Rm 8,26-27 –, toca numa ferida comum a todos nós, a dificuldade de orar. O apóstolo confessa, com uma sinceridade rara, que muitas vezes não sabemos o que pedir a Deus, nem como pedir. Quem nunca ficou diante de Deus em silêncio, sem palavras, sentindo apenas um peso no coração que não conseguia traduzir em pedido? 

Pois bem, é justamente aí que o Espírito Santo age. Paulo diz que o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis, e que Deus, que conhece o íntimo dos corações, entende essa linguagem que nem nós mesmos compreendemos. Isso deveria nos libertar de uma certa ansiedade religiosa que às vezes carregamos, a de pensar que precisamos rezar com palavras bonitas e formulações corretas para sermos ouvidos. Não é assim. Basta abrir o coração. O Espírito faz o resto. 

O erro de querer arrancar o joio antes da hora 

Chegamos, então, à parábola central do Evangelho, Mt 13,24-43. Um homem semeia trigo em seu campo, mas durante a noite o inimigo semeia joio junto às boas plantas. Quando os empregados percebem a mistura, querem imediatamente arrancar as ervas ruins. E aqui está a resposta surpreendente do dono do campo, deixai crescer um e outro até a colheita, pois ao arrancar o joio, podeis arrancar também o trigo. 

Esta parábola fala diretamente à pressa que caracteriza nossa época. Vivemos numa cultura que julga e sentencia rapidamente, que divide o mundo entre bons e maus com uma facilidade perigosa, que muitas vezes esquece que o julgamento definitivo pertence somente a Deus. Jesus não está pedindo indiferença ao mal, longe disso. Ele está pedindo humildade para reconhecer que nós, seres humanos, não temos a visão completa que permite separar com precisão o trigo do joio, especialmente quando essa mistura acontece dentro do nosso próprio coração. 

Quantas vezes já não erramos ao julgar precipitadamente uma pessoa, uma situação, uma comunidade inteira, sem dar tempo para que o bem que também existia ali pudesse florescer? A paciência que Deus tem conosco é o mesmo tipo de paciência que ele nos pede para ter com os outros. 

Pequenas sementes, grande esperança 

As parábolas seguintes, do grão de mostarda e do fermento, completam este ensinamento com uma nota de esperança. O Reino de Deus começa pequeno, quase invisível, mas cresce de forma silenciosa até se tornar grande, capaz de acolher até os pássaros do céu. Um pouco de fermento é suficiente para transformar toda a massa. 

Isso é um convite direto a cada um de vocês que trabalha, serve, educa e cuida do próximo dentro de instituições, paróquias e famílias. Muitas vezes o que fazemos parece pequeno demais diante dos desafios enormes que enfrentamos. Mas o Evangelho nos assegura que não é o tamanho do gesto que importa, é a fidelidade com que ele é semeado. 

Um convite para caminhar 

Diante dessa Palavra, quero deixar um convite simples. Que aprendamos a ter, para com os outros, a mesma paciência que Deus tem para conosco. Que na oração confiemos no Espírito que intercede mesmo quando não temos palavras. E que, diante do joio que vemos crescer ao nosso redor e dentro de nós, tenhamos a humildade de confiar o julgamento final a Deus, dedicando-nos, enquanto isso, a semear o bem com perseverança. 

Caminhai no Senhor! 

 

 

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